Milton Ribeiro faz aniversário e é entrevistado
A entrevistadora , que presumo recém chegada à menopausa, entra na minha casa a fim de me entrevistar para o Programa “Hoje é Meu Dia”. O programa apresenta aniversariantes e hoje é meu aniversário. Eu tinha preenchido uma ficha candidatando-me ao programa. Improvisa-se um palquinho em minha casa. Ficamos sentados em frente a meus livros. Desculpo-me pela bagunça, mas o câmera diz para deixar assim, pois o cenário tem personalidade. Sentamos lado a lado, eu e a apresentadora.
P (à guisa de introdução) - Nosso entrevistado de hoje, Milton Ribeiro, está completando 51 anos. É um dia feliz. Ele está muito bem para sua idade. Imaginem que até os 49 anos, ele podia declarar-se infalível na cama e, se dissermos que chegou aos 50 anos sem a utilização de medicações de uso contínuo, saberemos estar diante de um prodígio da boa saúde física. E também mental. A seguir, vocês poderão comprovar o bom humor de nosso entrevistado.
P – Como você mantém esta atitude positiva perante a vida?
R – Bem, como a vida não tem mesmo sentido, logo percebi que poderia optar por várias posturas, todas equivalentes. Poderia me desesperar a cada vicissitude, ou rir delas; escolhi rir. Poderia roubar e matar, mas como prefiro ser bem aceito, escolhi ser bom. Acho que poderia ser bem mais imbecil, porém gosto de cultura e de me informar e aí está um sério problema. É difícil ser pra cima e informado ao mesmo tempo, mas tenho tentado.
P – Entendo. Mas o Sr. deve tentar mais. Confiamos no Sr.!!! Ho, ho, ho!
R – Estou na luta.
P – O Sr. nunca ficou deprimido, certo?
R – Olha, houve episódios em que quis me matar, principalmente durante minha separação, mas digamos que o grande bobo que há em mim emergiu novamente após uns meses e voltei a ficar assim.
P – Nada grave, portanto.
R – Sem dúvida, nada grave. Foram apenas seis meses onde me deprimi. Minha atitude positiva perante a vida fez com que eu me livrasse de todo o insuportável estresse dando de presente todo o pouco que construíra e hoje estou aqui, em perfeita forma.
P – Você então possui uma disposição natural para a felicidade?
R – Sem dúvida. Eu nasci daltônico, estrábico, tenho pés chatos, minha voz é horrível, sou meio cambota, estou engordando e perdendo cabelo, mas só pensei nisso agora. Prova de que sou feliz e mais: de que a felicidade é proteger-se de si mesmo. É o que faço. Sempre.
P – E então! O Sr. é a prova de que as pessoas não devem desistir de seus sonhos?
R – Hum… Sem dúvida.
P – E quais são seus sonhos hoje?
R – Comprar um Karmann-Ghia, ler livros que não me encham o saco, fugir de ver TV, esquecer os jornais da grande imprensa e a música ambiente, reentrar em forma, ouvir música…
P – Vejam, meus amigos, são coisas simples! A felicidade ESTÁ nas coisas simples.
R – Sim, parecem simples, mas tem muito mais…
P – Desculpe interromper. Acho que nossos telespectadores querem saber como você chegou aos 50 anos sem tomar medicação alguma.
R – Eu ia vivendo numa boa até que fui ao cardiologista. Fui porque quis, imotivadamente. Nunca tive nada. Mas descobri que meu colesterol estava batendo nos 300.
P – Ho, ho, ho. Que coisa!
R – Pois é. Aí comecei a tomar um Lípitor antes de dormir e a coisa caiu para 100.
P – Sensacional!
R – Sim, eu sempre obedeci os médicos direitinho.
P – E então, tudo resolvido!
R – Claro, como eu sou alguém naturalmente feliz, ignorava que podia ser perigoso transformar o próprio sangue em água.
P – E então?
R – Hoje tomo meio comprimido e a coisa vai bem.
P – Viram? Tudo se resolve com bom senso, ho, ho, ho. E o peso?
R – Eu adquiri 10 quilos nos últimos trinta anos.
P – Só?
R – Sim, se seguir assim, não viverei o suficiente para experimentar a obesidade mórbida.
P – Ho, ho, ho. Não é maravilhoso? E você não acha que poderia manter o peso atual?
R – Não.
P – Mas por quê?
R – Olha, eu tomo Sibutramina de 15 mg por dia e tenho a mesma fome incontrolável. Quando chega ao final da tarde, penso tanto em chocolate que até esqueço de desejar a morte súbita de algumas pessoas.
P – Nada de maus sentimentos, nada de maus sentimentos! Diria até que sua chocolatria, ho, ho, ho, é muito boa para afastar maus sentimentos.
R – Sim. A chocolatria me salva deles e passo a sonhar apenas com Alpinos e que tais.
P – Ho, ho, ho. Você tem muitos amigos?
R – Sim, esta é uma parte boa da minha vida.
P – Maravilha, uma vida social intensa. E a vida sexual?
R – Olha, quando a coisa começou a falhar fui a um médico que garantiu que meu único problema era mental.
P – Um problema mental! Que bom que não era grave!
R – Ele me disse que se eu me preocupasse muito com os problemas, geraria um aumento de adrenalina no sangue e que esta adrenalina faria com que uma válvula não funcionasse bem.
P – Apenas um problema hidráulico!
R – Sim, claro. Se não vedar bem, o sangue sai. É como uma Hydra estragada.
P – Hidra, como assim?
R – Hydra, uma válvula que se usa em privadas.
P – Ho, ho, ho. Perfeito.
R – Aí, ele me perguntou se minha vida era exageradamente problemática, pois o estresse causa a produção em excesso de adrenalina.
R – E você?
P – Eu respondi que na época estava com um advogado, buscando a obter a guarda de minha filha.
P – Ho, ho, ho. E então?
R – Ele se apavorou. Pois do jeito que minha situação se encontrava, teria dificuldades de fazer uma boa vedação. O sangue iria embora e o pau…
P – Ho, ho, ho. Estamos entrevistando Milton Ribeiro e são 19h43 minutos em Porto Alegre.
R - …
P – E… Bem, isso significa que se você não tiver grandes preocupações, a válvula funciona e sua vida sexual também?
R – Sem dúvida! Pois não tenho problemas físicos, só mentais.
P – Então pode ser solucionado!
R – Claro. Foi por isso que fiz o seguinte raciocínio: como não sou rico e, portanto, meus problemas não são de fácil solução, deveria considerar seriamente a necessidade de tornar-me uma besta quadrada, um bobo alegre.
P – E conseguiu?
R – Mais ou menos. Minha filha veio morar comigo e fiquei mais alegrinho. A coisa melhorou.
P – E não precisou virar um bobo alegre…? Ho, ho, ho.
R – Não, mas gostaria de prevenir. E, para conseguir, tenho que seguir esta trilha, entende? Sou obrigado.
P – Maravilhoso!
R - Mas há desvios que atrapalham.
P – Quais?
R – Eu ligo a TV de manhã e sinto aquela adrenalina voltando. Ou dão péssimas notícias ou é vulgar.
P – A TV pode ser boa, Sr. Milton, pode ser sim!
R – Sim, porém há sempre mais. Por exemplo, vou ler um bom livro, mas este me dá SEMPRE uma visão por demais realista, ouço uma bela música mas ela é SEMPRE meio trágica.
P – Ora, o mundo não é bom para os intelectuais. Por isso, os cientistas inventaram o Viagra. Só para vocês. Você já tomou?
R – Você está ficando irritada e isto não é bom. Olha, não tomo, mas posso considerar. É mesmo um remédio para intelectuais?
P – Deve ser!
R – É que desconheço pessoas felizes. Não apenas intelectuais. Todos são infelizes, mesmo que racionalizem. Todos morrerão.
P – Vocês são muito desagradáveis.
R – Como?
P – Desagradáveis. Os intelectuais gostam de ficar tristes e de dizer! Fazem dramas.
R – E você é feliz?
P – O entrevistado é você. Não interessa o que eu penso. Nem se penso.
R – Você pensa. Só que mal. Pensa que as pessoas possam ser felizes e satisfeitas quando ninguém é assim. A gente é bom ou ruim, interessante ou desinteressante, branco ou preto, engraçado ou sisudo, sociável ou não, mas é sempre insatisfeito.
P – Você não serve para nosso programa.
Fala para o câmera:
P - Ele não irá ao ar no “Hoje é meu Dia”. Procuraremos outra pessoa. Ou um ator contratado, talvez.
R – OK, não posso me estressar.
P – Passe bem. Vocês não têm nada a acrescentar!
R – Vocês?
P – Vocês, os metidos, os idiotas. Imagina falar mal da TV! Na TV! Passe bem!
Ela levanta e faz um sinal ao câmera. Ele faz tsc, tsc, tsc, e diz escolhem cada abobado, acho que não leram a ficha… A entrevistadora manda o câmera apressar-se.
agosto 19th, 2008 s 6:18
Feliz aniversário, Milton.
Tô te mandando uma caixa de viagra italiano.
agosto 19th, 2008 s 8:37
Quando precisar te peço.
E mande toneladas!
Abraço, Allan, e obrigado.
agosto 19th, 2008 s 13:33
Viagra não tenho aqui, mas posso te mandar uns Lipitors e umas Sibutraminas (ou Sibustraminas, como costumam dizer!)
Répi Bãrtdei prá tú, guri! Que os próximos 51 sejam tão bons ou melhores!
agosto 19th, 2008 s 14:11
Feliz aniversario, tchê! vou usar esta frase aqui pra mim:
“a felicidade é proteger-se de si mesmo.”
agosto 19th, 2008 s 16:42
Milton, felicidades pra ti. O texto ficou divertido. Bem como te desejo os próximos anos. Forte abraço.
agosto 19th, 2008 s 16:44
Obrigado, Rafael e Serbão.
Serbão, podes usar à vontade.
agosto 19th, 2008 s 16:46
Ery, enquanto escrevia, teu comentário entrou.
Obrigado, meu amigo.
agosto 19th, 2008 s 17:34
Milton,
Tenho acessado teu blog e achado muito interessante o teu texto e as adoráveis presenças femininas aos sábados. Aproveito para desejar um Feliz Aniversário.Ah! Outro dia uma amiga achou na rua uma cartela inteirinha duma pilula azul. Fomos verificar o que era e adivinha só: Viagra uruguaio. 102 pilinhas pela internet, com 20 comprimidos.
agosto 19th, 2008 s 17:37
Milton!
Que saudade! Passei por aqui para deixar o meu baitabraço de aniversário. Será que precisamos do Blog de Papel Tomo II para tomarmos outro chopp juntos?
Feliz Aniversário. Afinal, 51 é uma boa idéia!
agosto 19th, 2008 s 19:36
Feliz aniversáro, periquito da genitália grande.
agosto 19th, 2008 s 21:08
Explica-se, enfim, a incapacidade de postar fotos de mulher pelada: é a brochitude.
Parabéns, Ribas. São os votos de um abobado.
agosto 19th, 2008 s 22:16
Ué, cadê a Flávia?
agosto 19th, 2008 s 23:36
Cheguei Ramiro!!! A tempo do parabéns a você!
Parabéns a você, meu querido Milton, meu blogueiro e amigo ideal!
E parabéns também pela entrevista! Mas da próxima, me poupe dos detalhes (pouco) sólidos, por favor!
beijos, feliz aniversário, Flávia
agosto 20th, 2008 s 0:04
Ahahahahaha!!!!! Adorei a entrevista! A emissora perdeu uma ótima oportunidade de fazer algo divertido! (também nutro pela tv um sentimento que varia do mais profundo desprezo à mais implacável indiferença)
Feliz aniversário.
agosto 20th, 2008 s 0:14
Feliz Aniversário, pessoa!! Ho,ho,ho
agosto 20th, 2008 s 23:13
Como lhe telefonei adiantado, no domingo (mineiro não perde o trem, uai!)dei-me o direito de somente hoje parabenizá-lo “formalmente” via caixa de comentários.
- Bah, não precisava, tchê!
- Mas eu quis, uai!
- …
- Então, vai aqui meu abraço.
- Pelo aniversário?
- Não, pelo post.
agosto 24th, 2008 s 19:07
Milton:
Vão atrasado meus cumprimentos pela nova versão do Milton que foi liberada. Sempre lembrarei, com remorsos, do almoço que, sem saber que era teu aniversário, marquei contigo e não fui…
Resta-nos nossos encontros vitoriosos no Beira-Rio. Aliás, precisamos combinar, nosso time está precisando !
Saúde ! O resto a gente compra parcelado no cartão. Se for da Renner em 8x fixas.
Fernando
setembro 28th, 2008 s 23:09
Gostei muito da crônica. E excelente a idéia de fazer um programa em que as pessoas sejam entrevistadas no dia de seus aniversários. Vai ser um programa não menos interessante dos que os muitos que há por aí, afinal em muitos são entrevistadas por coisas ainda mais banais, por simplesmente já terem aparecido na televisão ou algo assim.