Os Incendiários
Alguém comentou numa entrevista — acredito que tenha sido Vitor Ramil — que, na sua casa, pegava-se uma lata de goiabada vazia, levava-se ao banheiro, enchia-se de álcool, riscava-se um pau de fósforo e pronto, tÃnhamos aquecimento para nosso banho. Vitor cresceu em Pelotas, eu em Porto Alegre, somos de mesma geração, ambos de cidades geladas durante o inverno e, bem, o fato é que nossas famÃlias utilizavam o mesmo recurso. Há razões cientÃficas para a escolha da lata de goiabada: ela tem o formato de um disco, sua abertura é maior.
Lembro-me perfeitamente que à s vezes a lata estava meio carcomida, mas que eu, com menos de sete anos, providenciava o álcool, o fósforo e tocava fogo. Muitas vezes havia álcool pelo chão, o qual era esterilizado pelo bonito fogo azul que logo apagava. O mais apavorante é que no canto do banheiro em que eu (e todos nós) fazia (fazÃamos) o foguinho havia toalhas e a porta de saÃda do banheiro. IncrÃvel, as toalhas ficavam aquecidas, mas o espaço entre as lÃnguas de fogo e suas pontas era suficiente para não carbonizá-las. Lembro — vejam só que interessante — que a porta ficava quente… Ou seja, as toalhas poderiam queimar se eu não as levantasse adequadamente, a porta poderia queimar se eu não afastasse direitinho a lata e ainda havia a possibilidade de eu esquecer de trancar a porta e alguém entrar, inevitavelmente dando um peteleco na latinha, que voaria com seu inflamado conteúdo.
A noite passada sonhei que tinha uns 14 anos e entrava no banheiro da casa de meus pais para tomar banho. Estava um frio de matar e resolvi descascar uma na banheira. A masturbação, todos sabem, aquece. Antes, tinha pegado uma garrafa de álcool e posto fogo na latinha rasa. Então minha irmã entrou com tudo no banheiro jogando o aparato pelos ares. As paredes do banheiro ficaram cheias de gotas de fogo, o chão era puro fogo azul e ela começou a resolver a coisa tirando um cesto de madeira cheio de roupas que havia em nosso apartamento (o tal cesto era uma coisa verdadeiramente medonha, provavelmente obra de meu avô). É natural que uma mulher, em meio a uma catástrofe que poderia explodir o edifÃcio, pense primeiramente em salvar as roupas. Eu fiquei protegido dentro da banheira, puto comigo mesmo por ter não ter trancado a porta, escondendo meu pau duro atrás da cortina, enquanto via a porta pegar fogo e a empregada berrar “tô sentindo um cheiro de queimado; o que vocês estão aprontando?”.
Acordei rindo, o incêndio de meu sonho era perfeitamente controlável e estava fascinado por ter me lembrado do tal cesto onde jogava minhas roupas cheias do barro esportivo das praças que nos cercavam. Fiquei imaginando se deixaria algum de meus filhos fazer um incêndio controlado no banheiro. Nunca! Tenho certeza que se matariam! Eu sei que muitas vezes tocava fogo na lata com as mãos molhadas de álcool e, se elas pegavam fogo, eu as abanava e fim. Só tirava a roupa depois, com o ambiente aquecido. Enquanto isso, ficava sentado na privada fechada, aguardando o calor tomar conta do aposento. É que os chuveiros elétricos daquela época eram uma porcaria; hoje eu tomo um banho-maria, porém, em minha adolescência tinha que ficar bem embaixo das gotas mais quentes, senão morria de frio. Isso depois de provocar um incêndio e de me masturbar, claro. Só aos 20 anos mudamo-nos para uma casa com uma coisa maravilhosa: um aquecedor à gás.
Minha mãe chamava-me de incendiário por gostar de brincar com velas. Até hoje gosto de acender lareiras e churrasqueiras. Explosão e fogo é comigo, mas é tudo controlado… Ainda bem que acabou aquela frescura de álcool em gel. O lÃquido é muito melhor. Não é, Ira?
Durante esta segunda-feira, perguntei a várias pessoas se suas famÃlias faziam o mesmo. Todas riam de minhas lembranças. Cheguei à conclusão que isso era comum, principalmente no interior do estado — minha mãe é de Cruz Alta. Imaginem o número de incêndios e de gente que saiu correndo nu de um banheiro em chamas em nossa provÃncia. Não adianta, o inverno sempre foi mais divertido que o verão.

julho 29th, 2008 às 10:55
Milton, eu lembro bem das tais de espiriteiras a alcool. Mas não lembro delas esquentarem muito. Aliviavam um pouquinho o frio, mas nada adiantava contra aqueles malditos chuveiros elétricos. Quando meu pai colocou um chuveiro a gás em casa foi como a descoberta do fogo. O inverno passou a ser mais suportável. Odeio inverno.
julho 29th, 2008 às 11:04
Dario, não chamaria de espiriteira uma lata de goiabada… E, puxa, aqueciam sim. O problema era o chuveiro.
julho 29th, 2008 às 11:21
Milton, dei risada com a história e com o sonho. te digo que lá em casa a técnica (do álcool, não da bronha) também era utilizada, embora não numa lata de goiabada. as porções eram bem menores, e às vezes não duravam um banho inteiro. tenho a impressão de que se usava uma tampa de vidro de conserva, mas isso não faz muito sentido - então não deve ser. vou perguntar pra mãe uma hora dessas.
eu adorava transbordar o álcool pra ver o rastro no azulejo. piromanÃacos…
em tempo: os chuveiros elétricos continuam sendo uma porcaria. ou pelo menos eu não consigo usar o sabor “super mega quente” do meu chuveiro, porque cai o disjuntor lá no quadro geral, no térreo do prédio. pobre, quando não morre na duchinha, morre na fiação. êra.
julho 29th, 2008 às 11:23
minha memória acabou de me entregar o pacote de certo dia - em que coloquei a latinha perto demais da porta. não pegou fogo, mas ficou uma lÃngua preta manchada no revestimento. e fedia, céus como fedia.
julho 29th, 2008 às 11:27
Nós também queimávamos álcool para tomar banho. Era normal até que alguém decidiu que era perigoso. Hoje em dia é perigosÃssimo, e nem é pelo incêndio mas pelo oxigênio. Seria coisa de mãe negligente e assassina…
Assisti um cena espetacular semelhante à do teu sonho, mas era proposital. Foi no cirque du soleil, mas como estava sonolenta e não achei graça nenhuma, não reparei se tinha alguém descascando alguma coisa. Será que perdi a parte pornô do Cirque?
Òòòh!
bj, seu bobo, Flávia
julho 29th, 2008 às 11:35
Tiago, viste a porta do Consulado Italiano? A coisa mais linda. E não fede porque é na rua. Coquetel molotov ou álcool, grande diferença.
Flávia:
“Era normal até que alguém decidiu que era perigoso. Hoje em dia é perigosÃssimo, e nem é pelo incêndio mas pelo oxigênio. Seria coisa de mãe negligente e assassina…”
Eu queria ter escrito desse jeito aquela parte dos meus filhos. Mais simples e bonito.
Droga!
julho 29th, 2008 às 12:08
O texto é ótimo. Adoro o Victor Ramil, talvez mais como figura do que como cantor, talvez mais como gremista do que como figura.
O fato é que esse texto revela 3 coisas:
Primeiro que a figura do “fogo azul” mostra claramente que tu tens remorso de ter mudado de time, culpa de seu (grande) falecido avô. Tenha em mente que os avôs são colorados por natureza própria e os netos devem ser gremistas. Sempre.
Depois, que crianças que brincaram com fogo e se queimaram quando mudaram para aquele time de vermelho, ficam traumatizadas para toda a vida! Uma escolha que acaba com pessoa.
Por fim, e talvez o mais terrivel é que tu é piromanÃaco e que DEUS nos guarde!
T§
PS: Tá bonito esse layout do blog!
julho 29th, 2008 às 12:30
Pois é, Társis. O incrÃvel é que ontem tentava lembrar a palavra piromania e não me vinha. Hoje tu e o Tiago a utlizaram. Era bonito o fogo azul, seu fdp.
:¬)))
julho 29th, 2008 às 12:40
Pavoroso este tal de ‘aquecimento alcoólico’! A narrativa, porém, deliciou-me.
julho 29th, 2008 às 13:20
Dr. Cláudio.
Convido-o para um banho de chuveiro elétrico na campanha gaúcha. Só quero ver onde vai parar esse macheza mineira…
:¬)))
julho 29th, 2008 às 13:26
bela idéia piromanÃaca essa do aquecimento. também vivi no frio, mas não tão frio que precisasse de tais artifÃcios…
julho 29th, 2008 às 14:25
Vou te dar esporro mais vezes! Gostei do elogio com direito a citação do comentário entre aspas! Te respondi longamente “lá”. bj, f
julho 29th, 2008 às 14:36
Milton fiquei lendo os comentários e partes do teu texto e não consegui ir embora. Teu texto é muito evocativo. Me lembrei que esse era um recurso apenas eventual lá em casa. Uma espécie de excesso de amor da minha mãe quando o frio era demais. Tipo: hoje vou ter que queimar álcool. Ao menos nós recebÃamos aquilo como um exagero de amor compreensivo, acolhedor e aquecedor. Eu não me lembro de nada como toalhas quentes ou porta ou paredes quentes. Lembro-me vivamente do cheiro e da temperatura acolhedora e da presença zelosa da mãe. Não era só a beleza azul do fogo, mas toda uma luminosidade e quentura fazia aquele banho diferir dos outros. Boas lembranças! obrigada, amigo. bjs, f
julho 29th, 2008 às 14:44
ah: minha mãe é pelotense…
julho 29th, 2008 às 20:37
Oi, Milton.
Lembranças similares, com uma diferença: sai a lata de goiabada, entra um prato de sopa de alumÃnio, todo amassado, de origem incerta. E o fogo azul me fez lembrar que na época eu vi em Seleções uma matéria intitulada “Bórax - O Fogo Verde que Salva”. Não tenho a menor idéia do que seja.
Abraços.
julho 29th, 2008 às 21:15
Eu de novo, Milton, com a lembrança dois:
A preocupação com o risco de incêndio simplesmente não existia. Ninguém pensava nisso. Mas eu tinha um medo secreto, incompartilhável: temia que o foguinho azul do pratinho consumisse todo o oxigênio do banheiro fechado e eu morresse ali, pelado e molhado.
julho 30th, 2008 às 10:54
Lembrei de outra coisa, quando atingi meu pico masturbatório já tinha chuveiro a gás lá em casa. Bendito conforto …
julho 30th, 2008 às 11:09
Eu diria pica masturbatória…
Um abraço, Luiz! Bórax? Só conheço Borat!
julho 30th, 2008 às 17:02
Depois do último acontecimento (semi-incêndio terça, 29/07) no banheiro da casa da minha mãe…eu to pensando em te contratar para guru…sessões à s segundas-feiras…com previsão p/ a semana…hehe
julho 30th, 2008 às 19:52
Rúbia, guru? Algo tipo o Paulo Coelho do pedaço? Me inclua fora dessa, por favor.
Bj.
agosto 1st, 2008 às 12:12
Milton, lá em casa a gente usava uma bacia de alumÃnio. Também sou do interior, o mais velho de sete irmãos, e o aquecimento servia a vários banhos. Que eram de banheira, pois meu pai era contra chuveiro elétrico (como também era contra fogão a gás). Aquecia-se a água no fogão a lenha e despejava-se na banheira. Prático, né?
Quanto ao teu sonho, desconfio que, como eu, deves ter sido severamente advertido de que a punheta nos levaria direto ao fogo do inferno…
agosto 1st, 2008 às 15:29
Caro Navegador, meus pais me batizaram e tal, mas eram muito pouco religiosos. Eram liberais, graças aos céus.