O Prêmio Anti-Nobel de 2008

Não, não é brincadeira. Ou melhor, talvez seja, porém o Prêmio Anti-Nobel (também conhecido por Ig Nobel) é dado por instituições sérias, tais como a Universidade de Harvard e outras. A lista completa está aqui, mas traduzo a meu modo e destaco a seguir algumas premiações fundamentais.

Medicina:

O médico norte-americano Dan Ariely publicou um alentado estudo no Journal of American Medical Association provando que a “medicina falsa e cara” funciona melhor que a “medicina falsa e barata”. Prêmio Ig Nobel para ele!

Biologia:

Marie-Christine Cadiergues, Christel Joubert e Michel Franc, da Facultade de Veterinaria de Toulouse, demonstraram, em artígo publicado na Veterinary Parasitology, que as pulgas saltam mais sobre os cães do que sobre os gatos.

Química (prêmio compartilhado):

Os químicos norte-americanos Sheree Umpierre, Joseph Hill e Deborah Anderson, descobriram que a Coca-Cola é um espermicida efetivo. Publicaram sua pesquisa no New England Journal of Medicine.

Enquanto isso, em Taiwan, C.Y. Hong, C.C. Shieh, P. Wu y B.N. Chiang descobriram justamente o contrário em estudo estampado na revista Human Toxicology.

Prêmios Ig Nóbeis para todos.

Porque hoje é sábado, Laetitia Casta

A estupefaciente Laetitia Casta, nasceu em Pont-Audemer no dia 11 de maio de 1978.

É modelo e atriz. Aos quinze anos, um fotógrafo viu-a numa praia da Córsega, …

… deve ter babado mais ou menos como você agora na frente do monitor e a convidou para uma sessão.

Como era francês, as sessões foram de fotos. Após aprovação paterna, Laetitia passou a trabalhar como modelo.

Trabalhou para as lingeries Victoria’s Secret e foi capa da Rolling Stone, Vogue, Elle, …

… Cosmopolitan, Marie Claire, Glamour, Photo, além de rosto da L’Oréal.

O objetivo destes trabalhos foi o de enganar as mulheres normais. Deu certo: …

… elas acharam que, se usassem os produtos da L’Oréal, ficariam parecidas. Compraram tudo.

Hoje, chegando efetivamente ao auge, tem a honra de figurar no Porque hoje é sábado.

Em 1999, Laetitia estreou como atriz no filme Asterix e Obélix contra César, contracenando com Gérard Depardieu.

É que, enjoada de fazer cara de quero sexo nas propagandas de sutiãs, resolver fazer cinema, …

… onde sempre é personagem quaternária de péssima atuações. Porém, quando mostra seus atributos, …

… todos esquecem sua interpretação. Muitos franceses converteram-se ao heterossexualismo no cinema.

Mas há mais um porém que em parte nega o anterior: …

… há duas semanas, Laetitia recebeu o “Swann de Ouro” no Festival de Cinema Romântico de Cabourg, …

…. por sua interpretação no filme Nes en 68, que estréia brevemente.

Veremos como ela se saiu. Claro que veremos. Imagina se não?

Anos atrás, foi escolhida para ser o rosto de Marianne, herdando o titulo de outras beldades como Brigitte Bardot e Catherine Deneuve.

Seu busto foi distribuído por todas as repartições públicas francesas.

E que busto, senhores, que busto! Marianne é o nome dado pelos franceses…

… a sua República, bem como a sua representação simbólica na figura do busto de uma jovem mulher.

Nada contra; feliz do povo que tem como símbolo uma mulher assim.

Em agradecimento, ela trocou Paris por Londres.

(*) Informações recolhidas em várias fontes. A inspiração (?) para o texto veio daqui.

Ingmar Bergman, J. S. Bach e minha separação

Sempre tive desmedida admiração por J. S. Bach e Ingmar Bergman. O que não sabia, até uns anos atrás, era da admiração que Bergman nutria pelo alemão. Nos livros do diretor sueco há muitas referências a Bach e não são observações triviais ou superficialmente admirativas, são observações de conhecedor, de alguém que conhece inclusive o simbolismo que perpassa algumas obras.

Ele diz ter utilizado a música de Bach nas cenas mais importantes de seus filmes ou, pelo menos, naquelas em que achava que a atenção do espectador podia ser dividida com a música. A escolha era quase sempre entre Bach ou o silêncio. No livro “Lanterna Mágica”, ele transcreve uma longa conversa que teve com o ator Erland Josephson. Nela, revela que, nos momentos de maior desespero, costumava contar para si mesmo uma história vivida por Bach.

Johann Sebastian havia feito uma longa viagem de trabalho e ficara dois meses fora. Ao retornar, soube que sua mulher Maria Barbara e dois de seus filhos haviam falecido. Dias depois, profundamente triste, Bach limitou-se a escrever no alto de uma partitura a frase que servia para consolar Bergman: Deus meu, faz com que eu não perca a alegria que há em mim.

Bergman escreve em A Lanterna Mágica:

Eu também tenho vivido toda a minha vida com isto a que Bach chama “a sua alegria”. Ela tem-me ajudado em muitas crises e depressões, tem-me sido tão fiel quanto meu coração. Às vezes é até excessiva, difícil de dominar, mas nunca se mostrou inimiga ou foi destrutiva. Bach chamou de alegria ao seu estado de alma, uma alegria-dádiva de Deus. Deus meu, faz com que eu não perca a alegria que há em mim, repito no meu íntimo.

Eu, o limitado Milton Ribeiro, um dos tantos admiradores de Bergman e de Bach, também fiquei repetindo esta frase por muito tempo. Era um mantra que me emocionava, me acalmava e me fazia pensar que a minha alegria ainda estava ali comigo, tinha de estar. É um grito infantil que reconheço e que não me abandonou.

Insistem em aumentar meu pênis / A bunda feminina

Recebo dezenas de e-mails me oferecendo aumento de pênis. Prometem um incremento de 2,5 a 3 cm. Não entendo porque me mandam estas mensagens. Aposto que vocês estão pensando que minha próxima frase será a habitual confissão masculina: “Sou um cara extremamente bem dotado, dispenso mais 3 cm, coisa para pigmeus ou japoneses”, etc. Não, isto seria propaganda enganosa e não sou adepto das típicas bravatas masculinas, aquelas que garantem, normalmente em ambientes livres de quem já viu, dimensões e freqüências extraordinárias. Acho que sou um ser normal, médio. Minhas proporções nunca receberam aplausos entusiasmados, tampouco vaias ou — pior, muito pior — risadas.

Conversei com um amigo (notem a exatidão das informações aqui veiculadas) que me disse que o tal upgrade é o seguinte: cortam um tendão do homem de forma que, quando presa de ereção, nosso pênis possa sair mais um pouquinho para ver o mundo lá fora. Mas nem tudo são centímetros… Há um porém (ahhh, porém). Em seus momentos, digamos, mais intensos, ele no máximo ficará em posição horizontal. Então, em vez de apontar para os céus em busca de Deus e Redenção, nosso dito cujo apontaria realista e ameaçadoramente para o porvir. Não seria uma elevação, mas sim uma espécie de alongamento horizontal. Talvez só o dono do pênis venha a pensar que houve incremento. Não há vantagem pois, a não ser que o usuário realmente deteste aquelas convulsivas cabeçadas que às vezes levamos na barriga em momentos de maior bulício.

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Preciso voltar a correr. Estou pesado. Lembro que, ano passado, num domingo, acordei às 6h da madrugada a fim de participar da Rústica associada à Maratona de Porto Alegre. Quando cheguei ao local do evento às 6h45, era noite fechada. Pensei que haveria poucos loucos disponíveis para fazer o mesmo. Engano! Havia 2500 malucos por lá.

Correr é perseguir bundas. Imaginem que maravilhoso campo de observação é uma corrida dessas! Há de todos os tamanhos e gêneros, porém as que me interessam são as de um grupo de mais ou menos 33% dos corredores: as mulheres. Algumas são pequenas, bonitas e velozes, somem na paisagem; há as lentas, que são de todos os tamanhos e se aproximam e desaparecem rapidamente do campo de visão; há as estáveis, que ficam algum tempo por perto, oferecendo-se à observação. Outra coisa interessante é que se nota não apenas o formato, mas sua consistência. Não, não dá para tocar, mas com o movimento, podemos facilmente imaginar como o traseiro analisado saberia às nossas mãos.

A que conclusão chego? Primeiramente, uma obviedade: as bundas das corredoras têm bom formato e há para todos os gostos. Porém (ahhh, porém), o mais importante é baixar um pouco os olhos e asseverar o seguinte a todas as minhas amigas: não importa o grau de malhação, a celulite ataca as coxas das corredoras na mesma proporção que ataca as sedentárias. Claro que, nas últimas, a quantidade é maior, mas não pensem que correr torna a mulher livre disso. Melhor relaxar.

Dando por encerrado este Momento Ana Maria Braga, despeço-me.

Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles, ou Como tornar Saramago cinema?

Uma das coisas que mais me irrita é este lugar comum de dizer que “o livro é sempre melhor que o filme”. Dã. É uma burrice completa. Se quem diz isso ao menos soubesse que quase todos os Hitchcocks vieram de romances de segunda linha…

Há histórias filmáveis e outras não. Há livros que são quase roteiros, outros não. Apesar da vasta intersecção, há cordas que podem apenas ser tocadas pelo cinema e outras apenas pelos livros. Há especificidades.

Vou começar pelo livro. Saramago escreve, em média, um bom livro a cada década. Hoje, principalmente no Brasil, estabeleceu-se a regra de falar mal dos livros do único Prêmio Nobel de língua portuguesa. Trata-se do conhecido Complexo de Vira-Latas que acomete Brasil e Portugal — desde sempre para o primeiro e desde que o segundo deixou de ser um grande império colonial… Ganha-se algum destaque e este é sempre falso. Preconceito puro. Saramago não mudou. Segue publicando bastante — não o critico por este motivo — e acerta uma vez a cada dez anos. Sem problemas. É uma média altíssima. Nos últimos dezoito anos, melhorou sua média ao produzir três grandes livros: O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995) e As intermitências da morte (2005). O resto que fez neste período parecem ensaios para os acertos. Nada de anormal nisso.

Surpreendentemente, pego-me pensando em outro fato: a separação dos Beatles. Este foi um acontecimento mundial. Em 1970, estavam juntos e eram brilhantes. Em 1971, eram todos famosíssimos e médios… Rafael Galvão, num post antológico que não consegui localizar (upgrade: que o Rafael acaba de me passar), comprovou que nada mudara. Em todo disco do grupo havia 5 boas canções de McCartney, 5 de Lennon e 2 de Harrison. Com esta informação, o Rafa montou o disco de 1971, o de 72, 73, etc., com músicas pinçadas no trabalho individual de cada um. O resultado foram trabalhos portentosos… Mas algumas amam a decadência de tal forma que procuram-na em todo lugar.

Ensaio sobre a cegueira é um livro de alta intensidade e criatividade. Sua leitura não é nada enfadonha e a força da parábola de Saramago atinge-nos em cheio. Esta é reforçada pelo fato de que os personagens não possuem nome: são “a mulher do médico”, “o médico”, “a rapariga de óculos escuros”, etc. No filme, tal impessoalidade se perde. Vemos, é claro, os rostos de Julianne Moore, de Mark Ruffalo, de Alice Braga e de Danny Glover, isto já basta para individualizar personagens que funcionavam como símbolos ou funções no original. OK, Literatura 1 x 0 Cinema. Neste 1 x 0, quem danou-se foi a profunda e geral desesperança de Saramago. Porém, “a responsabilidade de ter olhos quando todos os outros os perderam”, frase repetida à exaustão no livro de Saramago, está preservada no filme. Julianne Moore faz uma atuação maravilhosa e demonstra claramente que, apesar de sua vontade — de indiscutível feminilidade — de tudo resolver pelo melhor, a tarefa é inviável.

Um ponto fraco do filme é que a chegada dos doentes ao hospital-manicômio não nos dá a mesma idéia do livro: a de que aquilo está em todos os lugares. O ponto forte são as imagens do caos absoluto no momento que “a mulher do médico” leva-os para a rua. Talvez Meirelles tenha procurado justamente explorar o contraste entre uma situação que parecia inicialmente pontual e que se torna paulatinamente geral para o espectador. Mas não sei, algo não deu certo nesta transferência do particular para o geral. Outro ponto forte foi a fotografia esbranquiçada — a cegueira branca — e a música: no ponto certo de irritar, mas não demais.

Se não possui a grandiosidade do livro, é um bom filme; se não incomoda como o livro, atrapalha o suficiente; se parte da parábola perdeu-se, Meirelles não a deturpou — o que seria pecado mortal. Escapou de Meirelles o profundo e justificado pessimismo de Saramago. Seu filme não possui este tom e, com isso, perde impacto, ganhando certa gratuidade para os espectadores mais superficiais. Mas é um bom filme, sem dúvida.

Fico feliz que Ensaio sobre a cegueira (”Blindness”) tenha levado 118.145 espectadores aos cinemas em apenas três dias. Fui um deles, pois vi o filme logo no primeiro dia. Tal fato o torna a segunda melhor bilheteria nacional de estréia de 2008. Um fenômeno. Fico feliz com isso, repito; afinal, Meirelles merece mais filmes.

Machado de Assis

Hoje, faz cem anos que Machado de Assis morreu em sua casa, no bairro de Cosme Velho, Rio de Janeiro.

Aos que lerem os artigos dos cadernos de cultura, reforço o alerta antecipado por Sérgio Rodrigues neste post: o risco de enfado é grande.

Aproveite a noite para (re)começar um de seus cinco últimos romances ou para a leitura de um conto. Creio que Machado não ficaria incomodado se a leitura fosse acompanhada de um espumante.

A curta primavera da tartaruga

Na semana passada, circulou em Porto Alegre uma engraçada metáfora. Talvez ela tenha surgido em hostes coloradas, mas contou com o apoio gremista. Dizia-se que o Grêmio era uma tartaruga em cima de um poste: ninguém sabia como tinha subido até lá, mas sabia-se que cairia… Ouvi a piada ser contada por muita gente, colorados e gremistas. Parecia haver um consenso sobre a queda da tartaruga. E ontem ela caiu feio.

Foi 4 x 1 ao natural, com direito a gol antes dos cinco minutos de jogo e placar construído no primeiro tempo. Tite entrou em campo com aquela escalação cautelosa de três volantes. Estranhamente, este tipo de escalação parece favorecer a liberdade dos meias de ligação adversários. Vejam o golaço de Tcheco! Ele atravessou o campo, fazendo o mais belo gol do jogo, tendo enfrentado em sua arrancada apenas um jogador: Guiñazu. Aliás, Tcheco parecia ser o único com algum élan e categoria no time do Olímpico. O resto era um amontoado de equívocos: Pereira e Perea entraram em campo lesionados, o primeiro foi substituído a dez minutos e o outro no intervalo; Marcel e Perea formavam um ataque de asma; a saída de bola pelo lado direito com os péssimos Paulo Sérgio e Léo não funcionou, claro; e Celso Roth, após a expulsão de Tcheco e perdendo o jogo de 4 x 1, optou por preservar seu emprego abdicando de atacar. Uma tragédia. Uma tragédia maravilhosa para nós.

Enquanto isso, víamos D`Alessandro, Guiñazu e Alex triturarem o meio de campo defensivo do Grêmio. Foram inúmeras as oportunidades em que esses três e mais Nilmar chegaram tabelando aos três zagueiros de Roth. A atuação de D`Alessandro foi tudo e mais do que desejaríamos. Seu chute no primeiro gol foi espetacular e… Bem, foi um chocolate lindo de se ver.

Com efeito, a tartaruga caiu e o vento que a empurrou nem precisou ser muito forte.

Há oito rodadas, estávamos 18 pontos atrás do Grêmio; hoje, a diferença é de oito. OK, o Grêmio encarou a realidade, mas é indiscutível que estamos jogando mais.

Porque hoje é sábado, Julianne Moore

Segue a promiscuidade naquilo que chamo de “meu espaço”.

Desta vez foi a Bárbara quem escolheu as fotos de Julianne Moore, atriz que admira e acha bela.

É uma de minhas atrizes favoritas dentre as contemporâneas, mas nunca pensei em dedicar-lhe um sábado.

Desde Short Cuts (Cenas da Vida), passando por Tio Vanya em Nova Iorque, Boogie Nights, …

A Fortuna de Cookie (Cookie`s Fortune), Longe do Paraíso (Far from heaven), Magnólia, As Horas (The Hours)

e agora Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness), Julianne demonstra possuir um talento de calibre pouco comum entre a concorrência.

Obviamente, está aí a causa de Julianne Moore receber tantos convites para bons filmes.

Para mim, é uma grande surpresa que ela tenha nascido em 1960.

Pensava que ela era muito mais jovem do que eu, nunca uma quase coetânea.

Ela é casada com um diretor de cinema dez anos mais novo e tem dois filhos.

Mas devo ser eu o problema. Ele deve ser belíssima, pois agora li elogios histéricos …

… à beleza da moça que já posou imitando grandes pinturas.

Abaixo, ela faz a modelo de Egon Schiele.

E aqui está o original.

Mas não adianta, …

… apesar de seus filmes e atuações, ela …

… não me fala ao pau.

Manhã Patrocinada

O despertador de meu celular Nokia me acorda. Levanto a cabeça para conferir a hora no rádio-relógio General Electric sobre o criado-mudo SRD. Levanto-me lentamente pensando se tiro meu pijama Benet ou se vou ao banheiro ainda vestido. Está frio e resolvo mantê-lo. Faço xixi na privada Ideal Standard e vou para cozinha, onde abro o freezer-geladeira da Eletrolux e pego um croissant congelado da Casa do Croissant e uma caixa de leite da Elegê. O croissant é imediatamente redirecionado para o forno de microondas Panasonic e o leite, acompanhado de Zero Cal, vai para um copo SRD. Ainda dormindo, com o piloto automático me levando, pego meu lanchinho e vou à sala onde ligo o amplificador Gradiente, o DVD da Philips para ouvir um CD da EMI Classics com música de Hindemith. Na caixa de correspondência Cristal Acrimet, pego o jornal de literatura Rascunho. Levanto a cabeça e vejo a Claudia aproximar-se com um roupão da Teka e um iogurte Activia, da Danone, na mão esquerda. Serve-se dele numa colher Pinti. Diz que estamos sem papel (Chamex) para a impressora Epson de nosso computador Dell. Não dou muita importância. Vejo meu saldo no Santander pois tenho que fazer um depósito para a Flávia em sua conta da Caixa Econômica Federal. Faço-o. Volto ao banheiro e escovo os dentes com Oral-B e pasta Close-up. Sento-me na Ideal Standard e livro-me dos vestígios com Neve. Tiro o mau cheiro com Gleid. Uso o sabonete Original para lavar as mãos e o rosto e vou me vestir. Vagarosamente, vou pondo uma cueca da Preston Field, calças da Happy Man, camisa da Riccardi, meias da Lupo e sapatos da Gallarate. Depois, reviso o que tenho que levar para o trabalho. Pego então a calculadora HP e um livro da Companhia das Letras, assim como uma agenda da Globo. Jogo-os na pasta cuja marca procurei procurei procurei e não encontrei. Dou um beijo na Claudia Antonini e desço as escadas pensando em como ela beija bem até encontrar meu carro Ford. Coloco-o para funcionar e reviso se ele tem em seu tanque gasolina Ipiranga. Aliviado, faço os pneus Good-year me levarem ao trabalho. Durante o caminho confiro em meu relógio Technos se não estou atrasado. Chego ao escritório e, enquanto ligo meu computador Dell, vejo se o chá Leão já está na garrafa térmica da Termolar. Como estava, pego um copo plástico da Zanatta e tento me lembrar se pus no porta-malas do carro Ford o tênis Nike, o calção Wilson e a camiseta da Sul Malhas, pois posso precisar disto se sobrar um tempinho para ir à academia do Grêmio Náutico União. Volto para a mesa e começo a telefonar num Siemens para o cliente Trensurb. Enquanto isto, abro a gaveta da mesa Orlandi e pego as contas para pagar. Há uma do Colégio Leonardo da Vinci e uma do Banco Itaú. Com uma caneta Cross assino cheques do Santander e vejo que acabaram os clips da ACC. A ligação é desligada. Volto-me para o monitor da Dell de meu computador e ele mostra meu blog, da WordPress, onde leio esta bobagem comendo um chocolate Alpino da Nestlé, desejando imensamente um café da Segafredo que há no posto AM-PM da Ipiranga aqui ao lado.

Observação final: SRD é uma expressão do jargão veterinário e significa “Sem Raça Definida”.

O precursor foi o vinte (e cinco) de setembro (*)

O dia 25 de setembro tem alguma relevância, sabem? Foi num 25 de setembro de 1513 que o explorador espanhol Vasco de Balboa descobriu o Oceano Pacífico. Grande coisa! Como se ele não estivesse lá há milhões de anos e não fosse do conhecimento, por exemplo, dos chineses. Mais de quatro séculos depois, mais exatamente em 1897, a mãe de William Faulkner escolheu um outro desses 25 de setembros para apresentar os primeiros eflúvios de álcool ao filho. Nove anos depois, nascia no mesmo dia Dmitri Shostakovich, dando enorme peso à data. A coisa quase degringola em 1944, quando o velho Kirk e sua mulher puseram no mundo seu filho tarado Michael Douglas em 25 de setembro. Oito anos depois, veio à luz Christopher Reeve, ator norte-americano que fez Super-homem. Já em 1964, os moçambicanos escolheram o dia para iniciar sua luta pela independência. Após exatos 4 anos, nascia Will Smith e, 365 dias depois, nascia a mulher daquele Michael Douglas nascido 24 anos antes. Sim, hoje também é o aniversário de Catherine Zeta-Jones. O casal faz aniversário no mesmo dia, que meigo! Porém, há as mortes. O baterista do Led Zeppelin, John Bonham, escolheu inadvertidamente, ou não, um 25 de setembro, o de 1980, para morrer aos 32 anos. E… bem, Klaus Barbie fez o mesmo em 1991. Viveu demais. Em 1993, Portugal lançou no mesmo dia seu primeiro satélite, o Posat I, cuja inteligência deve ser toda artificial, e, em 2005, faleceu o imortal, ao menos para minha geração, Don Adams, o Agente 86 original, aos 82 anos.

Mas nada disso interessa muito, pois meu grande 25 de setembro foi o de 1994. Era um domingo bastante quente no qual passeamos num parque durante a manhã. Os suecos e Bergman dizem que as crianças de domingo são as mais felizes e especiais e ela chegou às 19h40. Chegou transtornada a este mundo, berrava demais e naquele dia não demonstrou nenhuma doçura, só se aquietando quando emborcou um seio, provocando breve grito na mãe, tal era a decisão. Decisão semelhante a fez escolher todas as fotos deste post e as do próximo Porque Hoje é Sábado, mas essa é outra história. Outra decisão a faz dizer que será Veterinária desde que soube o que era isso, o que me impedirá de repetir esta cena, acontecida na casa de Paulinho da Viola:

Tinha eu catorze anos de idade
Quando meu pai me chamou
Perguntou-me se eu queria
Estudar Filosofia
Medicina ou Engenharia
Tinha eu que ser doutor

Bárbara, 14 anos! Nada tenho de melhor a fazer do que transcrever o final deste post de Branco Leone, pois meu amor por ela teve o mesmo efeito:

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Sinto em mim o que escreve o Branco: cada vez mais dona de si e do mundo, torna menores todo o entorno e o inexorável e distante. Ou não.

Ah, as fotos!


Foto do último sábado, após vencer uma competição de hipismo. O do meio é o tratador do cavalo. É, segundo ela, um cara muito filosófico.


Pensativa, deve estar refletindo sobre que porcaria vai comer agora.


Cara de louca assassina Nº 43. Eu e ela fazemos competições de caretas, mas sou muito melhor.


Observando a movimentação da vizinhança.


Na cama com Olga.


Esta foto é meu wallpaper. Foi ela quem colocou, claro. O legal da foto é que ela já olha para o próximo obstáculo, o que é impossível ver nesta versão reduzida.


As meninas da geração de minha filha não apenas vão juntas ao banheiro como botam a máquina na janela e tiram fotos automáticas. Deve ser muuuuuito legal…


Ou é porque lá fora aparecem uns chatos para encher o saco?

(*) Só os gaúchos entenderão o título…

A avó, eu, ele e o primeiro círculo de amores

Fotos do meu filho Bernardo.

Fogo Morto, de José Lins do Rego

Atualmente, Fogo Morto deve ser um fenômeno de vendas no Rio Grande do Sul. O romance foi indicado como leitura obrigatória para os alunos que prestarão exame vestibular na Universidade Federal em janeiro de 2009. Ignoro o número de estudantes que se preparam decentemente para o concurso, mas quem o fizer, passará por Zé Lins. Não tinha lido o romance e meu filho, que fará o vestibular, leu e gostou, convencendo-me a retormar o romance regionalista da década de 30, movimento ao qual Fogo Morto está relacionado, mesmo que tenha sido escrito em 1943.

A linguagem é simples, a história é boa e José Lins do Rego é um tremendo narrador. Ou seja, o livro gruda. É dividido em três grandes partes, cada uma dedicada a um personagem da trama: a primeira ao seleiro Mestre José Amaro, a segunda ao Coronel Lula de Holanda, proprietário do Engenho Santa Fé e a terceira ao Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, uma espécie de quixote que, sem ofício definido, é candidato na próxima eleição.

Os três personagens possuem em comum um acentuadíssimo orgulho de si — tão patológico que me fez lembrar Pâmela (ou Suélen, nunca lembro seu nome) — e o fato de escravizarem as mulheres em torno. Mestre Amaro é fechado e ranzinza, permanece solitário em seu mundo e não ouve ninguém, nem sua mulher e muito menos a filha, a qual tortura com suas críticas e que acaba louca. Arrepende-se tardiamente. O Coronel Lula tem orgulho de uma grandeza que apenas ele vê em si. Pouco a pouco leva o Engenho Santa Fé, que herda do sogro, à falência, ao mesmo tempo que pousa de grande e impede a filha de casar, por não encontrar nas redondezas homem digno de sua perfeição. A esposa, uma empregada de luxo, chama-se Amélia (atenção: o samba de Mário Lago e Ataulfo Alves é de 1941). Já o Capitão Vitorino guarda muitos pontos de contato com Dom Quixote e Sancho Pança, a começar pela coragem sem limites e pelo cavalo logo mudado para mula. Anda de um lado para outro fazendo campanha política, orgulhoso de não levar desaforo para casa e desafia todos com suas idéias, desde representantes do governo até cangaceiros. Também tem sua Amélia, digo Adriana, que ameaça uma revolta mas não cumpre.

As protagonistas reais da tragédia são a moral torta e a decadência dos senhores de engenho, além da confusa situação política dos primeiros anos da república num período pré-eleitoral. Apesar da simpatia de José Lins pelos cangaceiros, ele os faz muito parecidos com os representantes do governo e não é por acaso que o quixotesco Vitorino apanha de ambos. Na parte final, um tenente do governo passa a desobedecer o Judiciário e a levar sua atuação para o caso puramente pessoal… É o Brasil-sil-sil velho de guerra!

A UFRGS tem razão em destacá-lo em seu vestibular, pois o livro é excelente e apenas cai na segunda metade da segunda parte, quando já sabemos que o Coronel Lula é um perfeito imbecil e Zé Lins estende-se em sua descrição além do necessário. Nada grave. Logo depois, na terceira parte, o romance retorna com a força anterior.

O mundo mudou: em minha época de estudante, Erico Verissimo era considerado tão importante que os professores não davam muita bola para José Lins do Rego. Era Jorge Amado e olhe lá! Hoje, não há Ericos na lista, que é bastante esquisita, incluindo livros e contos maravilhosos como Antes do Baile Verde, O Primo Basílio, Pai contra Mãe, e Estrela da Vida Inteira, mas também um medonho Assis Brasil — a propósito, meio livro de Erico ou algumas linhas de um conto de Sérgio Faraco são maiores do que toda a obra de Assis Brasil –, um desnecessário Cyro Martins (por que dar a alunos recém saídos do segundo grau uma visão tão pobre da literatura gaúcha?) e Iracema (ai, que saco!)… A seguir, a lista:

Luís de Camões - Os Lusíadas - Cantos I ao V
Castro Alves - Espumas Flutuantes
José de Alencar - Iracema
Machado de Assis - Quincas Borba
José Lins do Rego - Fogo Morto
Lygia Fagundes Telles - Antes do Baile Verde
Milton Hatoum - Dois Irmãos
Luiz Antônio de Assis Brasil - Concerto Campestre
Machado de Assis - O Caso da Vara, Pai contra Mãe e Capítulo dos Chapéus
Cyro Martins - Porteira Fechada
Eça de Queirós - O Primo Basílio
Manuel Bandeira - Estrela da Vida Inteira

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