A Liana Bozzetto

Lia era uma respeitável e emotiva senhora de setenta e cinco anos que há dezesseis vivia com Belle, uma cachorrinha da raça cocker. Tinha cinco filhos que a visitavam raramente, enquanto Belle nunca tivera uma ninhada, pois sempre vivera no pequeno apartamento acompanhada apenas de sua dona. Quem as conhecia sabia que se amavam. Belle seguia Lia onde quer que ela fosse, latia para os estranhos, pedia colo e, devido à pouca mobilidade de sua dona, engordava. Comiam da mesma comida, descansavam no mesmo sofá e dormiam uma ao lado da outra, Lia na cama e Belle no tapete, ao lado dos chinelos da dona. As reclamações das dores da idade, da ausência dos filhos, das fofocas dos vizinhos, dos preços da farmácia e do supermercado eram acompanhadas atentamente por Belle com o olhar triste e compreensivo dos de sua raça.

Numa madrugada gelada, Lia foi ao banheiro (ia muitas vezes durante a noite) e notou não ter sido acompanhada por Belle. Ao retornar, procurou sua cachorra ao lado da cama. Belle estava tranqüila, de olhos abertos e morta.

A perda fez Lia sofrer como nunca. Nem quando seu marido faleceu após longa doença sofrera tanto. O amor que sentia por aquele bichinho era imenso. Dependia daquele amor, assim como Belle dependia dela para comer e permanecer limpa, sem pulgas e perfumada. Porém Lia não desejava ser ridicularizada por amar tanto a um cão. Era cheia de pudores e discreta. Dessa forma, passou dois dias fechada em casa, chorando e se perguntando sobre o que seria sua vida sem sua querida. Quando um de seus filhos lhe telefonou, procurou esconder o luto. O filho nada notou; ademais, não queria saber de nenhum problema que o fizesse perder tempo. Tudo o que desejava era que sua mãe estivesse bem. Normalmente, era atendido.

No terceiro dia, Lia concluiu que teria de fazer alguma coisa com o corpo de sua companheira. Colocou-o num saco plástico; depois, acondicionou-o na caixa de papelão que fora da TV de seu quarto, preenchendo os espaços vazios com jornais velhos. Feito isso, ainda enrolou a caixa com papel de presente para que as pessoas não pensassem que ela carregava um aparelho de televisão pela rua. Finalmente, saiu de casa com Belle. Era difícil carregar a caixa, a cachorra era pesada e ela precisava pegar um ônibus para ir ao hospital veterinário. Sabia que muitos levavam os corpos de seus animais mortos para lá. Com esforço, chegou à parada. Apesar do casaco grosso, do blusão de lã, da camiseta de algodão, da caixa e dos jornais, parecia sentir nos braços o pêlo de sua companheira de anos. Subiu no coletivo equilibrando-se e, por sorte, conseguiu um lugar para sentar e descansar.

O ônibus foi ficando cheio e Lia levantou-se a fim de ficar mais próxima à saída. Perto da porta, estava um rapaz bem apessoado e educado que se ofereceu para segurar o incômodo fardo. Lia aceitou e, com o olhar embaçado, confidenciou-lhe que, naquele volume, iam suas melhores lembranças. O olhar risonho do moço pareceu consolador a Lia que, contida, lutava contra a emoção, quando a porta do ônibus abriu e o homem simpático disparou correndo, carregando consigo suas melhores lembranças.

No ônibus, algumas pessoas soltaram exclamações de surpresa, porém Lia, fiel a seu estilo, não fez escândalos. Disse-lhes que não se preocupassem, sentou-se novamente e foi até o fim da linha, voltando para casa no mesmo ônibus. Pensava no homem, no roubo e na surpresa que ele teria ao abrir o embrulho. Exibia discreto sorriso.