Carlo impregnado
Para Lia e Natal
Gosto de crianças. Tenho boas relações com elas. Costumo chamar suas atenções por comportamentos surpreendentes num adulto e faço concorrência natural aos recreacionistas de festas infantis. Porém, minha relação com meu afilhado é complicada. Tenho restrições a ele e nunca as escondi. É TV demais, é videogame demais para mim. Ele sabe bem disto e diz que sou um chato. Meus filhos nunca pediram videogame e, se a Bárbara via muita TV quando pequena, depois foi se afastando dela. Fico indignado com ele, sempre olhando para uma tela.
É difícil convencer uma criança que há coisas tão legais quanto ficar deitado como uma besta vendo TV ou ganhando incrível habilidade com os dedos no videogame. (Certa vez, minha filha arrancou-nos risadas ao dizer que o Carlo era muito bom com os dedos…) Eu, em minha sistemática pressão antiTV, entrava em casa diariamente cantando em altos brados a música dos Titãs:
A televisão me deixou burro
muito burro demais
agora todas as coisas que eu penso
me parecem iguais
E, depois, o golpe fatal que irritava minha filha e a “obrigava” a correr atrás de mim para me bater:
(…)
é que a televisão me deixou burro
muito burro demais
e agora eu vivo dentro dessa jaula
junto dos animais.
Pois ontem eu fui ao futebol com o Carlo e a Bárbara. Ela tem hoje treze anos, o Carlo, oito. Ela manda nele, ela — como as mulheres costumam fazer sistematicamente conosco – o domina. E fim. Ele faz os temas orientado por ela, na hora que ela quer e monitorizado por ela. Ela ralha com ele, não o deixa comer de boca aberta, não deixa que ele arrote, obriga-o a vir almoçar junto dos outros – coisa que a mãe do Carlo apenas sonha em conseguir –; ou seja, she`s the boss. E ela decidiu que o Carlo iria a seu primeiro jogo de futebol.
Ir a um jogo com eles é uma fortuna. É boné para ele, pulseira para ela, é salgadinho para os dois, sorvetes, amendoins, mais salgadinho, água, o diabo. Mas vale a pena. Quando veio o primeiro moço com a cesta de salgados, carregando todos aqueles quilos de gordura trans, e ofereceu seus produtos, o Carlo respondeu:
– Não, agora não, recém comi um pão e um suco. Depois eu vou querer. Volta depois, tá? Obrigado.
É claro que o homem não ouviu nada após o primeiro não. A Bárbara dava gargalhadas, explicando a seu pupilo que não precisava dar um discurso para cada um, que era só dizer não, obrigado. Mas ele É discursivo, tem boa capacidade de expressão e, óbvio, deseja expressar-se. Seguiu falando com todos…
Mas, voltemos um pouco no tempo. Voltemos a nossa entrada na arquibancada. Antes do campo abrir-se para nós, eu o avisei:
– Te prepara para uma visão espetacular. Tu nunca vai esquecer disso.
Ele caminhou (milagre!) silenciosamente até a borda da arquibancada superior. Parei a seu lado e vi que ele estava pasmo, boquiaberto, já impregnado. Uma boca enorme, aberta mesmo. Há qualquer coisa de arrepiante para um amante do futebol em ver um campo de futebol à noite. É uma coisa que só nós entendemos e que é impossível transmitir. A melhor resposta para quem não entende nossa cara nestes momentos é a de Louis Armstrong quando lhe perguntaram qual era a graça que ele via no jazz: Man, if you gotta ask, you’ll never know. Se você tem que perguntar, nunca saberá.
Ou seja, o vírus inoculara-se de forma severa no Carlo. Ele já estava apaixonado, talvez menos do que pela Bárbara, mas fora algo violento, forte. Não tive muito tempo para ficar nostálgico lembrando do dia em que meu pai me levara para ver Inter 1 X 0 São Paulo, em 1968, nem para recordar o ainda mais emocionante Inter 4 X 0 São Luís, a estréia do meu filho Bernardo no Beira-rio, pois tinha que controlar o Carlo dando discursos encantados com tudo, mas principalmente com aquela atmosfera macha e tribal… Logo começou a demonstrar todo seu grande conhecimento de palavrões.
– Vai tomar no cu, seu juiz idiota do caralho. Enfia o apito no rabo!
Sim, admito, foi um começo promissor do menino, apesar de ele levantar a cada minuto, atrapalhando o pessoal de trás para torcer gritando:
– Vai, vai, vai, vai! Não!
Ou utilizando a mui contrastante variação:
– Isso, isso, isso, isso! Não!
Quando dava-se conta de que tinha levantado novamente, pedia desculpas aos detrás, que riam, achando divertido meu filho “descontroladinho”…
Foi muito divertido, claro. Um dia, nessa grande desilusão do crescer e amadurecer de cada um de nós, talvez o Carlo queira reencontrar seu próprio deslumbramento com o mundo. Os escritores alemães (a começar por Goethe e seu Wilhelm Meister) criaram um gênero de romance muito próprio, aquele que trata da história pessoal da desilusão: o Bildungsroman. É o romance de formação, da edificação da individualidade, da incorporação da cultura. Mas nada disso ele reencontrará se ler este texto, talvez apenas dê risadas de sua falta de jeito. Ele apenas reencontrará aquela epifania onde a vi ontem.
julho 10th, 2008 s 15:39
Muito bom, como de costume. A estréia com meu filho foi Inter 2 x 1 Cocorinthians. Aliás, ontem ele entrou no campo carregando a bandeira do glorioso SCI.
julho 10th, 2008 s 17:44
Desabafo de um pai gremista.
Pois é… O Carlo é meu filho e eu sou gremista, mas nunca o levei ao futebol. Meu cunhado colorado se encarregou dessa tarefa.
É obvio que quando ele chegou em casa com um boné do Inter e dizendo que não sabia ainda se queria ser gremista ou colorado admito que fiquei chateado. Por uma questão de orgulho paterno gostaria que meu filho fosse gremista. Mas em seguida racionalizei a questão e me dei conta que nunca o tinha levado a um estádio e isso por um motivo singelo, eu não vou a estádios de futebol faz mais de vinte anos.
Já gostei bastante de futebol, hoje não consigo ver um jogo inteiro e não tenho paciência para discuti-lo depois de acabado. O Milton ao contrário é fanático por esse esporte e eu entendo o sentimento que o move, pois me lembro de já ter discutido e brigado por causa de um jogo.
Porém esse sentimento foi desaparecendo com o tempo. Me irritava demais com os “erros” da arbitragem, os salários exorbitantes dos jogadores, a politicagem dos bastidores… O futebol para mim futebol deixou de ser um esporte, uma diversão, aliás, não acho que seja mais nem apenas busine$$, é algo bem pior, o futebol devido a seu grande apelo popular virou sinônimo de manipulação, de trampolim para políticos inescrupulosos, de lavagem de dinheiro, de corrupção, de debates estéreis e, principalmente, de uma forma de transferir nossa felicidade para a mão dos outros.
O futebol hoje é uma forma de religião, com seus pastores, seus deuses e, é claro, seu dízimo.
Resumindo. Sinto muito meu filho, mas não será por minhas mãos que entrarás no mundo do futebol “profissional”. Não farei nenhum esforço para que sejas gremista, colorado, ou seja, lá o que quiseres ser em termos futebolísticos. Isso é apenas um detalhe insignificante que não afetará em nada o que sinto por ti. Serás sempre meu filhão, aquele guri lindo que certamente tem um coração bem maior que seus já 150 cm de altura…
Putz grila!!! Que dramalhão!!! Mas desabafos são assim…
julho 10th, 2008 s 18:44
Que bom, Milton! Querido, você é tão mais palatável sem aquela merda toda…
julho 10th, 2008 s 21:38
Flávia, é uma merda metafórica… Mesmo!
Natal, meu morenão, não fique assim. Não sei se o Carlo virará a casaca, mas é provável. De qualquer maneira, proibi as pressões por parte do Bernardo que já estava cobrando o guri. A Bárbara não disse nada. E olha, há sujeira em todo o lugar. No teu automobismo não há? Não me faças rir, McLaren e Max Mosley. Depois eu subo aí e te consolo…
Dario, eu procurei o Fred mas não o vi. Também, entram 568 crianças junto com o time e ficam mais 324 esperando no grande círculo!
julho 11th, 2008 s 7:59
Bacana o texto, Milton.
Fiquei uns minutos aqui pensando nessa coisa da reação ao adentrar o estádio pela primeira vez…
Hoje é uma coisa tão banal pra mim, sem graça até, com exceção dos grandes jogos com publico superior a 40 mil pessoas, que, SEMPRE, enchem os olhos e dão aquele frio na barriga…
Por outro lado, a sensação de entrar em OUTROS estádios é bastante semelhante…
Infelizmente conheço só alguns do Rio Grande do Sul: Olimpico, Beira-Rio, Centenario, Jaconi, ESTÁDIO DA ZONA SUL… e outros que não lembro o nome (São Luiz de Ijuí, Passo Fundo e Santa Maria)…
julho 11th, 2008 s 8:12
Nasce um corneta!
julho 11th, 2008 s 8:51
Bom dia Branquinho!!!
Fiquei te esperando ontem… Mas já que não vieste vamos ao que interessa. Não me preocupo se o Carlo vai “virar casaca” ou não. Isso é absolutamente secundário. Porém acho uma covardia a pressão que vocês fazem sobre ele sabendo que eu não vou e não quero reagir na mesma altura.
Sobre o “meu” automobilismo tem varias nuances que não contemplas na tua análise. O automobilismo tem sacanagens certamente tão grandes quanto o futebol. Tem também diferenças marcantes.
1- O automobilismo foi criado para mostrar quem tinha a melhor máquina, portanto não é um esporte, é uma disputa entre máquinas.
2- O piloto é quase que formalidade. Os grandes pilotos não são necessariamente os mais hábeis, mas os que fazem a equipe trabalhar para que sua máquina seja melhor que a do rival.
3- Automobilismo é conhecimento técnico especifico e ao contrário do futebol não existem no Brasil 180 milhões de engenheiros de pista dando palpite da arquibancada se o amortecedor usado deveria ser mais firme, ou se o comando de válvulas utilizado não está adequado à pista.
4- O presidente da FGA, da FBA ou da FIA não se candidatam a cargos eletivos porque o esporte não dá a mesma visibilidade que o futebol.
Além disso, tem a questão de como encaro as corridas, pois sabendo do que ocorre nos bastidores tenho uma relação bem mais tranqüila do que teria com o futebol. Vejo corridas de todas as categorias uso elas para criar e desenvolver idéias sobre as coisas que me interessam e só.
Fico chateado só quando se impõem entraves a criatividade dos projetistas, o que limita a arte de fazer veículos melhores, cheguei a ficar 2 anos sem ver corridas de F1 quando proibiram os motores turbo, mas para quem gosta até nas categorias mais limitadas tem coisas interessantes para aprender, basta procurar e se divertir…
julho 11th, 2008 s 9:00
O urro crescente e o DESPERTAR de cores no trajeto do túnel são as sensações mais vivas que tenho do meu primeiro jogo no Beira-Rio: Inter 2 x 2 Atlético-MG, em 1992.
Aliás, naquela época que eu vinha para o Gigante de EXCURSÃO e saía de madrugada lá de São Sepé, passávamos a tarde no pátio do estádio e lembro de conversar com o Luiz Fernando e o Maizena nesta condição. Hoje em dia chego no campo sempre em cima do laço, mas acho que não rola mais essa INTERAÇÃO jogador-torcida no estacionamento do Beira-Rio
julho 11th, 2008 s 9:31
Natal, o que sei eu destas coisas de motoristas dando voltinhas sem ir a lugar nenhum? Quase nada!
E a superioridade cultural e espiritual do esporte de Eurico Miranda é indiscutível.
Portanto, como dizem os mais finos ingleses, stay in yours que eu fico na minha…
:¬)))
julho 11th, 2008 s 9:37
Eu vou pouco ao Olímpico. Moro em São Paulo e são raras as oportunidades pra ir pra Porto Alegre.
Sempre que passo pelo corredor, começo a ver as pessoas e, mais tarde, o campo, me arrepio muito.
julho 11th, 2008 s 9:39
Impossível não ficar ansioso antes de ter a visão de um estádio lotado…
nas cadeiras do Olímpico, ao subir a escadaria tu te depara com a multidão no anel inferior e vai subindo…ainda é emocionante haha
agora, nas sociais, o fim do túnel também proporciona algo semelhante.
E belo texto.
julho 11th, 2008 s 9:45
Obrigado.
Cassol, Maizena? Puxa, hoje sou feliz e não valorizo o fato!
julho 11th, 2008 s 9:47
Belo texto…
São situações como essa que me fazem amar o futebol…
Não as grandes negociações, as politicagens. O bonito do futebol são experiencias que só ele proporciona!!!
julho 11th, 2008 s 9:48
Milton, o texto que acabo de ler é digno do teu admirável talento em dar às coisas simples do cotidiano uma moldura que o transforma em arte. Aqui acrescentaste alguns detalhes com a maestria das palavras usando um refinado humor. Gostoso demais e quando acaba fica aquele sentimento que não deveria parar por ali, amenizado de certa forma com os dois trechos de comentários do Natal.
Quanto ao prazer em levar um filho ao estádio pela primeira vez, eu não tive esta oportunidade com minha filha, mas estou aguardando o melhor momento para trazer meu sobrinho de sete anos à Curitiba. O piá já é fanático por futebol.
Abraço.
julho 11th, 2008 s 11:14
texto muito bonito, mesmo. O Carlo vai gostar de ler mais adiante.
a única lembrança que eu tenho da minha primeira jornada no Beira-Rio, aos 6 anos, é o campo, que eu achava grande demais. Só depois essa visão de êxtase de um campo lotado de gente realmente apareceu. E meu primeiro jogo noturno foi inesquecível.
julho 11th, 2008 s 11:52
Eu fui pela primeira vez aos Aflitos num Náutico 3×0 Sport, e acredito que tenha sido um dos mais bonitos espetáculos que eu já vi na minha vida!
julho 11th, 2008 s 14:47
” Voltemos
a nossa entrada
na arquibancada…”
Milton, me desculpe; mas vai virar poesia!
julho 12th, 2008 s 10:54
Isto sim, é um legítimo Milton Ribeiro. Bom que passou (passou mesmo?) a fase da furadeira no cano de esgoto.
Sobre estréias em campo, nem me fale: São Paulo e Flamengo, Morumbi, idos de 79, sei lá. Flamengo fez um. São Paulo fez outro. Flamengo fez outro. São Paulo, mais um. Flamengo, mais um. São paulo, outro. Flamengo fez o quarto. Acabou o jogo. Quatro a três pro Flamengo. E sou São Paulo. Mas Zico em campo, sacumé…
julho 12th, 2008 s 13:36
Belíssimo! A “entrada na cultura”, caro Milton, se faz pelo deslumbramento e pela decepção. Deslumbramento, apenas, é sedução e alienação. A decepção, ou castração, nos dá o tamanho de nossa pequenez, fugacidade, impossibilidades e incompletudes. O futebol (como todo esporte), muitas vezes serve como metáfora da vida: hoje somos campeões, amanhã sentimos o gosto da derrota. Se a ‘castração’ for realmente eficaz, voilà o advento do simbólico e o fim da onipotência, portanto do fanatismo. São filosofices ou psicologices, bem o sei, mas operamos com o que temos, não é?
Assim, ao imaginar que seu post falaria de televisiose ou cyberaddiction, você faz um estudo psicossociológico da descoberta de um novo mundo. Mais uma vez, coisa de Mestre.
julho 12th, 2008 s 14:47
Iso é covardia Branquinho!!! Essa passagem
“E a superioridade cultural e espiritual do esporte de Eurico Miranda é indiscutível.
Portanto, como dizem os mais finos ingleses, stay in yours que eu fico na minha…”
Não estava na “primeira versão” que li, foi colocada depois, portanto me dou o direito de responder agora!!!
Mas não te preocupe a resposta não será em tom belicoso afinal concordo que o esporte do Euricão é superior ao automolismo, afinal de contas, como já havia destacado acima, corrida de carros não é esporte é só uma disputa a poucas centenas de quilometros por hora entre obras de arte…

julho 14th, 2008 s 13:56
eu me perdi nos personagens, mas tudo bem.
e fiquei só com a beleza da situação, na regra geral.
abstraí os nomes (e o time…eheheheh…
afudê.
julho 14th, 2008 s 13:56
O jogo à noite, refletores acesos, realmente tem um tempero mágico.
julho 14th, 2008 s 13:56
Para uma criança, um jogo à noite é especial, tudo parece diferente. Milton, parabéns pelo texto.
julho 16th, 2008 s 0:47
Já tinha lido no blog do Idelber o qt ele achou estranho vcs gaúchos assistirem uma partida de futebol sentados, comportados, quase como europeus, ou seria uma característica da torcida do Inter? Aliás… Qual é a torcida das massas aí?
Ps.: Até europeus devem mandar os juizes enfiar o apito no cu.
Ps 2.: É tão colonizado dizer “até os europeus”. Em tempo, se coloca PS num blog? Nunca escrevi em um.