Quinta-feira, ao abrir a Zero Hora, deparei-me com algo que não me fez sentir saudades da Rascunho, da Pagina 12, da Babelia, etc.

Era uma notícia sobre uma artista plástica gaúcha que fez uma instalação chamada O Homem Sem Qualidades, Mesmo. Você olha dentro de uma caixa e ali há um exemplar de O Homem sem Qualidades, romance-ensaio de Robert Musil. Só que não é o livro normal, é uma obra de arte.

O que a autora fez? Simplesmente contou e riscou os 30.301 adjetivos do livro, deixando o livro absolutamente SEM QUALIDADES. Genial, não? Talvez sua inspiração tenha sido alguns movimentos sociais como o dos Sem Terra, Sem Teto, etc. e certamente sua atitude radical frente aos adjetivos causará admiração a José Rainha e João Pedro Stédile que chamarão a artista de “prezada companheira militante”. O que me divertiu (muito) é que um “amigo” da autora, folheando a coisa, descobriu um adjetivo não riscado, mostrou-o a outra pessoa e fechou a obra antes que a ela descobrisse a página ou o adjetivo. Isso fez com a obra voltasse a seu estado de work in progress e permitirá que a artista possa seguir fazendo sua terap… ou sua obsess…, digo, aprimorando sua arte. (Abaixo, trecho da obra.)

Elida Tessler Divulgacao2A artista-sumidade — cujo nome é Elida Tessler, doutora em História da Arte (Universidade de Paris I - Panthéon - Sorbonne) e professora do Departamento de Artes Visuais e do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS –, desesperada com a descoberta, declarou ao jornal que terá de ler o alentado volume pela quarta vez em busca do adjetivo perdido.

Voltando a meu assunto, posso dizer que já ouvi falar de hospitais psiquiátricos onde eram propostas caçadas a substantivos femininos, mesóclises, apostos e, em casos mais severos, a orações coordenadas assindéticas. Mas nunca pensei que tal atividade viesse a merecer foros de arte quando o objetivo fosse identificar adjetivos em Musil. Será que se eu fizer o mesmo com Guimarães Rosa estarei produzindo arte? Será que meus conhecimentos sobre adjetivos tornam-me um artista? Ou terei de desenvolver um conceito semelhante? Posso tentar! Quem sabe crio a instalação Um Quarto com Vista, baseada no livro de E.M. Forster, A Room with a View e faço um quarto sem janelas mas com um olhão enorme desenhado na parede? E deixo o livro numa escrivaninha de meu quarto-instalação? Puxa, brilhante, Milton!

Hoje, a referida “obra” de Elida está exposta em Madrid, na exposição coletiva Heteronímia Brasil, que reúne obras de 10 artistas brasileiros contemporâneos. Prova de que nossa cultura não exporta apenas Paulo Coelho, jogadores de futebol, boa música e prostitutas.

P.S.- Será que ela participa do UniSmiles, programa universitário multiplicador de milhas e títulos? Sei lá.