Esta singela improvisação é dedicada ao Dr. CLÁUDIO COSTA

Rene Magritte O Duplo Secreto 1927

O blogueiro senta-se na frente do micro e diz para si mesmo:

– Preciso de um post rápido ou vou requentar algo antigo.
– Não, nada de requentar e rápido eu não quero, tem que ter qualidade — responde a Leitora Ideal.
– Mesmo numa rapidinha há que ter muita atenção. Diria até que uma rapidinha é pura atenção concentrada, pura qualidade, algo tão condensado que nosso pensamento…
– Não me enrola. Para criar qualquer coisa boa, antes tem que refletir um pouco.
– Pára com isso! Como assim? Eu não ganho nada para publicar aqui. E tu vens porque quer. Não tem essa de exigência, não.
– É um direito adquirido, meu docinho. Venho aqui há cinco anos e sempre há três ou quatro posts novinhos por semana.
– Depois de cinco anos, o único direito que te dou é o de me criticar, e já é muito.
– Não seja hipócrita e escreve logo. Eu sei que estás trabalhando muito, mas ontem à noite ouviste quatro, eu disse quatro CDs! Hoje, mandaste um presentinho para tua nora e depois ficaste horas remexendo nos papéis daquele teu processo ridículo de trânsito. Também pesquisaste sobre alguns livros e compositores… Tu andas dispersivo, é isso.
– Dispersivo? Pô, tô trabalhando como um cão. E escrevi umas coisinhas aí, nem lembro mais.
– E passaste o domingo num almoço que durou até as 18h. Ou seja, tu ainda vendes aos outros tua dispersão e preguiça.
– Tá bom, mas estou sem assunto.
– Sem assunto? E aquela história bagaceira que começaste a semana passada e que causou ojeriza às mulheres? Não a mim, claro, mas ao restante das mulheres. Sobre o tal do Conselheiro… Cadê o resto daquele nojo? Por que não publicas? E mais: este livro da argentina está te tomando muito tempo. Vou te tirar ele.
– Vai me tirar… Só estou lendo lentamente. E daí? Alem disso, não vou deixar que uma leitora interfira em minha vida privada.
– Vida privada? Tu? — e riu desbragadamente.
– Não entendi.
– É que és lentinho, bem. Houve também um banho num cachorro.
– Ah, na Juno. Ela estava suja. Se eu não lavo ninguém lava.
– Dar banho no cachorro em vez de produzir! Que decepção!
– Estou começando a me irritar.
– Música, vinho, bichos, amigos, pouca leitura e nada de escrever. Que beleza, hein? Sabes o que a mulher do Richard Strauss gritava para ele todo o dia logo após o café da manhã? Ela ordenava: “Anda Richard, vai compor”.
– Não sou Strauss e a mulher dele era uma prussiana… Minha mulher é uma latina indisciplinada. E tu és uma reles leitora.
– Não, eu sou A Leitora.
– Olha, já que estou aqui tão dispersivo e ocioso, — ironiza o autor — gostaria de te fazer umas críticas.
– Faça, benzinho.
– O problema é que eu não tenho o que fazer contigo. Tu vais a meu blog e me elogias sempre, tu gostas de tudo indistintamente… Não há crítica, é chato.
– Chata? Eu? Eu sou a Leitora Ideal! Sou eu quem te dá toda a força do mundo, quem comenta primeiro.

Faz um beicinho.

– É assim que me retribuis?
– É… –- ele hesita e volta à carga. — É que é chato mesmo. Até para elogiar direito há que ter crítica. Não adianta vir sempre com mesmos adjetivos e adulações. Assim, parece que eu escrevo sempre a mesma coisa.
– Tu estás me rejeitando?
– De certa forma, sim.
– É que eu escrevo o que queres ler. Quando faltam adjetivos laudatórios, eu repito.
– Desculpa, mas tu não me serves para nada.
– Olha que eu vou embora!
– A porta da rua é serventia da casa…
– Tu devias me respeitar.
– Ponha-se daqui para fora. Pancada de amor não dói.
– Outra frase feita? Será que a Leitora Ideal só merece isso? Não mereço mais nada? Tu não gostas quando vês de manhã aquele “1 comentário” sabendo que é um carinho meu a abrir a caixa de comentários para os outros?
– …
– Tu não sentirias minha falta se eu te abandonasse?
– Sim, mas…
– Disse sim! Disse sim! Não quero ouvir mais nada.

E senta-se no colo do blogueiro. Ele nota que ela não tem peso. Nem calor. Recebe um longo beijo, apesar de sua boca estar fechada e de não perceber nenhuma umidade, pressão, nada. Os braços que envolvem seu pescoço não são captados pelo tato. Não há cheiro. É aterrorizante.

– Oh! Agora te deixei no ponto — ela diz, erguendo-se.

Ele não sabe o que dizer. Está pálido.

– Eu quis te dar tua linguagem de volta –- continua a leitora .
– Nem a língua me deste.
– Como? Tu és uma pessoa à procura da linguagem e eu, ao te dar meu beijo seráfico, devolvo-o a ti.
– Coisa sem graça.
– Te enganas.
– Prefiro ser enganado com algum prazer do que receber um beijo sem verdadeiramente senti-lo.
– Viste? Estás no ponto.
– Não me faças rir.
– Falaste em receber meu beijo sem senti-lo de verdade. Isto não é uma definição de linguagem? Voltaste a te ver refletido nela. A possuir uma linguagem, o que significa que podes escrever, expressar qualquer coisa.
– Tu és uma leitora que só me elogia. Pára com essa idiotice.
– E tu és a tua linguagem. Anda, vai escrever!

Ele olha para o monitor branco no micro.

– Eu leio o texto e trato de te refletir.
– Com elogios repetitivos?
– É o que queres.
– Não. Prefiro as críticas, aprendo com elas.
– Bobagem. Eu sei. Só eu sei.

Dito isto, a leitora dirige-se à porta, não sem antes lançar um calculado olhar de despedida ao blogueiro. Ele levanta-se a fim de abrir-lhe, mas ela a atravessa como se não existisse.