Alexander SoljenÃtsin já tinha morrido
Foi chocante a acolhida que teve a morte de SoljenÃtsin na imprensa nacional e internacional. Ninguém o lia, mas todos repetiram que tratava-se de um portentoso escritor, algo como um Tolstói, do qual na verdade só possuÃa a barba. A lista de seus livros era repetida e sistematicamente elogiada, quase sempre com as mesmas palavras. Ninguém o lia, repito, pois o escritor, morto no último dia 3, já estava literariamente morto e enterrado, sobrando apenas o importante “autor geopolÃtico”. Como li mais de sete daqueles intermináveis livros, posso dizer que, estatisticamente, TODOS os que escreveram nos grandes jornais e nos blogs nunca tiveram uma obra de SoljenÃtsin por perto. Mas apenas Sérgio Rodrigues confessou.
Seu primeiro livro foi o único realmente bom. A pequena novela Um Dia na Vida de Ivan DenÃsovich, de 1962, é uma contida e por isso mesmo pungente crÃtica ao stalinismo. A obra veio à tona durante o processo de desestalinização promovido por Kruschev e tornou-se um merecido sucesso. É uma novela. Depois dela, SoljenÃtsin escolheu como base a forma do romance do século XIX anterior à Dostoiévski e muito anterior à Tchékhov. E, além de antiquado, suas obras tornaram-se expressão própria do escritor, disfarçados como documentos históricos do perÃodo soviético. Mas são mais SoljenÃtsin do que qualquer outra coisa; ou seja, eram da lavra de alguém que vivia num planeta todo seu.
Sua expulsão da União Soviética, ocorrida em 1974, criou grande constrangimento entre os que o acolheram. Seu primeiro discurso fora da URSS já apontava para alguém meio amalucado que, na verdade, defendia os regimes de exceção, mas um regime de exceção bem particular, uma fantasia russa, moral e religiosa. Ou seja, como escreveu Sérgio Rodrigues no TodoProsa, SoljenÃtsin cavou seu próprio e imediato ostracismo ocidental. Este discurso de 1978, proferido em Harvard, demonstra que o homem tinha posições polÃticas só compreendidas por ele e, talvez, por mais meia dúzia de doidos varridos.
Na sociedade ocidental de hoje, revelou-se a desigualdade entre a liberdade para as boas ações e a liberdade para as más ações. Um estadista que queira realizar algo importante e altamente construtivo para seu paÃs precisa agir cautelosamente, até mesmo timidamente; existem milhares de crÃticos afoitos e irresponsáveis à sua volta, o parlamento e a imprensa o rechaçam. À medida que avança, ele é obrigado a provar que cada um de seus passos é consistente e absolutamente impecável. (…) Desse modo, a mediocridade triunfa sob a desculpa das restrições impostas pela democracia.
A defesa dos direitos individuais chegou a tais extremos que tornou a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivÃduos. Chegou a hora, no Ocidente, de defender menos os direitos humanos e mais as humanas obrigações.
O criminoso pode ficar impune ou ser tratado com leniência indevida, apoiado por milhares de defensores públicos. Quando um governo começa uma luta sincera contra o terrorismo, a opinião pública imediatamente o acusa de violar os direitos civis dos terroristas. Há muitos casos desse tipo.
Aqui, temos o enlouquecido (e repressivo) discurso por completo.
Arquipélago Gulag, Pavilhão dos Cancerosos, Agosto 1914, O Primeiro CÃrculo e outras são obras enfadonhas e repetitivas de um escritor que foi apoiado fora da URSS apenas em razão de suas posições simpáticas à quilo que desejava o Ocidente: o fim da União Soviética. Deixo de fora da lista o aceitável O Carvalho e o Bezerro, livro que li com algum prazer. É notável o fato de que SoljenÃtsin possa fazer estatÃsticas dos campos de concentração, mesmo sendo inteiramente cerceado. Já imaginaram algum inimigo da ditadura militar brasileira publicando minuciosas estatÃsticas de prisões e mortos? SoljenÃtsin fazia! Como conseguia? O que ele lia? Quem lhe dava acesso à informações tão privilegiadas e circunstanciadas? Ora, me desculpem, mas garanto que tudo aquilo partia da imaginação do moço e do desejo que a maioria de nós, ocidentais, tÃnhamos de que fosse verdade. SoljenÃtsin fazia ficção. Sempre.
Seu paÃs ideal era a Rússia pura de antes da Revolução e as inimizades que arranjou entre os próprios dissidentes soviéticos à s vezes pareciam cômicas. Shostakovich fugia de SoljenÃtsin. Achava-o um grande chato e, quando ele anunciava sua presença na casa do compositor — pois, em sua guerra santa, costumava impor o horário sem desejar saber sobre disponibidade alheia — Shostakovich e sua esposa Irina sumiam dentro de um algum cinema. (Sim, sei que Maxim, o filho do compositor, foi ao funeral e disse palavras elogiosas. Li bastante a respeito.)
Uma vez, Shostakovich assinou uma petição que solicitava a libertação do compositor grego Mikis Theodorakis. Para quê…! Alexander ficou uma arara vociferando que Dmitri estava se preocupando com problemas que não lhe diziam respeito. Depois disso, em resposta ao silêncio de Shostakovich, ao invés de seguir elogiando o compositor como fez em O Carvalho e o Bezerro, passou a atacá-lo com crÃticas notável embasamento técnico: passou a dizer que “a música de Shostakovich entrava por um ouvido e saÃa pelo outro”… Pobre SoljenÃtsin; a música de Dmitri cada vez é mais ouvida, já os livros do Prêmio Nobel…
Grosso modo, havia três correntes de oposição na União Soviética pós-1970:
1. A de Sákharov, Tviordokhlébov e ShalÃdze com o Comitê de Defesa dos Direitos Humanos: algo razoável, democrático;
2. A do escabelado SoljenÃtsin que apenas era compreendida por ele e recriada livremente no ocidente: tinha caráter religioso e de retorno ao passado;
3. A dos irmãos Medviêdev, historiadores que desejavam “o retorno ao maxismo-leninismo puro”: corrente com a qual Shostakovich teria mais afinidade, certamente.
Após a expulsão da URSS, o ocidente pode ter finalmente contato com o Soljenitsin real. Ele apoiava Pinochet. Ele deu uma entrevista à televisão espanhola na qual fez a apologia do regime franquista, ao mesmo tempo que lançava crÃticas aos “cÃrculos progressistas”, ou seja “a oposição democrática” de liberais, sociais-democratas ou comunistas. Ele pediu, em 1976, para que os EUA voltassem ao Vietname, desta vez para vencer. Ele discursou, em 1974, para que os EUA interviessem em Portugal; etc.
Mais valorizado fora do que dentro da Rússia, fica de SoljenÃtsin a corajosa figura pública de oposição ao regime soviético. E talvez Ivan DenÃsovich. O restante de sua obra é de valor histórico e polÃtico. E só. Como digo no tÃtulo, Alexander SoljenÃtsin já tinha morrido, voltou a agitar-se no inÃcio de agosto e agora deverá ir diretamente ao paraÃso no qual tanto acreditava.

agosto 12th, 2008 às 14:34
tudo bem não apoiar o Brezhnev, mas tirar foto com a Thatcher depois…
coisa de mujique!!!!
agosto 12th, 2008 às 22:18
Esse eu tb achava que já tinha morrido!
Preciso parar com isso…
bj, f
agosto 13th, 2008 às 13:17
Jamais li nada que ele tenha escrito. E se minha vida continuar desse jeito, vou morrer sem ler.
Acontece…
agosto 14th, 2008 às 22:45
Nunca li nada dele.
Tambem não escrevi sobre sua morte.
Branco