El común olvido, de Sylvia Molloy

Vou começar pelo final: este livro, indicado a mim por Idelber Avelar, é uma obra-prima e está pedindo desesperadamente um tradutor como Eduardo Brandão ou como minha amiga Simone Vey.

É comum nos grandes romances a dificuldade para se dizer qual é exatamente seu tema. Por exemplo, Os Irmãos Karamázovi é um romance policial - um whodunit que pergunta “Quem matou o velho Fiódor?” – mas também é um livro filosófico – “A Parábola do Grande Inquisidor” -, religioso, um estudo de costumes e é tudo isso e mais, pois os grandes romances são representações tão perfeitas de suas situações que tornam-se símbolos que diferem de leitor para leitor, o qual passa a vê-lo a partir da perspectiva que lhe dá sua experiência e cognição. El común olvido é um romance moderníssimo. Não nos apresenta um labirinto de alegorias e metáforas de difícil interpretação, porém, sendo tão bom, verossímil e de penetração psicológica tão intensa, torna-se inevitavelmente símbolo.

El común olvido é narrado na primeira pessoa por Daniel e inicia-se com sua chegada ao Aeroporto de Ezeiza com as cinzas de sua mãe. Ele tinha emigrado para os Estados Unidos ainda criança, logo após a separação dos pais, acompanhado da mãe. Poucas vezes retornara à Argentina e o pai já morrera há anos. Lentamente, Daniel fala de si, de sua profissão de tradutor, da tese que escreve, mas o foco vai pouco a pouco apontando para o mundo externo. Podemos pensar que teremos um “Em busca da mãe perdida”, mas na verdade o que teremos será uma arrebatadora demonstração dos enganos de nossa memória, levada com virtuosismo pela autora. John Fowles escreveu que douramos ou pioramos nosso passado e o colocamos em nossa estande de forma a apresentá-lo quando solicitado. Daniel também tem sua brochura colocada na estante, só que esta vai sendo corroída, distorcida, alterada e até tornada a antítese do que era, quando comparada com o que passa a saber. Talvez como símbolo desta destruição, Daniel perde as cinzas de sua mãe antes de jogá-las no rio da Prata.

Naquele momento da leitura, cheguei a pensar que o livro teria alguma trama policial com este MacGuffin no centro, mas a perda das cinzas maternas apenas aumenta a angústia – verdadeiro fio condutor da história – de Daniel, que segue completando as lacunas de um cenário que não mais existe e que não é nem um pouco parecido com sua brochura. Aparecem novos fragmentos, novas relações, novos personagens, novos e tão surpreendentes fatos que Daniel acaba por ver sua antiga identidade esvaindo-se. Sylvia Molloy trabalha tão bem a perda da identidade que tive a impressão de sentir fisicamente o vazio inteiramente sem lastro onde Daniel estava entrando. Cada item que é acrescentado ou retificado em sua memória, cada acontecimento, — a sexualidade da mãe, o acidente de carro, as brigas com o pai, a apresentação de Charlotte, o afastamento de Simón — torna impossível o retorno a sua vida anterior. As lacunas –- as que foram preenchidas, pois sabemos que há muitas mais — são preenchidas pela autora com a mesma lentidão e tranqüilidade com que Kafka comprazia-se (ou parecia comprazer-se) de nos mostrar coisas que nos pareciam verdadeiros horrores, não por si, mas pelo deslocamento a que sua aceitação nos obrigava. É importante dizer que Molloy tem de Kafka apenas a característica de ser imperturbável, pois seu humor e elegantes anedotas são tipicamente platinas.

Como escreveu Alejandra Josiowicz, o tempo e as eventualidades parecem rir-se da intenção ratificadora de Daniel. O contexto humano conspira contra a ordem que ele pretende impor à história, formando um quadro paranóico, do qual talvez seja melhor fugir. Ou nunca abandonar.

Leitura e tradução obrigatórias. E, notem, o livro é de 2002.

A pedido da Igreja Católica, Justiça proíbe foto de Carol Castro com um terço na Playboy

A Justiça Brasileira, sempre atenta aos problemas mais candentes da sociedade de nosso país, decidiu proibir a reutilização por parte da Editora Abril da foto abaixo, publicada na edição de agosto da Playboy. Motivo: o terço que Carol traz à mão para qualquer diabólica eventualidade. Afinal, a Igreja Católica, na qualidade de proprietária do fetiche, considerou-se ofendida, quedando-se revoltada contra a moça e a revista. A sanção é mais abrangente e impede a revista de, a partir de agora, publicar ensaios com quaisquer motivos religiosos. É isso mesmo: censura prévia. Assim, sinto-me tranqüilo ao saber-me protegido de coisas como esta:

E agora, oremos para que ela nos visite. E que traga o terço. Tão sexy…

Lia e Belle

A Liana Bozzetto

Lia era uma respeitável e emotiva senhora de setenta e cinco anos que há dezesseis vivia com Belle, uma cachorrinha da raça cocker. Tinha cinco filhos que a visitavam raramente, enquanto Belle nunca tivera uma ninhada, pois sempre vivera no pequeno apartamento acompanhada apenas de sua dona. Quem as conhecia sabia que se amavam. Belle seguia Lia onde quer que ela fosse, latia para os estranhos, pedia colo e, devido à pouca mobilidade de sua dona, engordava. Comiam da mesma comida, descansavam no mesmo sofá e dormiam uma ao lado da outra, Lia na cama e Belle no tapete, ao lado dos chinelos da dona. As reclamações das dores da idade, da ausência dos filhos, das fofocas dos vizinhos, dos preços da farmácia e do supermercado eram acompanhadas atentamente por Belle com o olhar triste e compreensivo dos de sua raça.

Numa madrugada gelada, Lia foi ao banheiro (ia muitas vezes durante a noite) e notou não ter sido acompanhada por Belle. Ao retornar, procurou sua cachorra ao lado da cama. Belle estava tranqüila, de olhos abertos e morta.

A perda fez Lia sofrer como nunca. Nem quando seu marido faleceu após longa doença sofrera tanto. O amor que sentia por aquele bichinho era imenso. Dependia daquele amor, assim como Belle dependia dela para comer e permanecer limpa, sem pulgas e perfumada. Porém Lia não desejava ser ridicularizada por amar tanto a um cão. Era cheia de pudores e discreta. Dessa forma, passou dois dias fechada em casa, chorando e se perguntando sobre o que seria sua vida sem sua querida. Quando um de seus filhos lhe telefonou, procurou esconder o luto. O filho nada notou; ademais, não queria saber de nenhum problema que o fizesse perder tempo. Tudo o que desejava era que sua mãe estivesse bem. Normalmente, era atendido.

No terceiro dia, Lia concluiu que teria de fazer alguma coisa com o corpo de sua companheira. Colocou-o num saco plástico; depois, acondicionou-o na caixa de papelão que fora da TV de seu quarto, preenchendo os espaços vazios com jornais velhos. Feito isso, ainda enrolou a caixa com papel de presente para que as pessoas não pensassem que ela carregava um aparelho de televisão pela rua. Finalmente, saiu de casa com Belle. Era difícil carregar a caixa, a cachorra era pesada e ela precisava pegar um ônibus para ir ao hospital veterinário. Sabia que muitos levavam os corpos de seus animais mortos para lá. Com esforço, chegou à parada. Apesar do casaco grosso, do blusão de lã, da camiseta de algodão, da caixa e dos jornais, parecia sentir nos braços o pêlo de sua companheira de anos. Subiu no coletivo equilibrando-se e, por sorte, conseguiu um lugar para sentar e descansar.

O ônibus foi ficando cheio e Lia levantou-se a fim de ficar mais próxima à saída. Perto da porta, estava um rapaz bem apessoado e educado que se ofereceu para segurar o incômodo fardo. Lia aceitou e, com o olhar embaçado, confidenciou-lhe que, naquele volume, iam suas melhores lembranças. O olhar risonho do moço pareceu consolador a Lia que, contida, lutava contra a emoção, quando a porta do ônibus abriu e o homem simpático disparou correndo, carregando consigo suas melhores lembranças.

No ônibus, algumas pessoas soltaram exclamações de surpresa, porém Lia, fiel a seu estilo, não fez escândalos. Disse-lhes que não se preocupassem, sentou-se novamente e foi até o fim da linha, voltando para casa no mesmo ônibus. Pensava no homem, no roubo e na surpresa que ele teria ao abrir o embrulho. Exibia discreto sorriso.

O torcedor feliz & As Olimpíadas

Os torcedores mais felizes de nosso Brasil-sil-sil são os do Flamengo, Corínthians e Vasco. Não existem times que sejam mais bafejados pelo providencial auxílio dos juízes. Quando o lance na área é complicado, isto é, quando o jogador adversário das citadas equipes não sofre uma agressão semelhante a uma galinha sendo cortada durante a ceia dominical, pode-se ter certeza: o pênalti não será marcado.

Nem dou mais importância, achei graça quando dois exemplares claríssimos dessas penalidades não foram assinalados em favor de meu time contra o Flamengo. Não creio que merecêssemos ganhar o jogo, mas que houve duas faltas dentro da área do Fla a nosso favor, houve. Os jogadores do rubro-negro já estão de tal forma acostumados que riam das reclamações dos pobres coloradinhos gaúchos. Fábio Luciano tem sua aposentadoria adiada pela bondade dos árbitros que não punem sua falta de velocidade. Jogar no Fla é o final de carreira ideal para um zagueiro.

Este assunto foi abordado há dois meses por Douglas Ceconello neste post bastante irônico. O autor se compadece dos flamenguistas mais sensíveis e francos que têm de admitir diariamente que foram novamente favorecidos. Com grande profundidade psíquica, o Dr. Ceconello interpreta corretamente a alma flamenguista cujo maior sonho é o de poder acordar um dia e dizer para si mesmo: “Fomos prejudicados”.

O que aconteceu ontem no estádio Beira-rio é a demonstração de que mesmo um árbitro que está completando 45 anos e que, portanto, viverá nos próximos meses a aposentadoria compulsória que não é dada ao velho Fábio Luciano, faz questão de depositar seu óbolo para a maior e mais feliz torcida do Brasil, roubando dois pênaltis que, afinal de contas, nem merecíamos bater. Eu, alma inquieta e infeliz, venho aqui desculpar-me pelo absurdo de investir contra uma instituíção tão insondável e divina quanto o Clube de Regatas do Flamengo. Estou quase às lágrimas, já desejando que nosso gol tivesse sido anulado, proporcionando-nos uma derrota purificadora. Juiz desgraçado. Por que não acabou logo conosco?

Assim, peço perdão ao árbitro Sérgio da Silva Carvalho, do Distrito Federal.

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As Olimpíadas sempre terminam em decepção e choro para o Brasil. Bobagem. Vi brasileiros encherem a caixa de comentários do péssimo blog de Bob Fernandes, do Terra, reclamando que nossa participação era uma vergonha, assim como as lágrimas e lamentações de nossos atletas. Porém, não creio que aqueles torcedores que hoje vão ao medonho blog do Bob tenham demonstrado algum interesse nos últimos quatro anos por, por exemplo, — aquele vilipendiado Jadel Gregório que teve participação absurda — segundo esses imbecis — no salto triplo em Pequim.

Hoje, para suprema irritação deste leitor que acredita que as pessoas podem melhorar, o beócio Bob ataca com outras armas:

Ótimo que a fieira de grandes derrotas imponha o debate, aberto, sem conclusões precipitadas: o Brasil precisa mesmo perseguir o objetivo de se tornar potência olímpica, precisa mesmo de uma olimpíada regada a dezenas de bilhões de dólares de dinheiro público, ou precisa que todos possam ter a chance de acesso a escolas dignas do nome e à prática massiva de esportes?

Bom, agora entendi. O boçal Bob — editor em chefe do Terra Magazin — ficava feliz a cada derrota porque estas apoiariam uma tese maior, que é a do boicote ao Rio 2016. Por que não foi logo claro em vez de ficar enchendo nosso saco com análises psicológicas sobre o choro de quem é o derrotado natural, segundo a besta Bob? O limitado editor em chefe do Terra deseja ver renascer nosso nem tão morto complexo de vira-latas? Por que utilizar o sangue de atletas apaixonados para divulgar sua bastante discutível tese, que não tem nada a ver com ridicularizar o pobre ginasta chorão, sugerindo que ele e outros “temeram vencer”?

Pois olha, Bob bronco, o Brasil foi muito bem: para um país onde apenas o futebol e o volei recebem apoio decente, tivemos uma chuva de medalhas e os muitos quases ouros foram transformados em “chouros” certamente pela falta de dinheiro, atenção, e cobertura de editores você, asno Bob, que, a partir de amanhã, esquecerão por quatro anos todos os outros esportes que não seja o futebol nosso de cada dia. Mas como é bom posar de lúcido!

Pego o estúpido Bob para Cristo, mas há vários outros por aí. É a hora de alguns jornalistas se vingarem de uma cobertura longa e cansativa.

Porque hoje é sábado, Juliette Binoche

A maioria de meus sete leitores ignora a verdade: …

… esta sabatina coluna só existe por causa dela. (As três primeiras fotos, que na verdade são uma só, são de Robert Doisneau (1912-1994). Há mais duas dele depois. São reconhecíveis.)

Inclusive já obtive autorização em casa: se encontrar Juliette Binoche aí pela rua…

… e se ela concordar, minha patroa permitirá tudo sem maiores problemas.

Não sei se ela demonstrará o mesmo entusiasmo que demonstrou por Daniel Day-Lewis, mas não custa fazer a experiência.

Espero que tais palavras tenham sido suficientes para caracterizar o tamanho de minha admiração.

Ela foi a primeira a aparecer em meu blog, claro. Naquela ocasião, um grande amigo pernambucano mandou-me a foto que segue, imensa e AUTOGRAFADA POR ELA.

Linda, não? Então, já tenho o autógrafo. O resto virá com o tempo, espero.

A propósito, tempo é o que não me falta. Afinal, já acumulei 51 anos.

A novidade é que, justo no dia de meu aniversário, bem no dia 19, Juliette dialogou comigo, conforme vocês podem ver abaixo:

Prova de nossa incontestável, inda que longínqua, ligação.

(Sinceramente, não sei se alguém nota que às vezes tento ligar texto e fotos. Não notam, né? Faço muito mal.)

Meu futuro affair posou para a Playboy no ano passado.

Como já tem 44 anos, creio que não fará outro desses “ensaios” e me poupará constrangimentos…

Juliette Binoche nasceu em Paris em 9 de março de 1964.

Extraordinária atriz, tem invejável currículo de filmes. Como trabalhará com Abbas Kiarostami este ano, …

… e, curiosamente, contracenou com Emir Kusturica em A Viúva de Saint-Pierre, de Patrice Leconte, …

… dá até para aumentar a superlista artificialmente.

Acima, uma foto que revela sua bem-humorada reação à última revista Veja (mais aqui e aqui) e abaixo…

… todas as caras de minha musa em formato bidimensional: Juliette Binoche.

Anotações Pessoais sobre Anton Tchékhov e E-mail recebido

Quando era menor, meu filho Bernardo às vezes perguntava: “Pai, qual é o teu escritor preferido?”. Minha resposta era que meu escritor preferido eram uns 100 caras. Quando ele insistia citava algo por volta de 10. Quem? Acho que Cervantes, Dostoiévski, Balzac, Kafka, George Eliot, Machado, Döblin, Stendhal, Virginia Woolf, Sterne, Thomas Mann, Tchekhov, mais ou menos isto. Mas, se meu inquisidor fosse implacabilíssimo como Fernando Monteiro em suas listas (vocês deveriam ler a RASCUNHO, repito!) e me ordenasse escolher um e somente um, eu - talvez estranhamente - escolheria Anton Pavlovitch Tchekhov.

Acho que gosto se discute sim. Em meu caso com Tchekhov, creio saber parcialmente de onde vem meu fascínio por suas histórias e peças de teatro. Estou consciente de algumas coisas que aprovo nele: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações (ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui), a imaginação para criar cenas e situações significantes, uma visão um pouco diferente do amor - o qual é visto sem muitas ilusões - e a total falta de preconceitos que o permite transitar por toda a sociedade russa do século XIX. Talvez ele não fale a todos da forma como fala a mim. Sei que Dostoiévski, Mann, Cervantes, etc. são melhores, porém insisto: Tchekhov é o meu escolhido. É também uma questão de convivência agradável, preferimos ficar com alguém cuja presença e essência nos seja amiga.

Era o verão de 1978, tinha 20 anos e passava férias na casa de minha irmã, que fazia pós-graduação no Rio de Janeiro. Lembro do dia: manhã chuvosa, temperatura amena, não ia dar praia. Voltei para a cama e peguei O Beijo e Outras Histórias. Pensava que, tendo lido quase todos os livros de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e Turguênev traduzidos na época, me restava conhecer aquele Tchekhov. Amava os russos e, naqueles anos, também os soviéticos… Então, comecei a ler O Beijo - uma boa história - indo depois para o conto da cachorrinha Kaschtanka. Gostei. Almocei no centro e, quando passeava pela Cinelândia, resolvi entrar na Biblioteca Nacional e pedir para ver o que eles tinham de meu novo escritor. Eles trouxeram poucos livros, mas, dentre eles, estava O Beijo.

Peguei o livro e continuei a lê-lo na BN. Passei a uma história que estava no final do livro: Enfermaria Nº 6. Em minha vida, li-a umas 4 vezes, a última deve fazer uns 15 anos. Talvez tenha sido minha maior experiência literária. Fiquei estupefato com a quantidade de humanidade que me era repassada, com a economia do autor, com a poesia condensada de sua prosa. Ali não havia teses a defender, nem grande enredo, mas havia uma sinceridade, uma nitidez nos personagens que me causou enorme impressão. Continuei a ler as histórias de trás para diante e conheci a irônica Uma História Enfadonha, na qual descobri que Tchekhov podia criar diálogos tão bons quanto os de Jane Austen. Voltei para a casa diferente.

Tchekhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

“Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…”

Tchekhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe críticas violentas, que o acusavam de “mau gosto” e de utilizar “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”

Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz outras observações sobre Tchekhov:

“No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchekhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.”

“Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchekhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.”

“O desconcertante é que Tchekhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.”

E, mais desconcertante: “Para Tchekhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.”

Tchekhov: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.”

Há muitos livros de Tchekhov que indicaria. Tenho 22 na minha frente. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: acho que As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. A novela Enfermaria Nº6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam se reunir a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

Os melhores livros são as duas traduções de Bóris Schnaidermann:

- A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editora 34. 1999 Trad. de Bóris Schnaidermann ou
- Contos. Civilização Brasileira. 1959.
(O segundo é o mesmo livro reeditado e revisado por Schnaidermann 40 anos depois. Mas quem encontrar a edição de 59 num sebo pode comprá-lo de olhos fechados. As duas versões são espetaculares.)

Outros livros que indico:
- Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
- O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
- O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
- A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
- Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
- Histórias Imortais. Cultrix. 1959. Trad.de Tatiana Belinky.

Filmes:
Há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchekhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.

Em vida, Anton Tchekhov já era conhecido, respeitado e até popular, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstoi disse: “Creio que Tchekhov criou novas - absolutamente novas - formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchekhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar Anton Tchekhov, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstoi não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchekhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

“Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ - estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.”
Olga Knipper, esposa de Anton Tchekhov.

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado acima ocorreu. Tchekhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha.

E-mail do Fernando Monteiro:

Você tem toda a razão sobre Tchekov: ele tem uma “redondez”, uma satisfação tão total e plena do que esperamos encontrar num escritor… que mereceria, sim, ser o escolhido, entre todos, como o preferido de um leitor super-exigente.

Das histórias de AT, eu gosto especialmente de “A Estepe”, uma novela relativamente curta e genial, que narra a viagem de uma criança como uma metáfora (a novela toda) da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê.

Assim é que o meninozinho russo (o próprio Anton, é claro) viaja — e a travessia da estepe vasta, com todos os seus incidentes, se torna o núcleo mesmo da impressão estranha da novela, como naquele filme (Olhos Negros) de Michalkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”…

Creio até que Nikita Michalkov faz uma alusão mais ou menos direta à novela, porque o argumento de “Olchie Chiorne” foi criado a partir da fusão duas narrativas clássicas de AT.
Para mim, Tchekov é o Machado de Assis da pátria de Dostoiévsky.

Bom final de semana!
Fernando

Mais um tabu é quebrado em Pequim

Depois d`O Caso da Vara sem Damião, Sinhá Rita ou seminário (*) e da luta do português com João Derly, mais um tabu vai para o espaço.

(*) Não estaria na hora de ler os contos de Machado de Assis?

Milton Ribeiro faz aniversário e é entrevistado

A entrevistadora , que presumo recém chegada à menopausa, entra na minha casa a fim de me entrevistar para o Programa “Hoje é Meu Dia”. O programa apresenta aniversariantes e hoje é meu aniversário. Eu tinha preenchido uma ficha candidatando-me ao programa. Improvisa-se um palquinho em minha casa. Ficamos sentados em frente a meus livros. Desculpo-me pela bagunça, mas o câmera diz para deixar assim, pois o cenário tem personalidade. Sentamos lado a lado, eu e a apresentadora.

P (à guisa de introdução) - Nosso entrevistado de hoje, Milton Ribeiro, está completando 51 anos. É um dia feliz. Ele está muito bem para sua idade. Imaginem que até os 49 anos, ele podia declarar-se infalível na cama e, se dissermos que chegou aos 50 anos sem a utilização de medicações de uso contínuo, saberemos estar diante de um prodígio da boa saúde física. E também mental. A seguir, vocês poderão comprovar o bom humor de nosso entrevistado.

P – Como você mantém esta atitude positiva perante a vida?

R – Bem, como a vida não tem mesmo sentido, logo percebi que poderia optar por várias posturas, todas equivalentes. Poderia me desesperar a cada vicissitude, ou rir delas; escolhi rir. Poderia roubar e matar, mas como prefiro ser bem aceito, escolhi ser bom. Acho que poderia ser bem mais imbecil, porém gosto de cultura e de me informar e aí está um sério problema. É difícil ser pra cima e informado ao mesmo tempo, mas tenho tentado.

P – Entendo. Mas o Sr. deve tentar mais. Confiamos no Sr.!!! Ho, ho, ho!

R – Estou na luta.

P – O Sr. nunca ficou deprimido, certo?

R – Olha, houve episódios em que quis me matar, principalmente durante minha separação, mas digamos que o grande bobo que há em mim emergiu novamente após uns meses e voltei a ficar assim.

P – Nada grave, portanto.

R – Sem dúvida, nada grave. Foram apenas seis meses onde me deprimi. Minha atitude positiva perante a vida fez com que eu me livrasse de todo o insuportável estresse dando de presente todo o pouco que construíra e hoje estou aqui, em perfeita forma.

P – Você então possui uma disposição natural para a felicidade?

R – Sem dúvida. Eu nasci daltônico, estrábico, tenho pés chatos, minha voz é horrível, sou meio cambota, estou engordando e perdendo cabelo, mas só pensei nisso agora. Prova de que sou feliz e mais: de que a felicidade é proteger-se de si mesmo. É o que faço. Sempre.

P – E então! O Sr. é a prova de que as pessoas não devem desistir de seus sonhos?

R – Hum… Sem dúvida.

P – E quais são seus sonhos hoje?

R – Comprar um Karmann-Ghia, ler livros que não me encham o saco, fugir de ver TV, esquecer os jornais da grande imprensa e a música ambiente, reentrar em forma, ouvir música…

P – Vejam, meus amigos, são coisas simples! A felicidade ESTÁ nas coisas simples.

R – Sim, parecem simples, mas tem muito mais…

P – Desculpe interromper. Acho que nossos telespectadores querem saber como você chegou aos 50 anos sem tomar medicação alguma.

R – Eu ia vivendo numa boa até que fui ao cardiologista. Fui porque quis, imotivadamente. Nunca tive nada. Mas descobri que meu colesterol estava batendo nos 300.

P – Ho, ho, ho. Que coisa!

R – Pois é. Aí comecei a tomar um Lípitor antes de dormir e a coisa caiu para 100.

P – Sensacional!

R – Sim, eu sempre obedeci os médicos direitinho.

P – E então, tudo resolvido!

R – Claro, como eu sou alguém naturalmente feliz, ignorava que podia ser perigoso transformar o próprio sangue em água.

P – E então?

R – Hoje tomo meio comprimido e a coisa vai bem.

P – Viram? Tudo se resolve com bom senso, ho, ho, ho. E o peso?

R – Eu adquiri 10 quilos nos últimos trinta anos.

P – Só?

R – Sim, se seguir assim, não viverei o suficiente para experimentar a obesidade mórbida.

P – Ho, ho, ho. Não é maravilhoso? E você não acha que poderia manter o peso atual?

R – Não.

P – Mas por quê?

R – Olha, eu tomo Sibutramina de 15 mg por dia e tenho a mesma fome incontrolável. Quando chega ao final da tarde, penso tanto em chocolate que até esqueço de desejar a morte súbita de algumas pessoas.

P – Nada de maus sentimentos, nada de maus sentimentos! Diria até que sua chocolatria, ho, ho, ho, é muito boa para afastar maus sentimentos.

R – Sim. A chocolatria me salva deles e passo a sonhar apenas com Alpinos e que tais.

P – Ho, ho, ho. Você tem muitos amigos?

R – Sim, esta é uma parte boa da minha vida.

P – Maravilha, uma vida social intensa. E a vida sexual?

R – Olha, quando a coisa começou a falhar fui a um médico que garantiu que meu único problema era mental.

P – Um problema mental! Que bom que não era grave!

R – Ele me disse que se eu me preocupasse muito com os problemas, geraria um aumento de adrenalina no sangue e que esta adrenalina faria com que uma válvula não funcionasse bem.

P – Apenas um problema hidráulico!

R – Sim, claro. Se não vedar bem, o sangue sai. É como uma Hydra estragada.

P – Hidra, como assim?

R – Hydra, uma válvula que se usa em privadas.

P – Ho, ho, ho. Perfeito.

R – Aí, ele me perguntou se minha vida era exageradamente problemática, pois o estresse causa a produção em excesso de adrenalina.

R – E você?

P – Eu respondi que na época estava com um advogado, buscando a obter a guarda de minha filha.

P – Ho, ho, ho. E então?

R – Ele se apavorou. Pois do jeito que minha situação se encontrava, teria dificuldades de fazer uma boa vedação. O sangue iria embora e o pau…

P – Ho, ho, ho. Estamos entrevistando Milton Ribeiro e são 19h43 minutos em Porto Alegre.

R - …

P – E… Bem, isso significa que se você não tiver grandes preocupações, a válvula funciona e sua vida sexual também?

R – Sem dúvida! Pois não tenho problemas físicos, só mentais.

P – Então pode ser solucionado!

R – Claro. Foi por isso que fiz o seguinte raciocínio: como não sou rico e, portanto, meus problemas não são de fácil solução, deveria considerar seriamente a necessidade de tornar-me uma besta quadrada, um bobo alegre.

P – E conseguiu?

R – Mais ou menos. Minha filha veio morar comigo e fiquei mais alegrinho. A coisa melhorou.

P – E não precisou virar um bobo alegre…? Ho, ho, ho.

R – Não, mas gostaria de prevenir. E, para conseguir, tenho que seguir esta trilha, entende? Sou obrigado.

P – Maravilhoso!

R - Mas há desvios que atrapalham.

P – Quais?

R – Eu ligo a TV de manhã e sinto aquela adrenalina voltando. Ou dão péssimas notícias ou é vulgar.

P – A TV pode ser boa, Sr. Milton, pode ser sim!

R – Sim, porém há sempre mais. Por exemplo, vou ler um bom livro, mas este me dá SEMPRE uma visão por demais realista, ouço uma bela música mas ela é SEMPRE meio trágica.

P – Ora, o mundo não é bom para os intelectuais. Por isso, os cientistas inventaram o Viagra. Só para vocês. Você já tomou?

R – Você está ficando irritada e isto não é bom. Olha, não tomo, mas posso considerar. É mesmo um remédio para intelectuais?

P – Deve ser!

R – É que desconheço pessoas felizes. Não apenas intelectuais. Todos são infelizes, mesmo que racionalizem. Todos morrerão.

P – Vocês são muito desagradáveis.

R – Como?

P – Desagradáveis. Os intelectuais gostam de ficar tristes e de dizer! Fazem dramas.

R – E você é feliz?

P – O entrevistado é você. Não interessa o que eu penso. Nem se penso.

R – Você pensa. Só que mal. Pensa que as pessoas possam ser felizes e satisfeitas quando ninguém é assim. A gente é bom ou ruim, interessante ou desinteressante, branco ou preto, engraçado ou sisudo, sociável ou não, mas é sempre insatisfeito.

P – Você não serve para nosso programa.

Fala para o câmera:

P - Ele não irá ao ar no “Hoje é meu Dia”. Procuraremos outra pessoa. Ou um ator contratado, talvez.

R – OK, não posso me estressar.

P – Passe bem. Vocês não têm nada a acrescentar!

R – Vocês?

P – Vocês, os metidos, os idiotas. Imagina falar mal da TV! Na TV! Passe bem!

Ela levanta e faz um sinal ao câmera. Ele faz tsc, tsc, tsc, e diz escolhem cada abobado, acho que não leram a ficha… A entrevistadora manda o câmera apressar-se.

Alfredo fala, Laura responde, Marcelo e Joana telefonam

Alfredo, 26 anos, 1,90m, 112 Kg, era um gordo em permanente expansão apaixonado por Laura, 24 anos, 1,60m, 48 Kg. Costumava trazer-lhe mimos; coisas como chocolatinhos, bebidinhas e, agora, na época mais fria do ano, chegou ao ponto de levar quentão para sua pretendida. Quentão é uma bebida que mistura vinho, cachaça, canela, açúcar e cravo, às vezes noz moscada e casca de laranja ou limão, e é irresistível no inverno. Laura sabia que a garrafa térmica de Alfredo tinha a intenção de aquecer-lhe o coração em sua adiposa direção, mas tal consolo só fazia com que ela pensasse com maior ternura em Marcelo, 23 anos, 1,72m, 70 Kg, um jovem meio sem graça que não lhe trazia mimo algum e que costumava aconselhar Alfredo a considerar o efeito benéfico que um regime traria a sua rotunda pessoa. Ocorre é que Marcelo só tinha olhos para a loira Joana, 20 anos, 1,68m, 57 Kg, que era ainda mais sem graça do que ele e dava a impressão de que o clímax de sua vida era quando ia à academia malhar seu corpo que, diga-se de passagem, era belíssimo, fazendo com que muitos homens tentassem buscar (ou não) sua alma escondida sob tantos alongamentos, pesos levantados, abomináveis abdominais e seios sublimes, aumentados e empinados pelo silicone.

Alfredo acostumou Laura a seus mimos gastronômicos e telefonemas. Os contatos pelo telefone eram tão freqüentes e longos que a moça não tinha tempo de falar com outro. Ela revirava os olhos cada vez que o telefone tocava, mas atendia e – notável! – gostava. Não adianta, certas mulheres gostam mesmo de rir e Alfredo era engraçado, soltava de improviso boas piadas e Laura ria e ria do outro lado da linha. Era bom aquilo. Sabemos que os diretores de cinema gordos amam os complexos movimentos de câmara porque caminham pouco e ficam vendo o mundo de cima da grua. Alfredo também não queria deslocar-se muito, cansava facilmente, preferindo “namorar” pelo telefone. A voz de Laura e principalmente sua risada eram importantes para ele, que se achava inadequado e feio para a perfeição que via na lauríssima criatura. Apostava em seu espírito, mas, toda vez que tornava-se íntimo e confidente, Laura vinha com o papo sobre Marcelo, aquele antípoda seu: chato, burro e louco por outra.

Muitas vezes os quatro saíam juntos. Iam a festas e tinham a singularidade de parecerem um quarteto assexuado, pois nada era manifesto. As intenções só emergiam em telefonemas e em rápidos encontros pessoais provocados pelas raras idas de Alfredo ao local onde Laura estagiava, por Laura correndo atrás de Marcelo na faculdade, por Marcelo indo à academia em muitos finais de manhã procurar Joana, que – surpresa! – deixava-se dar alguns amassos e algo mais quando a endorfina estava alta e misturada com o suor, mas nunca à noite, quando permanecia em silêncio, ouvindo os amigos, feliz com sua bela aparência e tranqüila com a mente mansa dos animaizinhos mais simples. Porém, ela sofria, assim como Marcelo. Joana queria um homem alto, grande e sarado para si; fingia seus orgasmos para aquele esquelético Marcelo e chegava a achar Alfredo mais interessante, apesar deste quase ignorar sua existência silenciosa, incapaz de externar uma opinião sobre aquele Blow-up a que ele submeteu o grupo em sua casa na semana anterior, fazendo ao final os brilhantes e cômicos comentários que encantaram à Laura que, por sinal, andava engordando sem se dar conta. Joana ficou de olho: ao final do filme, sem parar de falar – exclusivamente à Laura, e em voz altíssima -, ele foi à cozinha e trouxe a mais bela torta de requeijão com goiabada que vira até hoje. Era puro amor transformado em doce para Laura. A goiabada escolhera aquele momento para descer pela base de requeijão, como dedos que buscam prazer sobre a pele. Ao ver aquilo, Laura voltou seu olhar encantado de Alfredo para o magrinho Marcelo que, constrangidamente, dirigiu seu olhar à Joana, que observou como Alfredo era triste com toda aquela comilança e devoção à Laura.

Naquela noite, ao chegar em casa, Marcelo telefonou para Laura e disse que ela e Joana estavam fascinadas pelo gordo, mas ficou literal e longamente boquiaberto ao ouvir uma Laura meio bêbada pelos eflúvios de Alfredo rebater que iria visitá-lo naquele minuto a fim de mostrar sua “fascinação”. “E ponha uma música adequada!”, ordenou.

Neste ínterim, enquanto voltava para casa no banco de trás de um táxi, uma Joana sem endorfina permitia-se algumas lágrimas que desciam em direção ao sublime colo de silicone. Ela pegou o celular e ligou para Alfredo, que não atendeu. Ligou novamente e ouviu um alô assustado. “Oi, joaninha do meu jardim, aqui fala teu pulgão. Aconteceu alguma coisa de grave?”. “Não, nada de grave, é só que eu não queria ficar sozinha esta noite”.

E, com efeito, nada de grave ocorreu, apenas o grupo dos quatro tornou-se publicamente sexuado. Alfredo e Marcelo não tornaram-se grandes amigos mas Laura e Joana, sim. Trocavam confidências: Joana não gostava de ser chamada de “minha loirinha limitada” e sentia-se insegura, Laura andava sempre brigando com Marcelo, principalmente após saber de suas idas matinais à academia.

Não foram felizes por muito tempo porque, como vocês sabem, é sempre assim. Mas Laura e Joana ainda são amigas.

Porque hoje é sábado, Padma Lakshmi

Todo escritor merece que sua mulher vá à feira comprar os melhores produtos.

Todo escritor merece que sua comida seja preparada carinhosa e cuidadosamente.

Todo escritor merece uma mulher que saiba o que faz na cozinha.

Todo escritor merece a melhor das sobremesa. (Todo escritor merece lambuzar-se).

Todo escritor merece casar com a mulher que escolher, não interessando quem seja.

Pois todo escritor deve descansar adequadamente de sua relação entediante com o teclado.

(E todo escritor deve mergulhar seus cansados dedos em outros locais).

Mas é fundamental que todo escritor se alimente bem. Sempre.

Salman Rushdie não é somente aquele escritor que a “fatwa” não calou.

Trata-se de um autêntico grande. Tanto que foi eleito o melhor em 40 anos do Booker.

A ex-Lady Rushdie Padma Lakshmi — pois o casal acaba de se separar — nasceu na Índia em 1º de setembro de 1970.

Ela é modelo, apresentadora gastronômica de TV, atriz e autora de livros sobre gastronomia indiana (detesto “indiana”, por que não hindu?).

Faria uma bela dupla com Nigella. Poderiam até protagonizar um programa de gastronomia afrodisíaca…

… com demonstrações dos resultados. Um encontro entre duas culturas, sei lá.

http://miltonribeiro.opensadorselvagem.org/wp-admin/post.php?action=edit&post=747&message=4

Ela está retratada no romance Fúria, de Rushdie, o qual é a ela dedicado.

Sobre Rushdie, sete anos mais jovem que seu pai, ela disse: “somos atraídas por aquilo que sabemos precisar”.

Porém, sabemos o que reza a Terceira Lei da Termodinâmica: tudo acaba em merda. E o casal separou-se.

Ela passou a circular seu 1,75m sozinha por aí…

… enquanto Rushdie, escritor crasso, manteve-se fiel a seus implacáveis princípios.

P.S.- Favor ignorar a aba “Fora Milton Ribeiro” no blog deste crápula.
P.P.S.- Mas que isso aqui é genial, é mesmo. Esses pernambucanos são foda.

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