Existe música inteligente e música burra?
Existe música inteligente e música burra? Fiz esta pergunta ontem para a Claudia, que me respondeu:
– Não. Existe música cerebral e música emocional. Às vezes, alguns compositores conseguem juntar as duas coisas.
Claudia não é trouxa. Trata-se de uma contumaz ouvinte de ópera que está sendo pouco a pouco “domada” ou dobrada por meu amor à música erudita instrumental. Não faço isto por maldade, é que ouço enorme quantidade de música em casa. Quanto à pergunta respondida por ela, concordo com a resposta, mas é notável a insistência com que os musicólogos referem-se à inteligência que há na música do húngaro Béla Bártok. (Agora que todos leram Budapeste, de Chico Buarque, não preciso mais explicar como se pronuncia o nome deste compositor de decantada inteligência musical.)
Por que toco neste assunto? É que ontem, ao vir para casa ouvindo a Rádio da Universidade, comecei a notar algo de muito engenhoso, de muito cerebral na Sonata para dois pianos e percussão de Béla Bartók. Isto é, penso ter entrado novamente em contato de primeiro grau com a tal “inteligência”, mas não consigo caracterizar o que é, nem onde exatamente ela está. Mas o que aquelas pessoas que se arvoram de especialistas dizem?
Abri dois livros e lá está:
1. Otto Maria Carpeaux, em Uma Nova História da Música: “O Quarteto Nº 3 é… uma obra-prima de profunda inteligência musical e de expressionismo algo violento…”
2. Michèle Reverdy, em História da Música Ocidental, não usa o termo “inteligência”, mas ressalta a exatidão matemática, o rigor formal e sabemos com o que estamos nos deparando quando ele diz: “Em 1936, Bartók compôs o que é sem dúvida sua obra-prima: A Música para cordas, percussão e celesta, onde encontramos, ampliados, todos elementos de sua linguagem. As estruturas da obra estabelecem-se segundo as leis da seção áurea e da série áurea mais simples, dita ´Seqüência de Fibonacci´ “.
Mais (ainda Michèle Reverdy): “A ´Seção áurea´ é uma medida que se utiliza em todas as artes, mais particularmente na pintura e na arquitetura. Como ela representa uma proporção perfeita, o pintor, músico ou arquiteto situam as linhas de força de suas obras no ponto dado pela seção áurea. No caso de Bartók, essa utilização é inteiramente consciente, com uma precisão calculada quase no nÃvel da semicolcheia.”
A explicação começa bem, mas não chega ao ponto de explicar com clareza como tal “perfeição” seria apreendida pelo ouvinte. Mas, dentro deste critério escorregadio, arriscaria dizer que Bartók e Bach foram compositores inteligentÃssimos e equilibrados, além de terem sido comprovadamente pessoas com grande capacidade intelectual. Mas o que dizer de Bruckner? Bruckner era considerado uma pessoa burrÃssima, mas sua obra é muito complexa. Já Haydn era um simplório de melodias irresistÃveis, enquanto que Rossini inventava melodias tão irresistÃveis quanto à s de Haydn, e foi também o maior dos frasistas da música erudita; portanto, para burro não servia. (Por exemplo: “Wagner têm alguns trintas segundos brilhantes, mas estes são sempre seguidos de terrÃveis meias-horas”.)
O melhor mesmo é que vocês confiram as música do húngaro e dêem sua opinião. Sua obra é imensa, destaco estas:
- Música para cordas, percussão e celesta: a campeã da Bartók. Foi utilizada na trilha sonora de O Iluminado, de Stanley Kubrick.
- Concerto para orquestra: o nome é este mesmo, não fiquei maluco. Os instrumentos da orquestra são tratados como solistas.
- Concerto Nº 3 para piano e orquestra: composto antes de morrer com a finalidade de acrescentar uma obra inédita ao repertório de sua esposa Ditta. Uma obra espantosa, criada com amor e medo.
- Allegro Barbaro para piano solo: que sofreu plágio escancarado do grupo de rock progressivo Emerson, Lake & Palmer.
- Concerto Nº 2 para violino e orquestra.
- Sonata para dois pianos e percussão.
- SuÃte de danças para orquestra e
- Uma experiência divertida e surpreendente: ouvir os últimos Quartetos de Beethoven e emendá-los diretamente com os 6 Quartetos de Bartók. Vocês verão que estes dão continuidade à queles. Como escreve Jean Massin, eles possuem a mesma força, a mesma nobreza, o mesmo espÃrito no tratamento dos instrumentos. Vale a pena! Só não faça isto num dia só, pois todo o processo deve durar mais de 6 horas.
julho 28th, 2008 às 11:06
Absolutamente leigo, ouso comentar que ouvira dizer, há tempos, ser a música de Bach construÃda matemáticamente. Como ‘arranho’ alguns minuetos no piano aqui de casa, comprovo o rigor com que foram compostos. Ouvira dizer o mesmo dos Concertos de Brandeburgo, a tal ponto que a gravação de um deles fora lançado ao espaço, para comprovar vida inteligente sobre a Terra. Verdade? Seu post, entretanto, impulsiona-me a ouvir Bártok.
julho 28th, 2008 às 11:19
nós já não conversamos sobre isso? não sei se tive um deja vu ou ou se é o assunto, que sempre nos motiva :)))
eu não acho que exista música inteligente ou burra, como a Cláudia; aliás, a resposta dela é excelente (só pra variar). mas eu tenho certeza que existe música que te deixa inteligente e a que te deixa burro. o pop, por exemplo, é que nem novela de tevê. vai carcomendo por dentro e as turbas se levantam se alguém ousa apontar seu caráter oxidante das sinapses. rádio FM é um novelão que nunca acaba, com suas repetições, lugares comuns, mensagens publicitárias e pouco esforço mental para compreensão, assimilação e fruição.
agora, se existe o pop da música clássica, será que ele emburrece como as outras manifestações reduzidas para consumo do senso comum? (o pop que provém do metal, com toda certeza.)
eu acho que existe música, e música mal-intencionada.
julho 28th, 2008 às 11:41
todos leram Budapeste? como assim, cara pálida? Unidunitê salamé mingüê? a quem vc está escolhendo, Milton? quem vc pretende incluir e excluir entre seus leitores?
Agora que todos leram La distintion, de Pierre Bourdieu…
Milton, sempre que vc escreve essas coisas eu lembro desse texto “instigante” (não irretocável) do Bourdieu. Eu tenho um artigo aqui que faz o resumo da ópera. Me manda o endereço e eu te mando o xerox. Divertido e curtinho - além de um pouco chatinho, como Bourdieu sempre é. Já te falei dele, quando te falei de “boa vontade cultural”, é onde ele usa tb a expressão “docilidade cultural”, o que talvez tenha me faltado para ler teu post. Mas não sei, acho que docilidade não é meu forte…
Ah, minha resposta a tua pergunta tÃtulo: existe música distintiva!
bj, f
julho 28th, 2008 às 14:25
Flávia, minha amiga indócil: este texto é de 2004 e, naquela época, todos tinham lido Budapeste. Dava até para comentar na rua!
Tiago: sim, sim, existe música imbecilizante e música para não ser ouvida. Olha, a última é a pior. Aquele “doce sonzinho ambiente” que ninguém ouve, APENAS EU, é de matar.
Pois é, Claudio, os Brandenburgo são transmitidos para os ETs. Certamente, terão pensarão que só há JS Bachs por aqui, o que será grave erro!
julho 28th, 2008 às 15:34
entendi e não gosti. Vc insiste, então!
Te passo, então, o precioso (para mim) ensinamento de minha amiga psiquiatra e eventual oradora. Uma das maneiras mais eficazes de perder um leitor, interlocutor ou platéia é subestimá-lo. Uma outra, é superestimá-lo.
Indócil? paciéncia…
bj, f
julho 28th, 2008 às 16:31
Flávia.
Agora fui eu quem não entendeu.
Utilizei uma expressão bastante comum: “Agora que todos leram Budapeste…”. Ora, é claro que é uma expressão igual a dizer “Agora todos têm celular”. Quando digo que todo mundo tem celular, estou limitando o grupo à queles que têm dinheiro comprá-lo e interesse em possuÃ-lo; quando digo que todo mundo leu Budapeste estou me referindo ao grupo de pessoas que lêem livros e mantêm-se atualizado com os principais lançamentos.
Não estou te subestimando nem superestimando, acho que não é o caso para uma avaliação deste gênero. E é óbvio que te chamei de indócil somente após ler teu comentário dizendo que docilidade (cultural) não é o teu forte.
Sim, agora estou desconcertado. Não tive a mÃnima intenção de ofender.
Complementando, não tenho em mente incluir nem excluir leitores, mas tenho sim em mente provocar. Ora, já escrevi algumas vezes que o único bem cultural comum que temos hoje é o cinema. Se o filme é bom ou escandaloso, é quase certo TODOS (os que se preocupam minimamente com cinema) viram. Em contraposição, não há crÃtica literária atuante nem leitores suficientes no Brasil para que eu possa me virar para o lado e falar com alguém sobre um livro FUNDAMENTAL como “Os Detetives Selvagens”, de Roberto Bolaño. Mas se quiser falar sobre O Banheiro do Papa, um monte de gente viu o filme. Sim, gostaria de provocar e convidar as pessoas a lerem. Por isso me preocupo em escrever pequenas resenhas e até o ensaio sobre Bolaño que irá ao ar de quarta a sexta.
Peço desculpas se pareci agressivo ou indiferente. Não foi nada disso que senti.
Beijo.
julho 28th, 2008 às 17:50
Ô Milton, querido, nem agressivo, nem indiferente, e nem muito menos ofendida. Somos os dois provocativos, não? Eu entendi o indócil e não estava fazendo nenhuma “ameaça”. Hehe! Sabes que não sou de adjetivos nem meias palavras. Agora eu que me desculpo se te deixei tão desconcertado. O amor não é lindo, não? Leia sempre minhas palavras para ti com o humor e o carinho habitual. Mesmo quando me exasperas. E se tem uma coisa que me exaspera é um interlocutor que pressupões coisas desse tipo que defendes aà em cima. Acho que dizer que “um monte de gente viu o filme” é muito diferente (MUITO) de dizer “todo mundo viu o filme”, não importa qual. E se isso me exaspera, Milton, não é pelo pessoal. Posso até ter visto o filme ou lido o livro, me incomoda é a presunção, a forma de dizer, que pretende criar um suposto terreno comum entre o que fala/escreve e o que lê/ouve, mas sendo absolutamente falaciosa, embora inclua muita gente, exclui outros desnecessariamente. Então acho que acaba sempre soando arrogante esse tipo de formulação, embora entenda que a intenção dela seja outra. De certa forma eu te dizer isso na tua caixa de comentário também pode parecer muito arrogante, e por isso, parecer também papo de ofendida, mas acharia mais arrogante ainda te “poupar” da minha opinião sempre sincera. É que respeito muito minhas palhaçadas e meus elogios, e principalmente, meu querido amigo Milton Ribeiro, te respeito muito.
Beijo carinhoso, Flávia
julho 28th, 2008 às 18:19
Realmente nem desconfio. Mas tenho convicção que existem ouvido inteligente e ouvido latrina.
julho 30th, 2008 às 11:53
Milton, já eu acho que o que tem é crÃtico musical burro… é cada uma que leio nestes suplementos de cultura…
julho 30th, 2008 às 12:23
Bá, Serbão, é mesmo um horror.
julho 31st, 2008 às 10:43
Critico musical burro é pleonasmo, não?
Julgar a música, algo subjetivo é tão ruim quanto julgar religião. Futebol pelo menos tem o resultado, o gol.
***
Para mim, não existe música burra ou inteligente. A música é absolutamente sentimental e varia de acordo com a complexidade “sentimental” de seu criador. É ai que está “medida de julgamento”.
Por exemplo, uma ópera de Mozart pode ser mais sentimental que uma outra peça do mesmo autor, ou de um autor diferente.
Se quiser utilize por exemplo todo o tipo de música. Um canção do Jazz pode ser mais sentimental do que um funk (new beat) carioca. Não ser trata de ser melhor ou pior. Para o que se propõe, o “funk carioca” funciona perfeitamente.
Uma música dance funciona diferente e trás sentimentalmente, outra relação com o ouvinte (ou grupo dançante) que difere de uma valsa vienense.
É nesse sentido que procuro “entender” a música, porque dizer que uma música é “melhor” ou “pior” é renegar a própria história da música Pop.
A música trás valores e sentimentos. Aos valor nós damos crétido de acordo com a história em que essa música está inserida. Mas aos sentimentos, só podemos gostar ou não gostar, não é racional é uma questão de envolvimento.
Não sei se ficou claro, odeio escrever correndo mas é assim que vejo.
Abs!
T§