Kubrick e Spielberg: uma amizade improvável
Sabiam que antes de gravar qualquer canção, Roberto Carlos consultava Tom Jobim a respeito? Só após o OK de Tom é que Roberto aprovava a divulgação de qualquer obra. O Rei ficou inconsolável com a morte de seu mentor. Está confuso. O mesmo acontece até hoje com Paulo Coelho e José Saramago. O mago só manda seus escritos para o prelo se o português lhe diz: tá bom, alquimista, vá em frente. Fernando Sabino fazia o mesmo com Clarice Lispector; se a autora de Água Viva e Laços de Família não lhe escrevesse “Alles klar. Clarice.”, estaríamos livres de Zélia, Uma Paixão.
Claro que o parágrafo acima é inteiramente mentiroso. Mas o título deste texto é verdadeiro. Spielberg e Kubrick eram amicíssimos e se consultavam a respeito de seus filmes. Várias sugestões trafegavam e eram aceitas nos dois sentidos. O erudito mestre Stanley Kubrick prezava muito o mestre do entrenimento Steven Spielberg e vice-versa. Amo o cinema de Kubrick e nada tenho contra Spielberg, mas penso que dificilmente haverá dois amigos e colaboradores (mesmo que informais) mais diferentes entre si.
A importância de Stanley Kubrick para o cinema mundial pode ser medida pela qualidade e variedade dos poucos filmes que produziu. Muito pensam que ele era inglês, mas ele foi um novaiorquino que produziu parte de sua obra na Inglaterra. Kubrick criou ficção científica, suspense, reconstituição histórica, filmes de guerra, filmes intimistas e comédia sempre com brilhantismo — com brilhantismo ofuscante, creio eu. Ele — que se definiu para Anthony Burgess como um maestro dei colore que lia bons livros, que gostava de boa música e que tentava trazer isto para seus filmes — produziu apenas 13 filmes em 46 anos de carreira. E eu garanto que você viu ou pelo menos sabe da existência de mais da metade deles. Quer comprovar?
1. Fear and desire (1953) - Que Kubrick rejeitava por ser péssimo.
2. A morte passou por perto (1955) - Idem
3. O grande golpe (1956) * - Suspense
4. Glória feita de sangue (1957) * - Guerra
5. Spartacus (1960) * - Épico romano
6. Lolita (1962) - Intimismo politicamente incorreto
7. Doutor Fantástico (1964) - Comédia
8. 2001- Uma Odisséia no Espaço (1968) * - Ficção Científica
9. Laranja Mecânica (1971) * - Futurismo anarquista
10. Barry Lyndon (1975) - Romance vitoriano de Thackeray, passado no século XVII
11. O Iluminado (1980) * - Terror
12. Nascido para Matar (1987) * - Guerra
13. De Olhos Bem Fechados (1999) * - Intimista, baseado na grande novela Breve Romance de Sonho, de Arthur Schnitzler
Esta não é uma série de filmes clássicos, é apenas a obra de Kubrick. O que mais o distingue é a inteligência e o fato de que sempre se propor a esgotar os temas aos quais se dedica, chegando, às vezes, a produzir três filmes contrastantes dentro de um só. É como se produzisse variações sobre um mesmo tema, ao estilo dos compositores eruditos. Fez isto no tríptico Laranja Mecânica — (1) Ultra-violência, (2) Tratamento Ludovico e (3) Retorno à sociedade –, em De Olhos Bem Fechados — (1) Amor, (2) Ciúme e medo e (3) Aventura mórbida — e em outros, como 2001.
A surpreendente amizade com Spielberg só ganhou notoriedade quando da morte de Kubrick. A quem foi passada a tarefa de finalizar De Olhos Bem Fechados? Ora, a Spielberg, que era quem tinha conhecimento de todo o projeto. É sintomático que Spielberg, após este trabalho, voltasse a outro projeto de Kubrick: Inteligência Artificial. Porém, curiosamente, ao filmar a história que Kubrick filmaria a seguir, acabou realizando um tríptico típico do mestre: (1) Conhecendo e rejeitando o robô, (2) O robô solto no mundo e (3) Final açucarado para você chorar de emoção ou raiva. Esta característica musical de reapresentar o mesmo tema de diversas formas foi também assumida por Spieberg em seu filme seguinte, Minority Report. Porém, insisto…

Caricatura retirada do The Simon Magazine, mais exatamente do artigo “Steven Spielberg’s Artificial Inheritance”. Sem nome de autor.
Kubrick não se repetia, Spielberg fez 3 Indiana Jones e não sei quantos Parques dos Dinossauros. Kubrick era um erudito generalista ao estilo dos grandes homens do renascimento, Spielberg é o tarado da ação, mesmo que se declare um apaixonado pela literatura. Kubrick quase não dava entrevistas, Spielberg não pára de falar. Kubrick sempre foi hostil às estéticas aceitas por hollywood e não ficou milionário, Spielberg aderiu e é produtor riquíssimo em hollywood. Kubrick realizava filmes secos, profundos, corrosivos e analíticos, Spielberg os faz normalmente divertidos, superficiais, açucarados e infantis. Kubrick fazia um filme a cada 4 anos, Spielberg faz um por ano. Um concentra, o outro dilui. Mas nada disto os impedia de discutirem seus respectivos projetos em detalhe e a resultante destas discussões poderia ser tão diferente quanto o são Parque dos Dinossauros, Indiana Jones, Nascido para Matar ou O Iluminado.
Seria respeito profissional? Admiração mútua? Amor ao que o outro tinha de inatingível? Não sei, apenas acho curioso.
(*) Estes são os filmes de Kubrick que, em minha opinião, qualquer um de nós deveria ver a fim de crescer mais alguns centímetros.




junho 11th, 2008 s 7:22
Meu caro, poucos diretores do cinema merecem ser nomeados como gênios. Kubrick é um deles. E como você, nada tenho contra Spielberg. Acho-o até divertido e mesmo interessante, em certo sentido. Ah, sim: ao contrário de você, gosto bastante de Dr. Fantástico e, sobretudo, Barry Lyndon. Abraços.
junho 11th, 2008 s 9:27
Ótima análise.
Ou seja, Kubrick é Kubrick.
Spielberg é só Spielberg.
abç
junho 11th, 2008 s 10:36
Talvez eles fossem só amigos e pronto. Cada um com seu trabalho.
junho 11th, 2008 s 10:48
Mas e a herança recebida por Spielberg de completar e assumir projetos de Kubrick?
junho 11th, 2008 s 15:09
Gostei dos filmes de Kubrick, desde Laranja Mecânica… divirto-me com Spielber… cada macaco no seu galho, né?
Off topic: vá lá no Soié http://ontem-hoje.blogspot.com e deixe-lhe uma mensagem: é o que mais lhe dá prazer e será, além disso, um ‘presente’ de bodas). Ou pegue o avião aí e venha!!!
junho 12th, 2008 s 12:59
Bacana o post
adoro Kubrick e me divirto com Spielberg !
Aproveitem o dia dos namorados…o amor está no ar
Um abraço
junho 12th, 2008 s 16:21
Achei inacreditável esta história. Gosto muitíssim o do Kubrick, principalmente de Doctor Strangelove (Doutor Fantástico) e de The Shining ( O iluminado) . Spielberg, gosto só dos filmes de ação. Não gosto de The Color Purple, nem do Shindler’s List, com uso seletivo de cor-de-rosa numa imagem banal. O filme dos judeus vingando-se dos terroristas é um filme de ação metido a sério. Não conta como filme sério.
Não conhecia teu blog, vou acrescentá-lo à lista dos blogs do meu blog pois além de você parece que há mais cabeças pensantes aí na tua lista. Vim do ius communicatio da Gabriela Zago.
junho 13th, 2008 s 18:27
Tá tudo muito bem explicado aí Milton. Muito bom mesmo.
Não tem um ditado que diz que os opostos se atraem ??
Abraços
junho 13th, 2008 s 19:03
Um tanto injusto com Robertão, Fernando Sabino… e Barry Lyndon.
junho 14th, 2008 s 20:09
Sobre Kubrick:
Quando fui assistir no final d 69 o 2001, entrei no cinema achando q iria ver mais uma daquelas ficções meia-boca, com monstros e tal, aquelas porcarias típicas de óliudi. (grafado assim mesmo, como faz o cartunista Santiago).
De fato, apareceram “monstros”, aqueles primatas em volta de uma poça d’água. Mas, no meio de um deserto. Aquilo já me inquietou na poltrona, era inédito, nossos avós fora daquele ambiente de selva em q estávamos acostumados a vê-los no cinema. E a coisa foi indo até a aparição do monólito e do momento em q o primata atira o osso para cima, q se transforma no ônibus espacial da Panam. Essa possibilidade ainda ñ era um conceito d domínio público.
Corta para dentro da nave e do deserto-savana passamos para um ambiente altamente tecnológico, com um desenho apuradíssimo, que remetia ao futuro, mas que era, ao mesmo tempo, plausível. Nessas alturas eu já levitava na poltrona, transportado para um outro mundo. Em seguida vem a cena da “cosmo-moça”, subindo pela lateral da escotilha e entrando d cabeça para baixo na cabine dos pilotos. Naquele momento, senti q se erguia uma muralha entre tudo o q foi feito em termos de ficção científica e o q se faria dali para diante. Kubrick se deteve nas minúcias e conseguiu produzir sensações e um impacto tão colossal com essa “realidade-ficcional-funcional” q nunca mais vi algo parecido no cinema. O Discovery, que rompia com a necessidade aerodinâmica no vácuo do espaço, o próprio tamanho da nave, o desenho de seu interior, o uso do branco, o Hall como um ente onipresente, um “cérebro” diluído por toda a nave e q tudo comandava através d seu olhar eletrônico. A reentrada do Durea na nave após tentar resgatar seu companheiro e q se desenrola toda numa seqüência sem som, que só passa a ser ouvido a partir do momento em que ele consegue abrir a válvula do ar. Coisa de gênio. Talvez os leitores achem q estou superdimens
ionando esses detalhes, quem sabe até, por ser uma pessoa q está muito ligada a estética do olhar, na condição de artista gráfico q sou. Mas pensem nisso a quarenta anos atrás, na revolução estética e conceitual q este filme representou. Naquele momento, o cinema, para mim, cumpriu o seu papel de nos “trans-portar” para uma outra dimensão, ficcional é certo, mas uma dimensão, como já disse, plausível. Eu vi e participei do futuro, estando no presente. Para mim o maior filme d todos os tempos, um caso raro em q a obra cinematográfica é tão boa ou melhor q a obra literária q lhe deu origem.
É claro q Kubrick ñ é um deus e poderíamos ter passado muito bem sem o Iluminado e De olhos bem fechados, q apesar d filmes acima da média, considero obras menores do mestre. Há quem discorde. Mas ele tem tantos créditos a seu favor q isso ñ lhe tira o brilho. Mesmo em Spartacus, quando ele coloca na boca do personagem um “discurso”, deslocado no tempo e no espaço, sobre liberdade, q só apareceria com a Revolução Francesa, mesmo assim suas abordagens são instigantes. Quem ñ reconheceria o valor de Laranja Mecânica, Lolita, do Dr. Fantástico, em q Kubrick, mais ainda do q em 2001, faz um contraponto magistral entra a música e a ação, quando usa a canção We’ll Meet Again sobre a seqüência das detonações nucleares, ao final do filme? Momento do mais puro lirismo no cinema, onde se confronta o q há de mais brutal na realização humana, as armas de destruição em massa, com aquilo q há d mais sublime, a mulher q canta, por todos nós, seus sentimentos.
Quem quiser ver e ouvir, tá aqui. Conferi os enlaces e estão funcionando:
We’ll Meet Again - gravação original por Vera Lynn
http://www.youtube.com/watch?v=3Drw4aZhdT8&feature=related
Cenas finais do Dr. fantástico - vejam o q é a violência das explosões observando os navios cobaia q estão ao redor d algumas delas.
http://www.youtube.com/watch?v=gX0B38IgYK8&mode=related&search
Sobre Spielberg
Apenas um artesão, requentador d clichês óliudianos, alguém q ñ sabe onde parar um filme, como foi o caso de Inteligência Artificial, q deveria ter terminado quando o menino encontra a fada submersa. Pior, um cara q faz um filme onde o “herói” Indiana Josta” saca da arma e fuzila a queima roupa um “bandidão” do 3º mundo. Pior ainda, no afã d e fazer um libelo anti-nazista em o Soldado Ryan, o soldado tradutor mata o único alemão q ele ñ poderia matar, dentre todos aqueles q participaram do combate final pela posse da ponte da aldeia.
Spielberg é um brutal equivocado, um sujeito q ñ tem estatura para ser diretor de cinema, um mero técnico q deveria trabalhar como consultor de efeitos especiais. No soldado Ryan, por ex, a única coisa q se salva é a reconstituição do desembarque na Normandia. O resto dá pra jogar no lixo.
Me desculpem os q conseguem se divertir com o Indiana. Ñ consigo mais abstrair certas “subjetividades”, certos comportamentos vale tudo desses “heróis”, ou das xaropadas melosas óliudianas. Acho q perdi a inocência.
…mas o Kubrick ainda me entusiasma.
Eugênio
junho 20th, 2008 s 19:04
IMHO, o Kubrick perfeito e perfeccionista, em pleníssima forma, aparece no período de 64 a 75 (que englobou Dr. Fantástico-2001-Laranja Mecânica-Barry Lyndon). Na filmografia restante, bons (e um ou dois francamente maus) filmes. E uma passada de bastão das mais espúrias.