Do Leitor Normal
Os últimos resultados obtidos pelo Sport Club Internacional têm feito seus torcedores reagirem das mais diversas maneiras: há os que se deprimem e têm dificuldades até para sair de casa, há os que caminham sem rumo pela rua falando sozinhos e há os que — identificando-se completamente com o clube — passam a fazer a apologia do secundário, procurando solapar tudo aquilo que é grandioso e perfeito. Este é o caso do professor de literatura LuÃs Augusto Fischer e ele escolheu o veÃculo jornalÃstico mais notório de nosso estado para divulgar seu problema.
No artigo chamado O Leitor Normal, publicado há algum tempo na Zero Hora, o Prof. Fischer escolheu — com imenso despudor — duas vÃtimas de primeirÃssima linha: Thomas Mann e Franz Kafka. Argumenta ele que a obra A Montanha Mágica de Thomas Mann seria um livro chato, arrastado, lento, pré-cinema (?) e ilegÃvel para o leitor normal e sugere que Kafka seria um autor desprovido de bom humor e auto-ironia. Talvez o autor pense que as repetidas reedições de A Montanha Mágica e das obras de Kafka sejam devidas apenas a masoquistas e a entediados especialistas em literatura.
Prezado Prof. Fischer, o Sr. não é um leitor normal, o Sr. publicou e organizou diversos livros, é uma pessoa conhecida e respeitada; o leitor normal sou eu, que não vivo de literatura, que não tenho produção cultural, que trabalho o dia inteiro e que, em meus horários livres, leio uns livrinhos por aÃ. Do alto de minha autoridade de Leitor Normal, digo-lhe que, dentre os livros que amo, incluo A Montanha Mágica e quase toda a obra de Kafka. Sei que é um abuso, mas vou procurar lhe expor algumas caracterÃsticas deste romance de Mann e da produção de Kafka.
Um dos principais assuntos de A Montanha Mágica é o tempo. A “ação” se passa dentro de um sanatório, onde há apenas médicos, pacientes e funcionários. É a representação de uma Europa enferma e vacilante logo após a Primeira Guerra Mundial. O livro é de 1924 e todos nós sabemos o que aconteceu depois na Alemanha e Europa. As discussões, muitÃssimas vezes agressivas, ocorrem num ambiente onde impera a modorra e o tédio. Este enfraquecimento do senso de tempo, - expressão de Mann - deve ter sido tão bem trabalhado pelo autor, que o Sr. começou a dormitar e a pular páginas e páginas, tal como, em seu artigo, confessa ter feito. Deve ter pulado os luminosos capÃtulos Neve e Passeio pela Praia, devia estar tonto de sono durante as sensualÃssimas cenas entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat e não imagino o que fazia enquanto Naphta e Settembrini se matavam a discutir.
Já chamar Kafka de opressivo, sisudo, vetusto e funéreo é apenas fazer eco a um dos lugares comuns mais equivocados. Esta declaração soa como chamar Kafka de kafkiano, ou como chamar todas as personagens femininas de Balzac de balzaquianas. É respeitar um adjetivo, deixando de lado o sujeito. Posso citar de memória uns dez trechos de Kafka onde há bom humor e auto-ironia. Será que no livro mais famoso deste autor não há auto-ironia? Será que não há um pingo de auto-ironia numa história em que o narrador acorda e vê-se transformado em inseto? Será que não haveria uma pitada de auto-ironia se o Prof. Fischer escrevesse uma história como a que segue? “Num belo dia de outono, LuÃs Augusto, ao acordar, viu-se vestido de chuteiras, calção e camiseta do Grêmio…”. Está bem, concordo que é antes um pesadelo dos mais tenebrosos, mas não haveria auto-ironia nele?
agosto 11th, 2008 às 19:17
Boa definição: o livro Montanha Mágica está entre “a modorra e o tédio”.
Para ler algumas passagens brilhantes, você tem que ler um monte de nada. TerrÃvel.
agosto 12th, 2008 às 11:49
Perai que ofensa é essa? Comparar Kafka com o time atual do Inter? Pobre Kafka, vai ficar 98 anos sem receber uma crÃtica positiva… hoho heheh hahah..
Seria Roth uma versão futebolÃstica de Joyce, ou seja, um cara repetitivo, cansativo, retranqueiro e chato que muita gente acha um gênio?
Luxemburgo seria o Paulo Coelho dos técnicos?
Tá bom. Já vou voltar para o meu paninho…
T§
agosto 12th, 2008 às 12:45
É curioso como a ironia se encontra em quem lê. Por exemplo, segundo amigos do autor, Kafka morria de rir ao ler as primeiras páginas de O Processo, em voz alta, para eles.
agosto 12th, 2008 às 13:21
Marconi, se não me achavas louco, agora vais achar.
Bem, eu sabia que Kafka morria de rir de algumas coisas suas, não só do inÃcio d`O Processo como de parábolas e outras narrativas e… então, como direi?, eu passei a rir de algumas coisas, entende? Passei a ver ironia aqui e ali e deixei de ver Kafka como um escritor tão sério. Na verdade, é meu escritor preferido, ao lado de Tchékov, Swift e mais cem.
agosto 12th, 2008 às 17:59
Pelo contrário, Ribas, acho louco quem diz que Kafka não tem humor. É preciso não possuir um único neurônio para não gargalhar, pelo menos, naquela cena d’O Processo em que o sujeito aparece dentro do armário. Aliás, a própria idéia de “kafkiano” passa necessariamente pela ironia, pois um de seus vetores é a observação da implausibilidade da existência, movimenta-se a partir daÃ. É o mesmo mecanismo de Swift, por exemplo já que você o citou. Ou seja, aquele professor lá é um bunda-mole. Aliás, o senhor leu o artigo de James Wood que lhe enviei século retrasado? Se sim, que achou?
agosto 12th, 2008 às 18:26
Em primeiro lugar, fico feliz que vejas humor em Kafka. Eu quase sempre provoco pasmo quando cito minhas impressões.
Sim, li o James Wood que tenho guardado aqui no micro. Provavelmente esqueci de agradecer a indicação. É óbvio que a classificação do Forster de plano e redondo ou bi e tridimensional é (1)antiquada — pois refere-se a determinado tipo de romance — e (2) equivocada — até pelo fato de, como disse o Wood, a ficção ser o Reino da Exceção, não? Li o livro do Forster faz uns 30 anos e lembro bem: ele só fala nos personagens principais dos grandes romances de Austen, de Thackeray, Fielding, etc. Não fala em novelas, contos, etc. para mim, a teoria dele já morre de cara quando se
pensa no maior romance de todos os tempos. Acho que não me engano se disser que tanto Dom Quixote quanto Sancho entram na classificação de planos. Não obstante o número de páginas dedicadas a eles, os dois insistem em comportar-se de forma tão plana quanto Pickwick…
Estas teorias estanques estão fadadas a serem contestadas. Que tal colocarmos a condensação de Pound frente a um romanção de Dostoiévski? Ah, Dostô não presta, é?
Abraço.
Marconi Leal Reply:
agosto 12th, 2008 at 19:51
Foi exatamente o mesmo exemplo que veio a minha mente (sim, apesar das aparências, possuo uma) quando li Forster: Dom Quixote. Dom Quixote que, aliás, ainda tem algo que crÃticos literários em geral não compreendem: humor, cuja dinâmica joga definitivamente por terra os conceitos usados por ele. Mas o inacreditával é que as faculdades de Letras continuam usando este tipo de definição até hoje.
Em tempo: lá em cima, “sujeito aparece dentro do armário do escritório”. Falo de um perseguidor do protagonista, obviamente.
agosto 13th, 2008 às 18:53
prezado Milton:
1. talvez o professor não tenha tido contato ainda com o mais auto-irônico e sarcástico desenhista de quadrinhos que eu já li: Robert Crumb, que desenhou (com textos de David Mairowitz) um livrinho excelente sobre… Kafka, publicado no Brasil pela Relume Dumará em 2006 (e que nos traz um Kafka pra lá de atrapalhado, imensa e pequeninamente humano).
2. parabéns pelo blog, que passo a frequentar agora. Achei excelente o que escreveste sobre Bolaño, um autor que realmente nos tira da órbita (da órbita newtoniana clássica, por suposto), e que merece nossa leitura e admiração sincera.
grande abraço