MunchA maioria dos casais é normal e se separa. Não sei o que ocorre de errado com os que não se separam mas isto não interessa agora e, como a vida é assim mesmo, cunhei um e-mail padrão avisando dos terríveis perigos que nós, a desprotegida raça masculina, corremos nestas circunstâncias. Não, nele não demonstrava que sua ex fica pelancuda no dia seguinte à separação; tratava-se de um e-mail quase impessoal, entre o sério e o cômico, que já enviei para cinco amigos COM FILHO(S) nos últimos três anos e os comentários sempre foram… bem diferentes um do outro.

Claro que fiz uma revisão no texto original para pôr no blog. Um e-mail é normalmente mais despudorado, seja em erros de português, seja em palavrões.

Então, o e-mail que enviei a eles tinha mais ou menos o texto a seguir:

“Ora, ora, mas aí tu me disseste que estás te separando…

“Odeio - mesmo - as pessoas que vendem suas experiências bem ou mal sucedidas e complementam: “é assim que as coisas são, prepare-se!”. Parece que, se o vendedor de experiências se ralou, o mundo todo deverá inevitavelmente ir pelo mesmo caminho ou, se o vendedor se deu bem, todos os espertos que seguirem os itens vendidos chegarão à felicidade perene. Então, meus tópicos são gerais e quase impessoais. Se couberem, couberam.

“1. As pessoas não se separam por pequenas diferenças. Pequenas diferenças são administráveis. As pessoas se separam por causa de abismos cavados através dos anos. Ele, o abismo, abre-se mui silenciosamente, mas, uma vez que começa a aparecer, é difícil preenchê-lo. Solução: nenhuma, claro. Meu amigo, isto aqui não é auto-ajuda. É mesmo dificílimo preenchê-lo. É muita terra.

“2. Já formalizaste a separação na Justiça? Se não o fizeste, estás negociando tudo direto com a X? Cagada, na minha humilíssima opinião. Não faça nada sem uma mediação esclarecida. (Não me convide, sou ocupado, tenho dois blogs.) Formalize com um advogado a seu lado. Se a terapeuta  familar não trouxer a terra que falta em muitos caminhões e estiver apenas “organizando uma separação consensual e amigável”, dispense-a imediatamente ou falte às consultas, pois… Sabe o que vai acontecer? Eu sou a Verdade e A explico em detalhes: tu provavelmente vais dar tudo o que puder para a ex. Fiz isso; falo, pois, por experiência própria.

“3. Por quê? Simples. Uma separação não é um domingo no parque, tu ficarás deprimidíssimo se já não estás, olhando apaixonadamente as rodas dos trens do metrô, fazendo planos suicidas. É normal. Tu vais querer morrer por deixar teus filhos, vais fazer tudo errado com toda a convicção, sairás da relação despojadamente, dizendo, heróico: “Não quero prejudicar meus filhos!”. O altruísmo, nestes casos, é apenas estético.

“4. Vocês tinham uma casa e agora têm duas. Financeiramente, uma separação é um péssimo negócio. Se ela ficar melhor do que estava antes, há algo de errado. Este “algo” crescerá, como veremos a seguir.

“5. Tudo bem, no início tu dás tudo para X. Isto é somente uma forma rápida de te livrares do insuportável estresse pelo qual estás passando. Eu te compreendo. Só que, depois de um ano, a depressão passa.

“6. Depois de um ano, tu notas que a casa onde recebes teus filhos é uma bosta e fica mais bosta ainda se a comparares com a dela. Depois de um ano, tu não olhas mais para as rodas de ferro dos trens e passas a te interessar pelos peitos avantajados da vizinha, pelos quadris da colega e fazes a mesma observação que fizeste sobre tua casa, mas neste caso acrescentando o carro de merda que tens.

“7. Ou seja, se não fizeres as coisas direitinho agora, mas agora mesmo, vocês vão brigar feio e vão para a Justiça no futuro. É mancada, tô dizendo.

“8. Muitos contatos com a ex fazem mal. Se tiveres que voltar com a X, haverá de acontecer sem a tua presença ostensiva. Separação é separação, não é meia separação, esqueça aquela bimbadinha. Lembres que, quando entrar um terceiro ou terceira na história, vai dar merda. Ou tu achas que tua próxima mulher vai amar a vizinha via de regra mais jovem? Acontece, mas é raro.

“9. Os filhos normalmente ficam com a mãe, a não ser que eles optem, mas isso só depois dos 12 anos. Antes, só terás a guarda do teu filho se X sempre tira os sapatos quando telefona ou se ela morder a panturrilha do juiz na sessão. Se ela tiver apenas um sorriso imbecil, levará os garotos. Ou seja, os filhos ficarem com a mãe é meramente cultural e nada tem a ver com tua culpa.

“10. Mas, sabe de uma coisa? Acho que deverias ler, bem lidinho, tudo o que puderes. E deverias falar com teu advogado. E ainda ler este interessante site, cheio de artigos úteis: Pai Legal. Se o conhecesse antes, minha vida seria ainda melhor.

“Chegaste até aqui ou te irritaste achando teu caso muito diverso? Bem, se estás ainda lendo, obrigado pela paciência; se estiveres com ódio de minha intromissão, mando-te profilaticamente tomar no olho do cu. No último caso, se explodires de raiva contra mim, avise-me antes - através de um torpedo, por favor (torpedo de celular, bem entendido) -, pois comprei um sismógrafo e tenho poucas chances de testá-lo.”

Magritte