Um Barão Genial
Lembrei-me de um texto genial do conterrâneo AparÃcio Torelli, vulgo Apporelly, vulgo Barão de Itararé, que estranhamente não foi escrito por ele, mas por Graciliano Ramos. Explico: o alagoano Graciliano e o gaúcho AparÃcio foram companheiros de prisão e lá tornaram-se amigos; conheceram-se em 1936, quando o fascismo do também gaúcho Getúlio Vargas os colocou próximos. Vocês observarão que Apporelly - naquela época ele ainda não tinha recebido dele mesmo o tÃtulo honorÃfico… - parecia estar muito bem. O trecho que copiei para meus 7 leitores narra uma conversa entre os dois amigos. Foi retirado de Memórias do Cárcere, do CapÃtulo 5 da Segunda Parte, Pavilhão dos Primários. Levei horas até encontrar o que procurava e que estava na página 187 do livro lido há muitos anos. Embriaguem-se com Graciliano e o futuro Barão:
Apporelly sustentava que tudo ia muito bem. Fundava-se a demonstração no exame de um fato de que surgiam duas alternativas; excluÃa-se uma, desdobrava-se a segunda em outras duas; uma se eliminava, a outra se bipartia, e assim por diante, numa cadeia comprida. Ali onde vivÃamos, Apporelly afirmava, utilizando seu método, que não havia motivo para receio. Que nos podia acontecer? SerÃamos postos em liberdade ou continuarÃamos presos. Se nos soltassem, bem: era o que desejávamos. Se ficássemos na prisão, deixar-nos-iam sem processo ou com processo. Se não nos processassem, bem: à falta de provas, cedo ou tarde nos mandariam embora. Se nos processassem, serÃamos julgados, absolvidos ou condenados. Se nos absolvessem, bem: nada melhor esperávamos. Se nos condenassem, dar-nos-iam pena leve ou pena grande. Se se contentassem com a pena leve: descansarÃamos algum tempo sustentados pelo governo, depois irÃamos para a rua. Se nos arrumassem pena dura, serÃamos anistiados, ou não serÃamos. Se fôssemos anistiados, excelente: era como se não houvesse condenação. Se não nos anistiassem, cumprirÃamos a sentença ou morrerÃamos. Se cumprÃssemos a sentença, magnÃfico: voltarÃamos para casa. Se morrêssemos, irÃamos para o céu ou para o inferno. Se fôssemos para o céu, ótimo: era a suprema aspiração de cada um. E se fôssemos para o inferno? A cadeia findava aÃ. Realmente ignorávamos o que nos sucederia se fôssemos para o inferno. Mas ainda assim não convinha alarmar-nos, pois esta desgraça poderia chegar a qualquer pessoa, na Casa de Detenção ou fora dela.
julho 14th, 2008 às 11:31
O Barão foi colega do meu avô no Colégio Conceição, em São Leopoldo, dos jesuÃtas. Eram amigos, apesar das diferenças ideológicas e de convicção religiosa. E não sei como, meu avô convenceu o Barão a se crismar, terminando por ser seu padrinho. SaÃram de lá, e o Barão foi cursar Medicina (meu avô foi pro Direito). Mas empacou na faculdade, por conta de uma rusga com um professor que o reprovava sempre numa determinada cadeira. Um dia meu avô o encontrou e fez a cobrança: afinal, AparÃcio, quando é que vais sair daquela cadeira? Cadeira? Mas que cadeira? Aquilo é um sofá!!!
julho 14th, 2008 às 11:52
Ou seja, ele sempre soube rir do próprio infortúnio. Quando a polÃcia do Getúlio empastelou seu jornal, colocou uma placa na porta: “Entre sem bater”. Acho que nisso ele foi único.
julho 14th, 2008 às 13:19
Navegador, a capacidade de rir de si próprio é uma das qualidades que mais gosto nas pessoas. O Barão sabia fazer isso como ninguém.
julho 14th, 2008 às 15:50
Sem dúvida, é uma qualidade fundamental. A falta dela é a grande caracterÃstica dos chatos.
julho 14th, 2008 às 15:57
Graaaaande verdade!
julho 14th, 2008 às 16:12
O Barão de Itararé, ou AparÃcio, tem seu lugar merecido no anedotário nacional. Quanto a Graciliano, este escreveu um dos melhores livros brasileiros de todos os tempos: Memórias do Cárcere. Boa lembrança, Milton.
julho 14th, 2008 às 21:59
genial! Desculpa a comparação pouco prestigiosa, mas me lembrou a Pollyanna dos meus 10, 11 anos de idade. Agora tenho uma referência para o jogo do contente mais prestigiosa e mais adequada para a minha idade…
Brincadeira! O notável nesse rir de si mesmo é, além do senso de humor, a inteligência!
bjs, Flávia
julho 14th, 2008 às 23:11
É, Flávia. Perfeito.