Vaillant Boy Copying

…foram aqueles em que sua mãe olhou-o com desprezo e repugnância.

No inverno de 1969, Flávio tinha aulas apenas no turno da manhã. Porém, aquele dia, foi ao colégio à tarde jogar futebol com seus colegas. Estavam acertados para às três da tarde, mas, como sempre, alguns chegavam antes, ansiosos pela partida. Dois deles, Flávio e Marcos, vieram logo após o almoço. Flávio fora vestido de calças de brim e não tinha nada nas mãos, enquanto Marcos vinha trazendo uma bolsa onde havia calções, camisetas, meias, sabonete, xampu e pente, tudo organizado por sua mãe que, contrariamente a de Flávio, era uma dona de casa exclusivamente dedicada aos filhos e ao marido.

Começaram a caminhar pelo campo vazio. Marcos perguntou a Flávio se ele iria jogar de calças.

- Sim. Essas calças são velhas mesmo. E, olha, já tem este rasgão no joelho.

Marcos perguntou se ele não queria um de seus calções emprestados.

- Além do mais, tu vai sentir o maior calor jogando de calça. E vai ficar cuidando para não cair, não se sujar, é uma merda.

Como não estavam fazendo nada mesmo, pois o dono da bola ainda não tinha chegado, Flávio concordou. Foram aos vestuários em construção e Marcos emprestou-lhe um de seus calções, vestindo o seu. Naqueles tempos da Revolução de 1964, uma obra para uma escola pública podia ficar anos abandonada, sem maiores reclamações. Era o caso do Colégio Júlio de Castilhos. Trocaram-se, mijaram nas paredes do vestuário às escuras, sentaram-se no chão para recolococar os tênis e voltaram lentamente para o campo, onde já havia mais alguns jogadores. O calção de Marcos ficou grande em Flávio, mas assim era até melhor para correr.

Flávio voltou cedo para casa. Seus pais, quando retornaram do trabalho, encontraram-no na frente da televisão, vendo Thunderbirds, de banho tomado. Jantaram às 19h e ficaram vendo o Jornal Nacional. Quando, à noite, Flávio estudava em seu quarto, sua mãe entrou.

- Flávio, preciso que tu me expliques uma coisa.
- O quê?
- Eu quero que me digas neste exato momento de quem é esta cueca.
- Como assim?
- Esta cueca não é tua nem do teu pai. Como é que ela apareceu na roupa para lavar?

Flávio começou a ficar vermelho e gaguejou um

- eu não sei de quem é, mãe.
- E onde está a cueca que usaste hoje?
- Deve estar na roupa suja.

Na verdade, costumava contornar as dificuldades com seus pais através de pequenas mentiras, mas logo notara - pelo olhar de sua mãe - que estava indo por um caminho perigoso. Decidiu que teria de agir com naturalidade e estava se debruçando novamente sobre seu caderno quando sua mãe começou a gritar.

- Flávio! A tua cueca não está na roupa suja. Quem está é esta aqui que não é tua! De quem é?

Flávio estava dando de ombros quando sua mãe de novo trovejou.

- Então tu me aparece em casa com a cueca de sei lá quem e pensa que isto vai ficar assim? E esta coisa é usada e é grande, maior que o teu tamanho! De quem é?
- Mãe, eu juro que não sei. Deve ser de algum vizinho. Pode ter caído na área de serviço, sei lá.
- De algum vizinho… Tá bom, vou falar com teu pai. Fique sabendo que isso não vai ficar assim.

Nos dias seguintes, Flávio foi à aula cabisbaixo. Estava decidido que ele não podia mais sair de casa, a não ser para ir à escola. Sua rotina fora resumida a ir de sua casa para o colégio e do colégio para casa, sempre acompanhado por sua irmã mais velha, que abandonava-o uma quadra antes de chegarem. Ela não queria ser vista como babá de um irmão de 13 anos. Flávio ficava aliviado por livrar-se de mais este rídiculo. Não disse nada a Marcos e explicou aos colegas que não poderia mais sair à tarde para jogar bola, que estava de castigo por ter brigado em casa.

Marcos não parecia ter visto relação entre a “briga em casa” e a troca das cuecas. Disse-lhe que jogara fora a cueca do amigo. Mentira para sua mãe que sua cueca rasgara-se.

- Já imaginou o problema, meu?

Do que Flávio jamais esqueceu foi da cara de sua mãe. A pasta de repugnância, incompreensão, aversão e desgosto que era-lhe servida diariamente impelia-o a fazer simulacros de virilidade que só complicavam ainda mais as coisas.