Porque hoje é sábado, Carla Bruni

A nova primeira dama da República Francesa, Carla Bruni, ou Bruni-Sarkozy, como quer ser chamada…

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… faz-me pensar a obviedade de que o poder pode abrir canais à bala em nosso corpo,

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mas que a beleza pode abrir oportunidades e canais competentes - além de outras coisas, por supuesto.

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A belíssima ex-modelo, chegando perto dos 40, escolheu primeiro ser cantora, …

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… não sei se tentou a típica carreira de atriz, …

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… mas acabou, exatamente aos 40, mantendo-se na mídia graças ao súbito amor por Sarkozy, …

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… também conhecido por Pinocchio na imprensa francesa (por ser baixinho, narigudo e mentiroso)..

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Ele é mais baixo que a nova primeira-dama, o que a faz abdicar dos saltos altos, hoje utilizados discretamente pelo presidente.

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Antes de trocar o gatinho pelo bonequinho narigudo de madeira, …

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… Carla deu uma moralizada geral em seu diminuto guarda-roupa; hoje, …

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… quando tira uma roupa, aparece outra embaixo; …

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; representa a França entre príncipes; e anda …

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… sempre vestidinha convencionalmente. Enquanto isso, Sarkozy comemora a bela conquista, …

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… anunciando que mandará tropas ao Afeganistão. Oxalá os talibãs não vejam as antigas fotos desta infiel.

A Confissão de Sexy Hot

Digamos que o Grêmio superou em muito as expectativas coloradas. Acostumamo-nos a nos divertir com os desempenhos pungentes e dolorosos do tricolor, mas nunca, nem em nossos mais loucos desejos, aspiramos a que ele saísse de cena. E agora? Neste mundo politicamente correto, vamos zombar e nos distrair com quem nos próximos trinta dias?

Aproveito para lhes deixar aqui uma informação de cocheira, ou melhor, de academia. O treinador do Grêmio, Celso Roth – também conhecido como Sexy Hot em algumas rodas – é ou era meu colega na academia Sal da Terra, que ostenta sua bicho-grilice há vinte anos na Av. José de Alencar, em Porto Alegre. Digo “era” porque não o vi mais depois que assumiu o imortal fardo. Pois, pasmem vocês… Não deixem-me antes abrir novo parágrafo.

Pronto. Pois pasmem que Sexy Hot, três dias antes de ser entronizado como técnico da equipe banana, disse informalmente a mim entre um supino e uma flexão plantar:

- Ou o Grêmio contrata cinco bons jogadores ou não chega nem à final do campeonato gaúcho. Cinco, não menos.

Não contratou ninguém e, quando vi que não chegou nem às semifinais e que as oitavas-de-final da Copa do Brasil passaram igualmente ao largo do Estádio Olímpico (*), pensei:

- Puxa, então ele não se enganou com aqueles 19 jogos de invencibilidade. Esse conhece!

Desculpe, Hot. Nunca seja tão franco próximo a um blogueiro. Somos pouco confiáveis.

P.S.- A propósito, quando foram as Olimpíadas de Porto Alegre?

Balzaquianas e Kafkianos

A Mulher de 30 Anos é um dos piores livros de Honoré de Balzac. Certamente, é o pior que li. Logo ele, um minucioso criador de personagens e tramas, escreveu um história frouxa, desarticulada e meio sem pé nem cabeça. Devia estar apressado e premido por dívidas, o que freqüentemente lhe acontecia. Poderia citar uma dúzia de excelentes romances perfeitos de Balzac, mas este é de matar. Apesar disto, seu belo título inspirou-nos a criar o termo “balzaquiana” no Brasil. Esta palavra, que só existe em nosso país, serve para caracterizar as mulheres na faixa dos 30 anos, como no título da obra. Na época de Balzac e mesmo depois, a idade de 30 anos era um turning point decisivo para as mulheres: ou estavam caindo fora do mercado casamenteiro para tornarem-se tias - tolerados fracassos sociais, bem entendido - ou, se estivessem vivendo casamentos infelizes, estavam perplexas ante o irremediável, como a personagem de Balzac. Isto excita nossa imaginação, mas…

Dos 17 volumes das obras de Balzac editadas e reeditadas pela Globo (com traduções impecáveis de gente como Mário Quintana, Paulo Rónai, etc.), li uns 12. Posso dizer que as balzaquianas são a exceção da obra de Balzac. As balzaquianas típicas são as jovenzinhas e as tias velhas, nunca as mulheres de 30 anos. Nossa confusão criou uma expressão culta e… equivocada, pura fantasia sobre o nome de um livro. O autor não deu maior atenção aos problemas das trintonas.

Porém, além das mulheres balzaquianas, existem as situações kafkianas… e este é um equívoco mundial. Cada vez que alguém está numa situação que julga incomprensível, passa a vivenciar uma “situação kafkiana”. Concordo que pequena parte da obra de Kafka seja dedicada a problemas de natureza incompreensível e insolúvel, mas e o resto? O fato literário mais típico e perturbador da obra de Kafka é a revolucionária e insistente utilização da parábola. Esta sim é kafkiana. Segundo o dicionário Aurélio, um dos significados da palavra parábola é o de ser uma “Narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior”. Não é a descrição perfeita de um Franz Kafka menos kafkiano, assim dizer?

Os piores dias da adolescência de Flávio…

Vaillant Boy Copying

…foram aqueles em que sua mãe olhou-o com desprezo e repugnância.

No inverno de 1969, Flávio tinha aulas apenas no turno da manhã. Porém, aquele dia, foi ao colégio à tarde jogar futebol com seus colegas. Estavam acertados para às três da tarde, mas, como sempre, alguns chegavam antes, ansiosos pela partida. Dois deles, Flávio e Marcos, vieram logo após o almoço. Flávio fora vestido de calças de brim e não tinha nada nas mãos, enquanto Marcos vinha trazendo uma bolsa onde havia calções, camisetas, meias, sabonete, xampu e pente, tudo organizado por sua mãe que, contrariamente a de Flávio, era uma dona de casa exclusivamente dedicada aos filhos e ao marido.

Começaram a caminhar pelo campo vazio. Marcos perguntou a Flávio se ele iria jogar de calças.

- Sim. Essas calças são velhas mesmo. E, olha, já tem este rasgão no joelho.

Marcos perguntou se ele não queria um de seus calções emprestados.

- Além do mais, tu vai sentir o maior calor jogando de calça. E vai ficar cuidando para não cair, não se sujar, é uma merda.

Como não estavam fazendo nada mesmo, pois o dono da bola ainda não tinha chegado, Flávio concordou. Foram aos vestuários em construção e Marcos emprestou-lhe um de seus calções, vestindo o seu. Naqueles tempos da Revolução de 1964, uma obra para uma escola pública podia ficar anos abandonada, sem maiores reclamações. Era o caso do Colégio Júlio de Castilhos. Trocaram-se, mijaram nas paredes do vestuário às escuras, sentaram-se no chão para recolococar os tênis e voltaram lentamente para o campo, onde já havia mais alguns jogadores. O calção de Marcos ficou grande em Flávio, mas assim era até melhor para correr.

Flávio voltou cedo para casa. Seus pais, quando retornaram do trabalho, encontraram-no na frente da televisão, vendo Thunderbirds, de banho tomado. Jantaram às 19h e ficaram vendo o Jornal Nacional. Quando, à noite, Flávio estudava em seu quarto, sua mãe entrou.

- Flávio, preciso que tu me expliques uma coisa.
- O quê?
- Eu quero que me digas neste exato momento de quem é esta cueca.
- Como assim?
- Esta cueca não é tua nem do teu pai. Como é que ela apareceu na roupa para lavar?

Flávio começou a ficar vermelho e gaguejou um

- eu não sei de quem é, mãe.
- E onde está a cueca que usaste hoje?
- Deve estar na roupa suja.

Na verdade, costumava contornar as dificuldades com seus pais através de pequenas mentiras, mas logo notara - pelo olhar de sua mãe - que estava indo por um caminho perigoso. Decidiu que teria de agir com naturalidade e estava se debruçando novamente sobre seu caderno quando sua mãe começou a gritar.

- Flávio! A tua cueca não está na roupa suja. Quem está é esta aqui que não é tua! De quem é?

Flávio estava dando de ombros quando sua mãe de novo trovejou.

- Então tu me aparece em casa com a cueca de sei lá quem e pensa que isto vai ficar assim? E esta coisa é usada e é grande, maior que o teu tamanho! De quem é?
- Mãe, eu juro que não sei. Deve ser de algum vizinho. Pode ter caído na área de serviço, sei lá.
- De algum vizinho… Tá bom, vou falar com teu pai. Fique sabendo que isso não vai ficar assim.

Nos dias seguintes, Flávio foi à aula cabisbaixo. Estava decidido que ele não podia mais sair de casa, a não ser para ir à escola. Sua rotina fora resumida a ir de sua casa para o colégio e do colégio para casa, sempre acompanhado por sua irmã mais velha, que abandonava-o uma quadra antes de chegarem. Ela não queria ser vista como babá de um irmão de 13 anos. Flávio ficava aliviado por livrar-se de mais este rídiculo. Não disse nada a Marcos e explicou aos colegas que não poderia mais sair à tarde para jogar bola, que estava de castigo por ter brigado em casa.

Marcos não parecia ter visto relação entre a “briga em casa” e a troca das cuecas. Disse-lhe que jogara fora a cueca do amigo. Mentira para sua mãe que sua cueca rasgara-se.

- Já imaginou o problema, meu?

Do que Flávio jamais esqueceu foi da cara de sua mãe. A pasta de repugnância, incompreensão, aversão e desgosto que era-lhe servida diariamente impelia-o a fazer simulacros de virilidade que só complicavam ainda mais as coisas.

O Caso Sampallo - A Sentença

Conforme estava marcado, saiu dia 4 o resultado da Justiça argentina:

El tribunal condenó a Osvaldo Rivas a 8 años de prisión, a María Cristina Gómez a 7 años de prisión y al Ex militar José Berthier a 10 años de prisión. A los tres se los responsabiliza del ocultamiento y apropiación de María Eugenia Sampallo Barragán, pero a los dos últimos se los absolvió del cargo de falsificación de documento público; sólo Rivas quedó condenado por esos cargos.

El próximo viernes se leerán los fundamentos de la condena, donde podremos comprender la desición del tribunal que, condenó a 10 años al entregador, y dio a los apropiadores una pena menor que la que se conoció en el último juicio de estas características, donde los apropiadores de Claudia Victoria Poblete recibiron: uno 8 años, y otro casi 8 años de prisión.

(Retirado daqui, com correções)

María Eugenia soube, após exame de DNA realizado em 2001, quando foi localizada pelas Avós da Praça de Maio, que era filha de Mirta Barragán e Leonardo Sampallo, seqüestrados em dezembro de 1977 pela ditadura argentina. Mirta foi seqüestrada grávida e, no mês de fevereiro do ano seguinte, deu à luz na prisão. Em maio do mesmo ano, a menina foi entregue por Berthier ao casal que a criaria. Já os pais biológicos estão desaparecidos até hoje.

“Eles não são meus pais. São meus seqüestradores. Não tenho nenhum tipo de ligação emocional com eles”, disse Sampallo. “Estes são meus pais”, completou, emocionada, segurando uma foto dos desaparecidos.

Caso Sampallo Barragan

Ela declarou-se satisfeita com a decisão, mas decepcionada com o tempo de detenção. Seu advogado pensa em recorrer, intenção não confirmada por María Eugenia Sampallo Barragán.

P.S.- Se você nem imagina a que fato refere-se este post, leia aqui.

A Derrota Mais Inacreditável

35553Vamos falar sério. Vi o final do primeiro tempo e todo o segundo. O Grêmio tinha tanta certeza da vitória que entrou negligente em campo. Era uma formalidade, apenas, e o tricolor só acordou quando já perdia por 3 x 0. Aliás, todos pensavam que era uma formalidade, principalmente nós, colorados. Eu nem ia ver o jogo, estava desinteressado e só passei a arrastar o olho para a TV quando vi que tinha potencial dramático.

Esses jogos são curiosos. Começam melancólicos, devagar; de repente, o mais fraco vê que pode dar uma pedradas e o mais forte está tão anestesiado que custa a reagir. O Grêmio há anos forma times modestos. Mas sua superioridade sobre o Juventude é indiscutível. Com oito homens, tomando 3 x 0, foi até o 3 x 2. Gostei de sua eliminação, claro, mas não foi perfeito. Perfeito seria se o dirigente mais truculento e bronco do sul do país, Paulo Pelaipe, e o jogador mais maldoso do Brasil, Eduardo Costa, fossem empurrados um pouco mais para o canto.

Porém, eles permanecerão e quem fica na marca do pênalti é quem chegou há 50 dias e não contratou ninguém: o “simpático” Celso Roth, que está rico com as múltiplas demissões que sofre…

Porque hoje é sábado, Ava Gardner

O que levou Ava Gardner a visitar Cuba tantas vezes após a Revolução?

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Ava Lavinia Gardner nasceu em em 24 de dezembro de 1922. Foi o mais belo presente de Natal recebido pela humanidade.

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Jean Cocteau escreveu que ela era o “mais belo animal do mundo”. Não surpreende.

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O número de fotos que tem com diferentes homens demonstra que ela gostava muito de nós.

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Gostava tanto que casou-se com Mickey Rooney, Artie Shaw e Frank Sinatra. Os dois primeiros demonstram que ela poderia ter casado até com você, cético leitor.

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O terceiro casamento é explicado pela voz de Sinatra. Ninguém poderia competir com ele ao pedir um copo d`água em som estéreo digital.

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Todos os casamentos foram curtos, claro. Havia um séquito de homens - todos tão gentis - atrás de Ava e…

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… ela, como bom vulcão, não negava fogo nem a Fidel. Hã? Pois é.

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Se sua melhor virtude não era interpretar, ela chegou a surpreender em alguns filmes como Mogambo (1953), de John Ford, A Condessa Descalça (1954), de Joseph L. Mankiewicz, …

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… O Barco das Ilusões (1951), de George Sidney, e Os Assassinos (1946). Assim como Gene Tierney e Kim Novak, integrava um grupo de atrizes que possuíam um charme…

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…tão natural que pouco precisavam fazer.

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É, em minha opinião, a segunda mulher mais bela do cinema. Perderia por detalhe…

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… para Ingrid Bergman, mas admito mudar de opinião a qualquer momento.

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Afinal, gosto tanto das mulheres que, na presença de Ava, não lhe negaria a primazia.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=GvfqP5Ak_Ec&eurl=http://nothingandall.blogspot.com/2006/12/ava-gardner.html[/youtube]

Acima, a deusa se mexendo. Você não se apaixonaria em, digamos, três segundos? E a questão cubana? Alguém aí me explica?

99 anos hoje

Ao Daniel, ao Douglas e ao J.R.,
um post escrito rapidamente porém de forma emocionada.

Não tive a menor chance. Meu pai e meu primo João Reinaldo não deixaram espaço para dúvidas ou negociação: eu seria colorado e ponto final. Meu primeiro jogo foi ironicamente no Estádio Olímpico - assim batizado certamente em honra às Olimpíadas de Porto Alegre -, um Inter 1 x 0 São Paulo pelo Robertão de 1967, gol de Lambari. Não pensem que não lembro do gol. Como todo torcedor de futebol tenho um imenso acervo de gols na memória e lembro sim. Meus primeiros anos foram complicados, o Grêmio foi heptacampeão gaúcho entre 1962 e 1968 e, no colégio, havia enorme pressão para que eu mudasse de time, mas eu temia ser desprezado por minha família se mudasse e aquele primeiro jogo, aquele primeiro gol, foi fundamental para que meu amor ficasse definitivamente com o time de camisas vermelhas que chegou a dois vices no Robertão, mas que parecia ser incapaz de enfrentar o Grêmio. O primeiro gol que comemoramos é como o primeiro sutiã da propaganda. É tão inesquecível que, depois dele, não se muda mais.

Em 1969, houve a inauguração do Beira-Rio; eu tinha 11 anos e meu pai repetia que, com o dinheiro do clube sendo revertido agora para o futebol, nós patrolaríamos o Grêmio. Mas o que tinha o dinheiro a ver com o futebol?, pensava eu. Fui na célebre inauguração do estádio, vi o gol de Claudiomiro contra o Benfica e não entendi nada quando Gainete deixou a falta batida por Eusébio entrar em nosso gol (Gainete alegou que era falta de dois toques e deixou a bola entrar quando poderia tê-la agarrado facilmente. O juiz deu o gol. Minutos depois, Gílson Porto livrou a cara de nosso goleiro.) Durante o mesmo “Festival” de inauguração - havia datas livres naquela época - vi o famoso Grenal da Pauleira: um zero a zero muito promissor para quem perdia sempre. O Grêmio foi amassado, mas era ainda um grande time e evitou a derrota. Ao final, 21 jogadores brigaram a socos e pontapés. As emissoras de TV passaram centenas de vezes os lamentáveis acontecimentos e comecei a desconfiar que jornalistas gostavam de coisas lamentáveis. Só Dorinho ficou de fora, olhando. Fiquei com raiva dele, tinha que ter brigado em vez de dar uma de bom moço! Urruzmendi e Gainete bateram nos gremistas de uma maneira que comprovava o fato de estarem no esporte errado. As televisões repetiam e repetiam especialmente uma voadora de Gainete, depois víamos os jornalistas balançarem negativamente a cabeça, afirmando que aquilo era uma selvageria e víamos as agressões mais trinta vezes durante os debates. No mesmo 1969, fomos campeões gaúchos. No Grenal decisivo, minha mãe (!) foi conosco e, quando não encontrava a bola em campo, procurava-a temerosa dentro de nosso gol. Tomava sustos. Resultado: 0 x 0 quando o Grêmio precisava vencer. Fomos finalmente campeões, coisa que repetiríamos até 1976, quando Figueroa e Minelli abandonaram o time. Mas antes, em 1975 e 76, fomos campeões brasileiros e vi o maior time do Inter jogar semanalmente. O campeonato gaúcho de 1974 foi algo nunca visto: um enorme campeonato em que ganhamos todos os jogos. Devia ser desanimador ou monótono para os adversários, mas nós achávamos normal. Em 1979, fomos novamente irrepetíveis ao vencer um Brasileiro de forma invicta.

Não vou escrever sobre as glórias do Inter até porque estou chegando ao grave período conhecido por Império Otomano, onde certamente o clube enriqueceu muita gente que pouco tinha a ver com futebol e porque o Grêmio virou o jogo e a coisa ficou sem graça. É incrível como me torno indiferente e intelectual nestes períodos; leio muito e consigo autenticamente ficar alheio. Quando o time melhora, coisa estranha, meu interesse recrudesce.

No centenário, gostaria de escrever uma série sobre a história do Inter, mas, para não fazer apenas imitação do Idelber, desejaria escrever sobre a enorme sedução que meu time exerce sobre mim, sobre o tempo que perdi-ganhei com ele, sobre o amor-desamor que me liga-desliga de meu clube de eleição (eleição, João Reinaldo?). Vou ao Beira-Rio 30 vezes ao ano, sei que os gremistas são meros equivocados, que nos divertimos muito mais e tenho absolutíssima razão ao dizer - muito antes que o Cacalo ficasse repetindo minha frase em programas de rádio - que o futebol é a mais importante das coisas desimportantes, que o futebol pode ser encarado como metáfora e representação da vida e como tal é uma arte que pode ser amada ou desprezada como alguns desprezam o teatro, por exemplo.

Eu estava preparando o final do post, mas lembrei da pergunta que um jovem, Daniel Cassol, do Impedimento, fez-me certamente em honra à minha idade: como foi ver o gol de Falcão contra o Atlético-MG nas semifinais de 1976?

Daniel, foi assim, exatamente assim:

“Estava no Beira-rio. O Atlético triturou nosso supertime da época no primeiro tempo. Não tivemos a menor chance e o 0 x 1 fora saudado como um bom negócio. Paulo Isidoro detonava nossa defesa. Só que o segundo tempo mostrou como um jogo pode mudar totalmente. O Inter passou a pressionar o Atlético de tal forma que era impossível que nosso gol não acontecesse. Só que ninguém avisou Ortiz - goleiro do Atlético-MG - desta impossibilidade. Aquele argentino não apenas pegava tudo, como atirava-se ao gramado, vítima de crudelíssimas e imaginárias lesões, que ocorriam a cada toque do adversário em sua delicadíssima constituição ou a cada momento em que era atingido pela brisa. O ódio que senti daquele argentino certamente deixou-me seqüelas irrecuperáveis que se estenderam por toda minha vida futebolística… O final da partida aproximava-se e Ortiz negava-se a admitir que os gols deviam acontecer. Chegamos então àquele momento em que, se a coisa não vai por bem, vai por mal. Batista arriscou um chute violentíssimo de longe, logo ele que era péssimo nisto, e acertou o ângulo de Ortiz. Gol. Foi uma vibração com som diferente, pois ao mesmo tempo em que comemorávamos, dizíamos horrores ao goleiro adversário. 1 x 1. Foi então que a magia tomou conta do estádio. Não há explicação para aquele gol. Quem viu o gol de Falcão, aos 45 minutos do segundo tempo, sabe: foi magia pura. A bola saiu do pé de Figueroa para Dario. Desde Figueroa, a bola não mais tocou o chão até bater no joelho de Ortiz e ir para as redes. Do pé direito de Dario, foi para a cabeça de Escurinho, da de Escurinho para Falcão e da de Falcão de volta a Escurinho. Então, o negão viu que Falcão entrava no meio da zaga atleticana para receber a bola de volta e fez o passe. Tudo de cabeça. Então a magia desfez-se mas, como todos estavam abobalhados vendo aquilo, o gol saiu assim mesmo. Falcão errou o chute, apenas raspou na bola. Só que Ortiz, hipnotizado por aquela bola que nunca tocava o chão, deixou-a bater em seu joelho e entrar. Não foi um frango, mas era um chute defensável. Luís Artime, grande artilheiro argentino, ensinava: 30% dos gols saem por “erro” do atacante… Foi o caso. Falcão enganou involuntariamente o odioso Ortiz.

“Quando Falcão marcou este gol - o mais bonito que vi em estádio até hoje -, eu não soube como comemorar. Não era gol para pular, pois não se pula, nem se soqueia o ar e grita na frente de um quadro de Vermeer. Desci uns três degraus das arquibancadas das sociais, subi de volta a meu lugar e sentei. Lembro que pensei, enquanto era quase pisoteado pelo resto da torcida: eu nunca mais vou esquecer este gol. Era tudo - emoção, estética, felicidade oceânica, adrenalina e surpresa pela vitória inesperada àquela altura -, foi tudo. E quem pulava a meu lado e me procurava para um abraço enquanto quase me pisoteava? Meu pai, é claro.”

E aqui, o gol:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=ksbCX0Jh5nc&feature=related[/youtube]

Agora, para finalizar, leiam este comentário de um atleticano, escrito em 17/05/2005:

Amigo Milton:

Realmente um dia teremos que reunir-nos para recordar juntos. Tenho memórias dos dois jogos, apesar de ser 11 anos mais novo que você.

Na final de 1975, eu ainda não tinha preferência clubística, mas lembro-me muito bem de ter os olhos na televisão, fixos, angustiado porque era o dia da formatura no pré-primário e eu era o orador da turma! Tive que sair de casa antes do gol de Figueroa, xingando, amaldiçoando os rituais. Desde então formei-me no primário, ginásio, 2o grau, licenciatura, mestrado e doutorado mas com muito orgulho nunca mais pisei numa formatura. Se há uma formatura à qual eu deva comparecer, faço questão de procurar um estádio de futebol, em memória de Manga, Figueroa e daquele primeiro inesquecível título.

De 1976, nem falar. Já atleticano, vivê-lo foi de partir o coração. Aquela tabelinha de cabeça foi uma das coisas mais inacreditáveis que já vi no futebol. Quando lembramos que aconteceu aos 44 do 2o de uma semifinal empatada, realmente dá para se ter uma idéia do que representou.

Belas, belas lembranças.

Alucinações Musicais, de Oliver Sacks

Alucinacoes Musicais Oliver SacksLamentei ter chegado à última página de Alucinações Musicais, do neurologista Oliver Sacks. O título que a Companhia das Letras deu para a edição brasileira não faz jus ao original Musicophilia – Tales of music and brain, até porque as tais alucinações musicais é apenas um dos temas de um livro rico em informações, ao menos para mim.

Os primeiros capítulos tratam de coisas muito próximas. Tenho um CD Player na cabeça. Ele nunca me incomodou ou foi hostil comigo, pelo contrário; mas está sempre tocando o que bem entende. Não sei o motivo da invocação da maior parte das músicas que ouço e meus principais companheiros são provavelmente Bach, Brahms, Beethoven, Mahler, Shostakovich e Bruckner. Só que o livro inicia descrevendo situações em que a música - ou pequenos trechos de músicas - está presente de maneira tão peremptória, descontrolada e repetitiva na cabeça de algumas pessoas que torna-se doença. Sempre orgulhei-me de minha jukebox e, dia desses, perdi o pudor. Acabei contando a meu amigo Augusto Maurer, primeiro clarinetista da OSPA e professor na UFRGS, os testes que fiz com ela. Ele ficou surpreso. Disse-lhe que podia tocar em minha cabeça uma sinfonia completa de Bruckner com noções claras do que cada instrumento devia estar fazendo. Algumas vezes, poucas, cronometrei o tempo de execução e cheguei muito próximo aos tempos indicados nos CDs. Tudo começou quando descobri que podia tocar o terceiro movimento do Quarteto Op. 132 de Beethoven de cabo a rabo. Ele é muito complicado e resolvi cronometrar o tempo a fim de conferir se tinha passado por tudo. O CD demorava 15min35 para interpretá-lo, eu, 16min10. Repeti a experiência e voltou a dar mais ou menos o mesmo. Segundo Sacks, não sou louco; conseguir isto não é nada anormal, viram? Alguns conseguem, outros não.

Vocês sabiam que Galileu, por não dispor de relógios confiáveis, marcava o tempo de seus experimentos cantando? Ele confiava mais em seu cantar do que em outros meios para comparar tempos…

São narrados casos semelhantes ao meu, como o do sujeito que não pôs o disco de Mozart para tocar, mas o ouviu… Augusto chama isso de memória de regente; eu, com mais simplicidade, digo que vim com um CD Player pré-instalado. Raramente uma música recusa-se a sair de minha cabeça, fato que ocorre com muitos casos analisados por Sacks. Eu sempre consigo substituí-la por outra, por mais grudenta que seja a que se retira.

Alguns capítulos do livro de Sacks ficam desinteressantes pelo excesso de informação técnica e , infelizmente, não obtive resposta à outra pergunta que gostaria de ver respondida. É fato comprovado que a cegueira faz com que desenvolvamos áreas contíguas do cérebro que nos darão, por exemplo, uma audição melhor. Mas e a cegueira para cores, ou seja, meu daltonismo? Ele tem algo a ver com minha memória musical e a capacidade de me divertir com ela? Sei lá. (Para quem estranhou a expressão “cegueira para cores”, saiba que se trata exatamente disso: o termo “daltonismo” está caindo em desuso entre os médicos. A nova expressão é “Color Blindness”. Isto é, sou cego para algumas cores.)

Mas fui longe demais, voltemos ao livro. Se a primeira parte fala nos “Perseguidos pela Música”, a segunda dedica-se a problemas como a amusia e a anedonia (embotamento e indiferença aos prazeres), a terceira invade a “Memória, o Movimento e a Música” e a quarta e mais importante analisa a “Emoção, a Identidade e a Música”.

No último capítulo há muitas e importantes referências ao Mal de Alzheimer e a todas as doenças parkinsonianas em geral. Sacks explica que aquilo que chamamos de self raramente se esvai. Posso comprovar tal fato em minha mãe que está nas fases finais da doença de Alzheimer. Quando conseguimos motivá-la a manifestar-se, é a mesma pessoa que conheço, apesar de ela não articular mais frases. E junto a este self tão duradouro ficam, curiosamente, as impressões musicais e a respectiva capacidade de apreciação. A maioria dos que sofrem do Mal de Parkinson param ou reduzem seus movimentos se ouvem canções ritmadas e os Alzheimer, apesar de seu embotamento, têm suas emoções tocadas pela música e isto faz com que sintam-se menos sós e tenham momentos de socialização. Muito interessante o fato de que as vítimas de Alzheimer possam cantar, emocionar-se e lembrar letras de músicas facilmente, sendo que um minuto depois não lembram de mais nada, só ficando-lhes a sensação de satisfação e consolo.

O OPS complica a vida dos blogueiros

Obs.: Assunto de Interesse Geral, seja você blogueiro ou não.

O Pensador Selvagem, recentemente adquirido pela Google, criou um novo método de nos avisar quando recebemos comentários em nossos blogs. Nada daqueles contadores e e-mails mal formatados. O novo produto alerta imediatamente o blogueiro da chegada de um comentário, esteja onde ele estiver. É o OPS, a New Comment Arrived! Trata-se de um microrreceptor que é inserido sob nossa pele - Under Your Skin, diz a propaganda, obviamente tendo ao fundo a música de Cole Porter. Quando chega um comentário, o receptor avisa o blogueiro através de uma leve descarga elétrica. Isto na Versão Básica, porque na Versão Plus são oferecidos mais recursos. Além de um exclusivo friso lateral no receptor, podemos configurar o equipamento para interpretar o conteúdo das mensagens. Os primeiros testes foram realizados no Brasil e revelaram-se um sucesso técnico. Junto com a Lulu, o Marconi, o Grijó e o Felipe (o Biajoni queria pôr o aparelho noutra região do corpo e foi rejeitado pelo colegiado de psiquiatras), participei da equipe de testes e hoje possuo um destes aparelhos fixado na axila. No começo, tudo funcionou à perfeição, principalmente porque nós e nossos leitores tínhamos ciclo biológico semelhante. Afinal, morávamos dentro do mesmo fuso horário e normalmente dormíamos e acordávamos aproximadamente juntos. Toda a equipe recebeu a Versão Plus do OPS, a New Comment Arrived! e, quando percebíamos um pequeno choque no sovaco, corríamos ao primeiro local info-incluído e abraçávamos o carinho do comentário simpático ou elogioso. Passamos a denominar este aviso de “choque amigo”. Porém, quando o choque era mais forte e longo, íamos furibundos responder à discordância ou ofensa. Tais descargas eram raras, pois os blogueiros costumam ser de natureza lhana. Os problemas começaram quando os blogueiros portugueses, afetivos e educados mas com fuso horário diferenciado, começaram a nos acordar em circunstâncias extremamente matinais. Isto nos impedia de completar nosso sono adequadamente; porém, como a maioria da equipe de testes era insone por natureza, só o de vida mais rotineira, eu, ficou incomodado. A crise só estourou quando um blogueiro de Goa começou a fazer repetidas visitações, sempre acompanhadas de comentários maldosos. Com seu disparatado horário indiano e suas observações de hostilidade e violência inauditas, sempre escritas num terrível português arrevesado, ele começou a torturar repetidamente toda a equipe de testes. A cada intervenção do homem de Goa, o aparelho fixado sob minha axila aplicava-me contundentes choques, proporcionais ao grau das ofensas presentes no comentário, demonstrando o perfeito funcionamento do OPS, a New Comment Arrived! Creio que vocês possam imaginar o grau de perturbação e os paroxismos de ódio assassino a que cheguei. Mas houve algo pior que fez tudo degringolar: foi o momento em que, avisados pelo homem de Goa, blogueiros dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, também conhecidos como PALOPs, descobriram o teste e começaram a nos dar choques em novos horários. Nosso desespero chegou a tal ponto que, transtornados, perdemos inteiramente a elegância e passamos a atacar os africanos com frases racistas. A combinação entre piadas de português e piadas de negros tornaram a experiência uma letal tour de force do politicamente incorreto. Se acrescentarmos a isto nosso cansaço, vocês podem imaginar o desvario geral. Apesar disto, o OPS confirmou o lançamento do produto e espera que um grande percentual de blogueiros o adote. Uma rede de hospitais psiquiátricos está fazendo a comercialização, instalação e manutenção dos receptores. Os mesmos oferecem, dentro do pacote promocional de lançamento, apoio médico baseado em Florais e Corais de Bach. Maiores detalhes aqui.

[Off Topic]: Meu ex-chefe e algoz, Tiago Casagrande me veio com essa brilhante citação de Thiago Gonçalves:

Os blogs são possibilidades incríveis de subversão da ordem posta. São ferramentas impressionantes na difusão de informações - e, preferencialmente, de conhecimento. Têm a chance de motivar mudanças estruturais em todo o aparato de produção dessas informações. E de fato têm feito isso; não são poucos os exemplos nesse sentido.

Se o que é anárquico, não-hierárquico, fluido, descentralizado, acessível, em suma, livre, ganhar correntes, deixa de ser o que é, e se transforma no que já existe - e não nos ajuda. O que põe as crises existenciais numa perspectiva tão profunda quanto um pires. Aqui, na blogosfera, tudo é possível.

Tem razão o moço.

Choque

Uma bomba!

[Off Topic]: Inter confirma 5 casos de hepatite em seu elenco. Todos os casos são de hepatite tipo “A”; se fosse no Grêmio, duvidaria muito.

Adrem Atup e o Mundo da Razão

Adrem Atup nasceu na Finlândia, em 1958. Seu pai, Neila Atup, era um simpático hippie, um andarilho que se apaixonou pela paisagem do litoral de Parati nos anos 70 e por lá decidiu assentar-se. Extremamente inteligente, Adrem aprendeu no Brasil o sexto idioma de sua vida nômade e ali começou finalmente sua formação regular. Nunca antes tinha freqüentado salas de aulas com a finalidade de receber uma educação formal e, apesar de interessar-se muito mais pela educação cabal que recebia de seu pai e amigos, foi um excelente aluno.

Nem ele nem papai Neila tinham vivências anteriores sob uma ditadura militar, mas, mesmo naquela época, não era muito difícil viver para os obscuros pintores, artesãos, bichos-grilos e assemelhados da cidade histórica. A dupla finlandesa logo confirmou a suspeita de que todas as pessoas decentes eram contra aquilo. Conviviam com artistas de esquerda e comunistas que combatiam os militares discutindo política, bebendo as maravilhosas cachaças de Parati e pintando quadros rústicos. Estaria enganado quem imaginasse um bloco monolítico de oposição, pois eles dividiam-se em infinitesimais tendências, todas com princípios muito claros e impermeáveis a quaisquer influências que as pudessem macular. A inteligência de Adrem, tal como a de seu pai, nunca serviu para o entendimento da política; eram antes dois sonhadores que passavam seus dias pintando quadros para os rarefeitos turistas que vinham à cidade naqueles anos. Vendiam principalmente aquarelas representando a antiga igreja da cidade vista do litoral e pequenos quadros, cartões e broches revolucionários que ostentavam, o mais das vezes, a figura de Che Guevara.

Quando terminou o curso secundário, Adrem prestou vestibular e passou facilmente em Artes Plásticas na USP. Lá, entranhou-se-lhe a certeza de que todas as pessoas confiáveis eram de esquerda e mais, eram atéias. Enquanto se apaixonava pelas milhares de reticências coloridas contidas nos quadros de Seurat, observava vagamente a cena militar e política, o que lhe parecia ser a mesma coisa. Via os eventos e ações governamentais e registrava a presença, lado a lado, de autoridades militares e religiosas dando seu apoio ao governo. Sabia, pois, que aquelas instituições estavam juntas e continuava a ver o mundo como você lê estas palavras, da esquerda para a direita. Aliás, quase todos os artistas e pessoas que admirava eram de esquerda e quem não era tornava-se instaneamente tão deplorável quanto um leproso. O mundo, então, era de fácil interpretação, tal como alguns faroestes: the good and the evil, os bons e os maus, os cronópios e os famas, os legais e os caretas, os da esquerda e os da direita, os intelectuais e os militares, a cultura e a religião, a luz e as trevas.

Então, nos anos 80, o mundo tornou-se mais complexo para o quase-apolítico Adrem. Foi uma enorme euforia e os dois grupos da época de ditadura espraiaram-se num complicado “espectro político”. A esquerda foi invadida pelos cristãos, alguns intelectuais foram para a direita e o mundo começou a dividir-se, segundo Adrem interpretou, em reformistas e continuístas. Ele tentou entender o que aqueles intelectuais viam de sedutor na direita e até procurou observar o mundo por outra perspectiva, mas não gostou do resultado. Assim, permaneceu entrincheirado na sua vaga esquerda artística, humanista e solidária. A nova mania de ver o mundo sob outra ordem, deixou-o viciado em palíndromos, tendo composto alguns muito interessantes, tais como “Ame o Poema”, “Ata-nos, sonata” e “Metáfora, farofa tem”.

Como sói acontecer, o mundo seguiu dando seus giros e Adrem fez-se um respeitado artista gráfico trabalhando em uma agência de publicidade paulista. Casou-se com uma ex-militante comunista, dona de um sobrenome cheio de flores, e tiveram dois filhos. Então, um cristão, amigo seu, tomou a si a missão de convertê-lo. Como conseqüência, ocorreu algo muito natural: mesmo sendo Adrem um ocupado e bem pago artista gráfico, mesmo e apesar disso, ele passou a reservar parte de seu tempo para trabalhar voluntariamente junto a uma associação de caridade que, como sói acontecer, repito, era ligada a uma instituição religiosa. Tinha, pois, contatos semanais com pessoas que achavam incompreensível que alguém tão ético, humano e solidário não fosse cristão, e que falavam a palavra “ateu” como se pronunciassem uma palavra feia, daquelas que as crianças evitam usar perto de seus pais. Ele achava engraçado e não pensava muito no assunto. Um dia, sonhou com uma oração:

Ó Pai, que estás nos céus, colocado lá pela fraqueza, medo, culpa e imaginação de alguns, feito a nossa imagem e portador de nossos defeitos, olha por nós, pobres pecadores, que não usamos teu nome para nada e que vivemos pelo mundo como cães sem dono. Permite que os cães com dono não nos mordam e que a bondade e desespero enviada a ti por eles, retornem na forma de grandes chuvas de bênçãos e não como tens feito ultimamente. Que a beleza de tua figura, formada em cada poro e célula por nosso afeto a nós mesmos e nosso horror ao vazio, possa espalhar-se pelo mundo e transformar-se em vales onde jorrarão o leite e o mel necessários a nutrir teu povo…

Comentou sobre isso com sua mulher que, sendo uma intelectual muito culta politicamente, citou-lhe Marx, Gramsci, Arendt, Adorno, Luckács e outros, procurando explicar-lhe o que estava acontecendo com o mundo - coisas que ele ouvia desatento.

Numa bela manhã de novembro, sua esposa pediu a separação. Em depressão, Adrem despojou-se de todo seu pequeno patrimônio. Surpreendeu-se com a voracidade que a ex-comunista revelou ao procurar assenhorar-se de tudo o que fosse possível, no que ele cedeu. Com a mesma sem-cerimônia com que aplicava Botox em seu rosto, ela procurava cristalizar para si tudo o que pudesse passar perto de ter algum valor monetário. Em contrapartida, o desinteresse de Adrem sobre seu futuro era completo. Após a separação, ela passou a provocar contatos mais longos somente se quisesse examinar mais de perto a possibilidade de ele pagar um pouco mais para ela e o filho.

Sem dúvida, o mundo ficara ainda mais complexo. Havia cristãos amigos procurando salvar-lhe a alma, falando-lhe em conversão e emocionando-o com histórias de perdão de São Francisco de Assis; havia ex-comunistas que podiam ministrar cursos de como ser pragmático, focado e açambarcante num cesto de ofídios; havia um governo de esquerda em quase tudo semelhante ao anterior e havia alguém que girava a uma velocidade inferior à do mundo e que permanecia quieto, observando tudo passivamente, não aderindo a nada e com um pouco de medo.

Obs.: Os palíndromos deste conto são de autoria de César Miranda.

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