El común olvido, de Sylvia Molloy
Vou começar pelo final: este livro, indicado a mim por Idelber Avelar, é uma obra-prima e está pedindo desesperadamente um tradutor como Eduardo Brandão ou como minha amiga Simone Vey.
É comum nos grandes romances a dificuldade para se dizer qual é exatamente seu tema. Por exemplo, Os Irmãos Karamázovi é um romance policial - um whodunit que pergunta “Quem matou o velho Fiódor?” – mas também é um livro filosófico – “A Parábola do Grande Inquisidor” -, religioso, um estudo de costumes e é tudo isso e mais, pois os grandes romances são representações tão perfeitas de suas situações que tornam-se símbolos que diferem de leitor para leitor, o qual passa a vê-lo a partir da perspectiva que lhe dá sua experiência e cognição. El común olvido é um romance moderníssimo. Não nos apresenta um labirinto de alegorias e metáforas de difícil interpretação, porém, sendo tão bom, verossímil e de penetração psicológica tão intensa, torna-se inevitavelmente símbolo.
El común olvido é narrado na primeira pessoa por Daniel e inicia-se com sua chegada ao Aeroporto de Ezeiza com as cinzas de sua mãe. Ele tinha emigrado para os Estados Unidos ainda criança, logo após a separação dos pais, acompanhado da mãe. Poucas vezes retornara à Argentina e o pai já morrera há anos. Lentamente, Daniel fala de si, de sua profissão de tradutor, da tese que escreve, mas o foco vai pouco a pouco apontando para o mundo externo. Podemos pensar que teremos um “Em busca da mãe perdida”, mas na verdade o que teremos será uma arrebatadora demonstração dos enganos de nossa memória, levada com virtuosismo pela autora. John Fowles escreveu que douramos ou pioramos nosso passado e o colocamos em nossa estande de forma a apresentá-lo quando solicitado. Daniel também tem sua brochura colocada na estante, só que esta vai sendo corroída, distorcida, alterada e até tornada a antítese do que era, quando comparada com o que passa a saber. Talvez como símbolo desta destruição, Daniel perde as cinzas de sua mãe antes de jogá-las no rio da Prata.
Naquele momento da leitura, cheguei a pensar que o livro teria alguma trama policial com este MacGuffin no centro, mas a perda das cinzas maternas apenas aumenta a angústia – verdadeiro fio condutor da história – de Daniel, que segue completando as lacunas de um cenário que não mais existe e que não é nem um pouco parecido com sua brochura. Aparecem novos fragmentos, novas relações, novos personagens, novos e tão surpreendentes fatos que Daniel acaba por ver sua antiga identidade esvaindo-se. Sylvia Molloy trabalha tão bem a perda da identidade que tive a impressão de sentir fisicamente o vazio inteiramente sem lastro onde Daniel estava entrando. Cada item que é acrescentado ou retificado em sua memória, cada acontecimento, — a sexualidade da mãe, o acidente de carro, as brigas com o pai, a apresentação de Charlotte, o afastamento de Simón — torna impossível o retorno a sua vida anterior. As lacunas –- as que foram preenchidas, pois sabemos que há muitas mais — são preenchidas pela autora com a mesma lentidão e tranqüilidade com que Kafka comprazia-se (ou parecia comprazer-se) de nos mostrar coisas que nos pareciam verdadeiros horrores, não por si, mas pelo deslocamento a que sua aceitação nos obrigava. É importante dizer que Molloy tem de Kafka apenas a característica de ser imperturbável, pois seu humor e elegantes anedotas são tipicamente platinas.
Como escreveu Alejandra Josiowicz, o tempo e as eventualidades parecem rir-se da intenção ratificadora de Daniel. O contexto humano conspira contra a ordem que ele pretende impor à história, formando um quadro paranóico, do qual talvez seja melhor fugir. Ou nunca abandonar.
Leitura e tradução obrigatórias. E, notem, o livro é de 2002.
agosto 27th, 2008 às 18:18
To anotando aqui, Milton.
agosto 27th, 2008 às 21:34
Conheço um blogueiro gaúcho que acaba de virar leitura recomendada num seminário de literatura de uma certa universidade americana…
Que bom que gostou tanto do livro. Vamos ver se os alunos gostam. Abraços.
agosto 27th, 2008 às 22:06
Idelber, na boa, fico bestificado. Estava até com medo de publicar.
Eu gostei muito do livro, pensei muito nele. Para mim, foi de uma intensidade estúpida.
Obrigado pelo comentário, pela “leitura recomendada” e, fundamentalmente pelo acesso a Sylvia Molloy, que não vira mais gorda antes…
Abraço!
agosto 28th, 2008 às 11:34
Milton, é a primeira vez que vejo um blog citar o John Fowles! gostei muito do Colecionador. acho que estes autores desconhecidos do gde público trazem gratas surpresas. quanto à Silvia, aguardo a tradução.