O blogueiro encontra a Leitora Ideal
Esta singela improvisação é dedicada ao Dr. CLÁUDIO COSTA
O blogueiro senta-se na frente do micro e diz para si mesmo:
– Preciso de um post rápido ou vou requentar algo antigo.
– Não, nada de requentar e rápido eu não quero, tem que ter qualidade — responde a Leitora Ideal.
– Mesmo numa rapidinha há que ter muita atenção. Diria até que uma rapidinha é pura atenção concentrada, pura qualidade, algo tão condensado que nosso pensamento…
– Não me enrola. Para criar qualquer coisa boa, antes tem que refletir um pouco.
– Pára com isso! Como assim? Eu não ganho nada para publicar aqui. E tu vens porque quer. Não tem essa de exigência, não.
– É um direito adquirido, meu docinho. Venho aqui há cinco anos e sempre há três ou quatro posts novinhos por semana.
– Depois de cinco anos, o único direito que te dou é o de me criticar, e já é muito.
– Não seja hipócrita e escreve logo. Eu sei que estás trabalhando muito, mas ontem à noite ouviste quatro, eu disse quatro CDs! Hoje, mandaste um presentinho para tua nora e depois ficaste horas remexendo nos papéis daquele teu processo ridículo de trânsito. Também pesquisaste sobre alguns livros e compositores… Tu andas dispersivo, é isso.
– Dispersivo? Pô, tô trabalhando como um cão. E escrevi umas coisinhas aí, nem lembro mais.
– E passaste o domingo num almoço que durou até as 18h. Ou seja, tu ainda vendes aos outros tua dispersão e preguiça.
– Tá bom, mas estou sem assunto.
– Sem assunto? E aquela história bagaceira que começaste a semana passada e que causou ojeriza às mulheres? Não a mim, claro, mas ao restante das mulheres. Sobre o tal do Conselheiro… Cadê o resto daquele nojo? Por que não publicas? E mais: este livro da argentina está te tomando muito tempo. Vou te tirar ele.
– Vai me tirar… Só estou lendo lentamente. E daí? Alem disso, não vou deixar que uma leitora interfira em minha vida privada.
– Vida privada? Tu? — e riu desbragadamente.
– Não entendi.
– É que és lentinho, bem. Houve também um banho num cachorro.
– Ah, na Juno. Ela estava suja. Se eu não lavo ninguém lava.
– Dar banho no cachorro em vez de produzir! Que decepção!
– Estou começando a me irritar.
– Música, vinho, bichos, amigos, pouca leitura e nada de escrever. Que beleza, hein? Sabes o que a mulher do Richard Strauss gritava para ele todo o dia logo após o café da manhã? Ela ordenava: “Anda Richard, vai compor”.
– Não sou Strauss e a mulher dele era uma prussiana… Minha mulher é uma latina indisciplinada. E tu és uma reles leitora.
– Não, eu sou A Leitora.
– Olha, já que estou aqui tão dispersivo e ocioso, — ironiza o autor — gostaria de te fazer umas críticas.
– Faça, benzinho.
– O problema é que eu não tenho o que fazer contigo. Tu vais a meu blog e me elogias sempre, tu gostas de tudo indistintamente… Não há crítica, é chato.
– Chata? Eu? Eu sou a Leitora Ideal! Sou eu quem te dá toda a força do mundo, quem comenta primeiro.
Faz um beicinho.
– É assim que me retribuis?
– É… –- ele hesita e volta à carga. — É que é chato mesmo. Até para elogiar direito há que ter crítica. Não adianta vir sempre com mesmos adjetivos e adulações. Assim, parece que eu escrevo sempre a mesma coisa.
– Tu estás me rejeitando?
– De certa forma, sim.
– É que eu escrevo o que queres ler. Quando faltam adjetivos laudatórios, eu repito.
– Desculpa, mas tu não me serves para nada.
– Olha que eu vou embora!
– A porta da rua é serventia da casa…
– Tu devias me respeitar.
– Ponha-se daqui para fora. Pancada de amor não dói.
– Outra frase feita? Será que a Leitora Ideal só merece isso? Não mereço mais nada? Tu não gostas quando vês de manhã aquele “1 comentário” sabendo que é um carinho meu a abrir a caixa de comentários para os outros?
– …
– Tu não sentirias minha falta se eu te abandonasse?
– Sim, mas…
– Disse sim! Disse sim! Não quero ouvir mais nada.
E senta-se no colo do blogueiro. Ele nota que ela não tem peso. Nem calor. Recebe um longo beijo, apesar de sua boca estar fechada e de não perceber nenhuma umidade, pressão, nada. Os braços que envolvem seu pescoço não são captados pelo tato. Não há cheiro. É aterrorizante.
– Oh! Agora te deixei no ponto — ela diz, erguendo-se.
Ele não sabe o que dizer. Está pálido.
– Eu quis te dar tua linguagem de volta –- continua a leitora .
– Nem a língua me deste.
– Como? Tu és uma pessoa à procura da linguagem e eu, ao te dar meu beijo seráfico, devolvo-o a ti.
– Coisa sem graça.
– Te enganas.
– Prefiro ser enganado com algum prazer do que receber um beijo sem verdadeiramente senti-lo.
– Viste? Estás no ponto.
– Não me faças rir.
– Falaste em receber meu beijo sem senti-lo de verdade. Isto não é uma definição de linguagem? Voltaste a te ver refletido nela. A possuir uma linguagem, o que significa que podes escrever, expressar qualquer coisa.
– Tu és uma leitora que só me elogia. Pára com essa idiotice.
– E tu és a tua linguagem. Anda, vai escrever!
Ele olha para o monitor branco no micro.
– Eu leio o texto e trato de te refletir.
– Com elogios repetitivos?
– É o que queres.
– Não. Prefiro as críticas, aprendo com elas.
– Bobagem. Eu sei. Só eu sei.
Dito isto, a leitora dirige-se à porta, não sem antes lançar um calculado olhar de despedida ao blogueiro. Ele levanta-se a fim de abrir-lhe, mas ela a atravessa como se não existisse.

julho 16th, 2008 s 7:11
Milton,
uma pena você não ter participado da TERTÚLIA VIRTUAL de ontem. Mas teremos outras, cada dia 15 do mês ( ANOTE NA SUA AGENDA) e sempre com um tema diferente! Blogagem interativa.
Obrigado pelo VARAL. Será poistado e estou certo fará sucesso!
Forte abraço
julho 16th, 2008 s 8:31
Bravo, Milton!
julho 16th, 2008 s 10:16
Li, de um fôlego. Essa leitora ideal que mora em você - e, talvez, em todo aquele que se dispõe a produzir um laivo que seja de linguagem- é prêmio e castigo, adoça e fustiga, quando some a chamamos de volta!
O grande engano ‘dela’ é o que diz: A possuir uma linguagem, o que significa que podes escrever, expressar qualquer coisa. Taí o grande perigo, maior ainda que os elogios: acreditar que as palavras podem dizer tudo, tchê!
Off topic: ainda dá tempo de você vir pra cá, ô moço. Quem sabe sua leitora ideal não ordena isso? Pegue a Madame Antonini, largue tudo e venha buscar inspiração nas Minas Geraes…
julho 16th, 2008 s 11:53
“Taí o grande perigo, maior ainda que os elogios: acreditar que as palavras podem dizer tudo, tchê!”
Porém, porém, porém…, querido Cláudio, foi a partir da elaboração da teoria termodinâmica dos gases ideais que se chegou a compreender melhor os gases reais. Ou seja, a busca de um ideal, que, “tautologiamente” dizendo, nunca pode ser atingido, pode, todavia, com extremo trabalho da razão, modificar uma realidade. Assim, embora irreal, quero cada vez mais dizer tudo pela palavra.
julho 16th, 2008 s 16:02
Fico na dúvida, Cláudio e Ramiro.
O que desejava ter dito é que o blogueiro podia escrever qualquer coisa na tela branca. Talvez tenha utilizado mal o verbo expressar (ou exprimir). Na verdade, não quis dizer que ele podia expressar todas as coisas.
Obrigado pela leitura atenta, meus amigos!
julho 17th, 2008 s 17:20
entendi essa parte, primeiramente, como se falasse da vaidade, ou em escrever gratuitamente… mas valeram as interpretações subseqüentes, ainda mais a conclusão a que chegou Ramiro.
e o teu diálogo (e existe mesmo monólogo?) todo foi primoiroso, milton! e olha q eu não sou o primeiro a comentar.. hehe
péssimo jogo contra o atlético hj!
julho 17th, 2008 s 18:30
Comento rápido mas quero exprimir, mesmo que de “relâmpago”, que fiquei “antonishiado” com este texto, amigo Milton. E humildemente feliz por poder contar com tão esplendoroso escriba. Trabalho, fui.
(agora deu!)
julho 18th, 2008 s 9:55
Rômulo.
Na verdade, minha primeira intenção era uma parábola sobre a vaidade, mas depois inclui outras chaves, pois adoro complicar…
Fico feliz que tenhas reconhecido a origem da historinha.
Abraço.
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Rafa.
Muito obrigado. Não exagere…
Outro abraço.
julho 18th, 2008 s 14:32
Escreva alguma merda para eu poder criticar, oras!
Sensacional
Leitor#9
julho 18th, 2008 s 18:04
Não é nada disso pessoal, ele estava era sentindo falta de mim. Eu é que sou a leitora ideal dele. Mas esse servidor resolveu acabar com minha participação, minha implicância e provocação diária, o nojo declarado quando ele faz m. Aí deu nisso. Pura síndrome de abstinência do tadinho…
Cheguei em décimo lugar hoje, Milton querido. Pode dispensar esse teu espectro fantasioso, que tua leitora ideal está de volta, ao menos enquanto o teu servidor deixar…
E confessa: tua vaidade se alimenta mais de provocações do que de elogios e adjetivos! Entåo se teu objetivo era uma parábola sobre a vaidade, tá aí! pq o texto , no fundo é um auto elogio, que te fez receber novos elegios de teus leitores que - todos - se querem/queremos ideias!
Viu gugala? disfarçadamente, estou criticando!
bjs, flávia (tava com saudade dessa turrma toda!)
julho 18th, 2008 s 20:06
Muito bom; de uma sinceridade e realeza impressionante!
agosto 1st, 2008 s 9:22
A leitora também te comenta? Agora fiquei assustado!