A curta primavera da tartaruga

Na semana passada, circulou em Porto Alegre uma engraçada metáfora. Talvez ela tenha surgido em hostes coloradas, mas contou com o apoio gremista. Dizia-se que o Grêmio era uma tartaruga em cima de um poste: ninguém sabia como tinha subido até lá, mas sabia-se que cairia… Ouvi a piada ser contada por muita gente, colorados e gremistas. Parecia haver um consenso sobre a queda da tartaruga. E ontem ela caiu feio.

Foi 4 x 1 ao natural, com direito a gol antes dos cinco minutos de jogo e placar construído no primeiro tempo. Tite entrou em campo com aquela escalação cautelosa de três volantes. Estranhamente, este tipo de escalação parece favorecer a liberdade dos meias de ligação adversários. Vejam o golaço de Tcheco! Ele atravessou o campo, fazendo o mais belo gol do jogo, tendo enfrentado em sua arrancada apenas um jogador: Guiñazu. Aliás, Tcheco parecia ser o único com algum élan e categoria no time do Olímpico. O resto era um amontoado de equívocos: Pereira e Perea entraram em campo lesionados, o primeiro foi substituído a dez minutos e o outro no intervalo; Marcel e Perea formavam um ataque de asma; a saída de bola pelo lado direito com os péssimos Paulo Sérgio e Léo não funcionou, claro; e Celso Roth, após a expulsão de Tcheco e perdendo o jogo de 4 x 1, optou por preservar seu emprego abdicando de atacar. Uma tragédia. Uma tragédia maravilhosa para nós.

Enquanto isso, víamos D`Alessandro, Guiñazu e Alex triturarem o meio de campo defensivo do Grêmio. Foram inúmeras as oportunidades em que esses três e mais Nilmar chegaram tabelando aos três zagueiros de Roth. A atuação de D`Alessandro foi tudo e mais do que desejaríamos. Seu chute no primeiro gol foi espetacular e… Bem, foi um chocolate lindo de se ver.

Com efeito, a tartaruga caiu e o vento que a empurrou nem precisou ser muito forte.

Há oito rodadas, estávamos 18 pontos atrás do Grêmio; hoje, a diferença é de oito. OK, o Grêmio encarou a realidade, mas é indiscutível que estamos jogando mais.

Porque hoje é sábado, Julianne Moore

Segue a promiscuidade naquilo que chamo de “meu espaço”.

Desta vez foi a Bárbara quem escolheu as fotos de Julianne Moore, atriz que admira e acha bela.

É uma de minhas atrizes favoritas dentre as contemporâneas, mas nunca pensei em dedicar-lhe um sábado.

Desde Short Cuts (Cenas da Vida), passando por Tio Vanya em Nova Iorque, Boogie Nights, …

A Fortuna de Cookie (Cookie`s Fortune), Longe do Paraíso (Far from heaven), Magnólia, As Horas (The Hours)

e agora Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness), Julianne demonstra possuir um talento de calibre pouco comum entre a concorrência.

Obviamente, está aí a causa de Julianne Moore receber tantos convites para bons filmes.

Para mim, é uma grande surpresa que ela tenha nascido em 1960.

Pensava que ela era muito mais jovem do que eu, nunca uma quase coetânea.

Ela é casada com um diretor de cinema dez anos mais novo e tem dois filhos.

Mas devo ser eu o problema. Ele deve ser belíssima, pois agora li elogios histéricos …

… à beleza da moça que já posou imitando grandes pinturas.

Abaixo, ela faz a modelo de Egon Schiele.

E aqui está o original.

Mas não adianta, …

… apesar de seus filmes e atuações, ela …

… não me fala ao pau.

Manhã Patrocinada

O despertador de meu celular Nokia me acorda. Levanto a cabeça para conferir a hora no rádio-relógio General Electric sobre o criado-mudo SRD. Levanto-me lentamente pensando se tiro meu pijama Benet ou se vou ao banheiro ainda vestido. Está frio e resolvo mantê-lo. Faço xixi na privada Ideal Standard e vou para cozinha, onde abro o freezer-geladeira da Eletrolux e pego um croissant congelado da Casa do Croissant e uma caixa de leite da Elegê. O croissant é imediatamente redirecionado para o forno de microondas Panasonic e o leite, acompanhado de Zero Cal, vai para um copo SRD. Ainda dormindo, com o piloto automático me levando, pego meu lanchinho e vou à sala onde ligo o amplificador Gradiente, o DVD da Philips para ouvir um CD da EMI Classics com música de Hindemith. Na caixa de correspondência Cristal Acrimet, pego o jornal de literatura Rascunho. Levanto a cabeça e vejo a Claudia aproximar-se com um roupão da Teka e um iogurte Activia, da Danone, na mão esquerda. Serve-se dele numa colher Pinti. Diz que estamos sem papel (Chamex) para a impressora Epson de nosso computador Dell. Não dou muita importância. Vejo meu saldo no Santander pois tenho que fazer um depósito para a Flávia em sua conta da Caixa Econômica Federal. Faço-o. Volto ao banheiro e escovo os dentes com Oral-B e pasta Close-up. Sento-me na Ideal Standard e livro-me dos vestígios com Neve. Tiro o mau cheiro com Gleid. Uso o sabonete Original para lavar as mãos e o rosto e vou me vestir. Vagarosamente, vou pondo uma cueca da Preston Field, calças da Happy Man, camisa da Riccardi, meias da Lupo e sapatos da Gallarate. Depois, reviso o que tenho que levar para o trabalho. Pego então a calculadora HP e um livro da Companhia das Letras, assim como uma agenda da Globo. Jogo-os na pasta cuja marca procurei procurei procurei e não encontrei. Dou um beijo na Claudia Antonini e desço as escadas pensando em como ela beija bem até encontrar meu carro Ford. Coloco-o para funcionar e reviso se ele tem em seu tanque gasolina Ipiranga. Aliviado, faço os pneus Good-year me levarem ao trabalho. Durante o caminho confiro em meu relógio Technos se não estou atrasado. Chego ao escritório e, enquanto ligo meu computador Dell, vejo se o chá Leão já está na garrafa térmica da Termolar. Como estava, pego um copo plástico da Zanatta e tento me lembrar se pus no porta-malas do carro Ford o tênis Nike, o calção Wilson e a camiseta da Sul Malhas, pois posso precisar disto se sobrar um tempinho para ir à academia do Grêmio Náutico União. Volto para a mesa e começo a telefonar num Siemens para o cliente Trensurb. Enquanto isto, abro a gaveta da mesa Orlandi e pego as contas para pagar. Há uma do Colégio Leonardo da Vinci e uma do Banco Itaú. Com uma caneta Cross assino cheques do Santander e vejo que acabaram os clips da ACC. A ligação é desligada. Volto-me para o monitor da Dell de meu computador e ele mostra meu blog, da WordPress, onde leio esta bobagem comendo um chocolate Alpino da Nestlé, desejando imensamente um café da Segafredo que há no posto AM-PM da Ipiranga aqui ao lado.

Observação final: SRD é uma expressão do jargão veterinário e significa “Sem Raça Definida”.

O precursor foi o vinte (e cinco) de setembro (*)

O dia 25 de setembro tem alguma relevância, sabem? Foi num 25 de setembro de 1513 que o explorador espanhol Vasco de Balboa descobriu o Oceano Pacífico. Grande coisa! Como se ele não estivesse lá há milhões de anos e não fosse do conhecimento, por exemplo, dos chineses. Mais de quatro séculos depois, mais exatamente em 1897, a mãe de William Faulkner escolheu um outro desses 25 de setembros para apresentar os primeiros eflúvios de álcool ao filho. Nove anos depois, nascia no mesmo dia Dmitri Shostakovich, dando enorme peso à data. A coisa quase degringola em 1944, quando o velho Kirk e sua mulher puseram no mundo seu filho tarado Michael Douglas em 25 de setembro. Oito anos depois, veio à luz Christopher Reeve, ator norte-americano que fez Super-homem. Já em 1964, os moçambicanos escolheram o dia para iniciar sua luta pela independência. Após exatos 4 anos, nascia Will Smith e, 365 dias depois, nascia a mulher daquele Michael Douglas nascido 24 anos antes. Sim, hoje também é o aniversário de Catherine Zeta-Jones. O casal faz aniversário no mesmo dia, que meigo! Porém, há as mortes. O baterista do Led Zeppelin, John Bonham, escolheu inadvertidamente, ou não, um 25 de setembro, o de 1980, para morrer aos 32 anos. E… bem, Klaus Barbie fez o mesmo em 1991. Viveu demais. Em 1993, Portugal lançou no mesmo dia seu primeiro satélite, o Posat I, cuja inteligência deve ser toda artificial, e, em 2005, faleceu o imortal, ao menos para minha geração, Don Adams, o Agente 86 original, aos 82 anos.

Mas nada disso interessa muito, pois meu grande 25 de setembro foi o de 1994. Era um domingo bastante quente no qual passeamos num parque durante a manhã. Os suecos e Bergman dizem que as crianças de domingo são as mais felizes e especiais e ela chegou às 19h40. Chegou transtornada a este mundo, berrava demais e naquele dia não demonstrou nenhuma doçura, só se aquietando quando emborcou um seio, provocando breve grito na mãe, tal era a decisão. Decisão semelhante a fez escolher todas as fotos deste post e as do próximo Porque Hoje é Sábado, mas essa é outra história. Outra decisão a faz dizer que será Veterinária desde que soube o que era isso, o que me impedirá de repetir esta cena, acontecida na casa de Paulinho da Viola:

Tinha eu catorze anos de idade
Quando meu pai me chamou
Perguntou-me se eu queria
Estudar Filosofia
Medicina ou Engenharia
Tinha eu que ser doutor

Bárbara, 14 anos! Nada tenho de melhor a fazer do que transcrever o final deste post de Branco Leone, pois meu amor por ela teve o mesmo efeito:

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Sinto em mim o que escreve o Branco: cada vez mais dona de si e do mundo, torna menores todo o entorno e o inexorável e distante. Ou não.

Ah, as fotos!


Foto do último sábado, após vencer uma competição de hipismo. O do meio é o tratador do cavalo. É, segundo ela, um cara muito filosófico.


Pensativa, deve estar refletindo sobre que porcaria vai comer agora.


Cara de louca assassina Nº 43. Eu e ela fazemos competições de caretas, mas sou muito melhor.


Observando a movimentação da vizinhança.


Na cama com Olga.


Esta foto é meu wallpaper. Foi ela quem colocou, claro. O legal da foto é que ela já olha para o próximo obstáculo, o que é impossível ver nesta versão reduzida.


As meninas da geração de minha filha não apenas vão juntas ao banheiro como botam a máquina na janela e tiram fotos automáticas. Deve ser muuuuuito legal…


Ou é porque lá fora aparecem uns chatos para encher o saco?

(*) Só os gaúchos entenderão o título…

A avó, eu, ele e o primeiro círculo de amores

Fotos do meu filho Bernardo.

Fogo Morto, de José Lins do Rego

Atualmente, Fogo Morto deve ser um fenômeno de vendas no Rio Grande do Sul. O romance foi indicado como leitura obrigatória para os alunos que prestarão exame vestibular na Universidade Federal em janeiro de 2009. Ignoro o número de estudantes que se preparam decentemente para o concurso, mas quem o fizer, passará por Zé Lins. Não tinha lido o romance e meu filho, que fará o vestibular, leu e gostou, convencendo-me a retormar o romance regionalista da década de 30, movimento ao qual Fogo Morto está relacionado, mesmo que tenha sido escrito em 1943.

A linguagem é simples, a história é boa e José Lins do Rego é um tremendo narrador. Ou seja, o livro gruda. É dividido em três grandes partes, cada uma dedicada a um personagem da trama: a primeira ao seleiro Mestre José Amaro, a segunda ao Coronel Lula de Holanda, proprietário do Engenho Santa Fé e a terceira ao Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, uma espécie de quixote que, sem ofício definido, é candidato na próxima eleição.

Os três personagens possuem em comum um acentuadíssimo orgulho de si — tão patológico que me fez lembrar Pâmela (ou Suélen, nunca lembro seu nome) — e o fato de escravizarem as mulheres em torno. Mestre Amaro é fechado e ranzinza, permanece solitário em seu mundo e não ouve ninguém, nem sua mulher e muito menos a filha, a qual tortura com suas críticas e que acaba louca. Arrepende-se tardiamente. O Coronel Lula tem orgulho de uma grandeza que apenas ele vê em si. Pouco a pouco leva o Engenho Santa Fé, que herda do sogro, à falência, ao mesmo tempo que pousa de grande e impede a filha de casar, por não encontrar nas redondezas homem digno de sua perfeição. A esposa, uma empregada de luxo, chama-se Amélia (atenção: o samba de Mário Lago e Ataulfo Alves é de 1941). Já o Capitão Vitorino guarda muitos pontos de contato com Dom Quixote e Sancho Pança, a começar pela coragem sem limites e pelo cavalo logo mudado para mula. Anda de um lado para outro fazendo campanha política, orgulhoso de não levar desaforo para casa e desafia todos com suas idéias, desde representantes do governo até cangaceiros. Também tem sua Amélia, digo Adriana, que ameaça uma revolta mas não cumpre.

As protagonistas reais da tragédia são a moral torta e a decadência dos senhores de engenho, além da confusa situação política dos primeiros anos da república num período pré-eleitoral. Apesar da simpatia de José Lins pelos cangaceiros, ele os faz muito parecidos com os representantes do governo e não é por acaso que o quixotesco Vitorino apanha de ambos. Na parte final, um tenente do governo passa a desobedecer o Judiciário e a levar sua atuação para o caso puramente pessoal… É o Brasil-sil-sil velho de guerra!

A UFRGS tem razão em destacá-lo em seu vestibular, pois o livro é excelente e apenas cai na segunda metade da segunda parte, quando já sabemos que o Coronel Lula é um perfeito imbecil e Zé Lins estende-se em sua descrição além do necessário. Nada grave. Logo depois, na terceira parte, o romance retorna com a força anterior.

O mundo mudou: em minha época de estudante, Erico Verissimo era considerado tão importante que os professores não davam muita bola para José Lins do Rego. Era Jorge Amado e olhe lá! Hoje, não há Ericos na lista, que é bastante esquisita, incluindo livros e contos maravilhosos como Antes do Baile Verde, O Primo Basílio, Pai contra Mãe, e Estrela da Vida Inteira, mas também um medonho Assis Brasil — a propósito, meio livro de Erico ou algumas linhas de um conto de Sérgio Faraco são maiores do que toda a obra de Assis Brasil –, um desnecessário Cyro Martins (por que dar a alunos recém saídos do segundo grau uma visão tão pobre da literatura gaúcha?) e Iracema (ai, que saco!)… A seguir, a lista:

Luís de Camões - Os Lusíadas - Cantos I ao V
Castro Alves - Espumas Flutuantes
José de Alencar - Iracema
Machado de Assis - Quincas Borba
José Lins do Rego - Fogo Morto
Lygia Fagundes Telles - Antes do Baile Verde
Milton Hatoum - Dois Irmãos
Luiz Antônio de Assis Brasil - Concerto Campestre
Machado de Assis - O Caso da Vara, Pai contra Mãe e Capítulo dos Chapéus
Cyro Martins - Porteira Fechada
Eça de Queirós - O Primo Basílio
Manuel Bandeira - Estrela da Vida Inteira

Marquinhos e Enzo, o grande

O negão Inácio tinha nos chamado no seu quarto. Todos fizeram cortes nos dedos. Nem vi direito onde ele guardou o sangue do nosso time porque ele saiu na corrida para o levar ainda vivo para um Pai de Santo lá de Bagé. No dia seguinte, podíamos sair da segunda divisão se ganhássemos do Ipiranga de Erechim – casualmente meu ex-time – no Estrela d`Alva. No quarto, enquanto dava meu sangue, tremia e lágrimas de arrependimento me vinham aos olhos. Foda. Os companheiros me abraçaram, pensando que eu estava emocionado com a demonstração de união que estávamos fazendo. Que nada, eu estava apavorado mesmo, porque, desde o dia anterior, era o traíra do grupo.

Eu era um dos caras mais importantes do time. Tinha sido formado pelo Internacional de Porto Alegre, onde sempre fora reserva nas categorias de base. Fiquei lá dos 12 aos 18 anos, quando comecei a rodar pelo interior. Além do mais, tinha segundo grau completo e, aos 24 anos, era o capitão do time. O resto do pessoal era tudo quinta série, por aí. Apenas eu sabia falar com a imprensa. Dava mais entrevistas e aparecia mais do que os outros, mesmo medindo 1,60m. Eu era o baixinho que fazia a ligação entre o meio de campo e o ataque. Quer dizer, jogava em posição de craque, mas não era o caso. Tinha alguma habilidade e batia as faltas, pênaltis e escanteios do time, só que passava mais da metade do tempo machucado. Mas não naquele ano. Como o Enzo dizia na escola, aquele era o ano do seu pai. Eu ficava todo orgulhoso, pois tudo o que faço é para ele.

Ganhava dois mil por mês no Guarani e os caras do Ipiranga me ofereceram vinte para errar todos os escanteios e faltas na decisão. Pênaltis também, se acontecessem. Eu estava em pânico com esta possibilidade – achava que era impossível errar o gol num pênalti. Se eu treinava diariamente, porra, como ia fazer para bater embaixo da bola a fim de mandá-la para fora do estádio? E eu sempre batia colocadinho, com jeito. Que merda. Só sei que pedi o dinheiro adiantado, pois depois eles sumiriam. Como eu tinha fama de sério e confiável, me deram a grana em dinheiro, na hora.

Tinha que aceitar a grana. Havia o Enzo. O guri passava mais tempo com minha mãe em São Gabriel do que comigo e eu precisava ganhar mais para ter uma empregada em casa. Ainda bem que São Gabriel era perto e eu o visitava com freqüência. Eu pagava todas as contas dele, mas não podia morar junto porque ele tinha quatro anos e eu era sozinho em Bagé. Não podia ficar abandonado no meu apartamento durante as concentrações e viagens, né? Mas eu queria criar meu filho, como acho que é o normal de se fazer. Enzo tinha nascido em Erechim, quando eu tinha 20 anos. Agora já tinha quatro e era um baita homem. Quando a Lidiane deixou ele lá em casa, era uma coisinha de nada. Lidiane trabalhava na zona de Erechim e eu sempre ia com ela quando ganhávamos um jogo no Ipiranga. Parte do prêmio pela vitória ia para a diversão e eu gostava da Lidiane. Sempre a procurava. Hoje eu sei que ela nem podia trabalhar, porque era de menor: tinha só 15 anos. Um dia, depois de um sumiço grande, ela apareceu no meu apartamento com o Enzo. Sei lá como descobriu meu endereço. Disse para eu pegar meu filho.

Olhei para ele, examinei bem. Era a minha cara. Meu filho. Perguntei que nome ela tinha dado e ela respondeu:

- Aléquisei.
- Porra, não podia ter posto nome de gente?

Brigamos. Foi uma cena. Ela foi embora, disse que não tinha saco pra filho. Fiquei com o guri, é óbvio. Minha mãe quis saber da certidão. Procurei a Lidiane e ela não sabia onde estava. Fomos no cartório e acharam Alekisei Silva, filho de Lidiane Santos Silva e de pai desconhecido. Que merda. Pedi pro meu empresário achar um advogado para mudar o documento. Ele tinha pai, porra. E mudei seu nome para Enzo. Aquilo me custou caríssimo, mas consegui a tal retificação. Nunca mais vi Lidiane.

Por que Enzo? Ouvi em algum lugar que Zidane tinha um filho com este nome. O motivo era homenagear seu amigaço Francescoli, Enzo Francescoli, um grande jogador uruguaio. Como achei bacana e tanto Zidane como Francescoli jogavam na minha posição, resolvi imitar. Além do mais, Enzo é um nome bonito, diferente.

E então lá estava eu, o traíra chorão. Dormi mal aquela noite, sonhei que teria que errar três pênaltis como o Palermo. Acordei cedo com as buzinas e os foguetes dos bageenses. A cidade estava mobilizada para o jogo das 15h30, que poderia levá-la de volta à Primeira Divisão gaúcha. E eu estava assustado. A rádio da cidade veio atrás de uma entrevista e eu disse que respeitávamos o adversário e que estávamos preparados a vitória, já que o empate classificava o Ipiranga. Depois perguntaram o que eu sentia ao enfrentar meu ex-time, se havia algum sentimento de vingança ou mágoa e eu respondia que nada disso, hoje eu estou no Guarani e sou profissional. O Ipiranga é um adversário como outro qualquer e devemos fazer tudo para vencer e classificar o Guarani.

Terminaram a entrevista dizendo aos ouvintes que o capitão estava sério e concentrado, só pensando no compromisso das quinze horas e trinta minutos e na necessidade de vitória. Me elogiaram. Merda. Era pavor, não profissionalismo.

Veio o jogo. Quando o árbitro chamou os capitães, notei um risinho na cara de Marcão, capitão do Ipiranga e meu ex-companheiro. Ele conhecia Enzo, minha mãe e talvez até Lidiane. Permaneci sério, com aquela cara de inimigo que sabe o que quer. Será que ele sabia do trato? Fiquei desconfiado e preocupado, porque Marcão era um boca-grande. O jogo começou e eu fingia jogar. Recebia a bola, tentava o drible, mas sempre jogava a bola nas pernas dos marcadores. Quando lançava um de nossos atacantes, errava e eles me motivavam aplaudindo, depois de ver a bola perder-se pela linha de fundo. Batia as faltas e escanteios bem abertos, para não dar chance a nossos cabeceadores. Pedia desculpas. 0 x 0. No intervalo, o professor veio falar comigo em particular, perguntando se eu estava muito nervoso.

– Não, isso não, estou mal no jogo, meio enjoado.
– Marquinhos, isso é de fundo nervoso. Agora, olha bem para mim, olho no olho.

Obedeci.

– Marquinhos, se tu fraqueja, estamos mortos. A defesa tá bem. Eu preciso de um contra-ataque bem organizado, de uma falta bem batida para mandar esses caras pra puta que o pariu. Cara, eles te dispensaram no ano passado, tu quer dar razão a eles? Marquinhos, eu preciso de um bom lance e fim, tá? Baixinho, pensa no teu filho que deve estar ouvindo o jogo em São Gabriel. Faz por ele, pelamordedeus!

Estávamos voltando para o segundo tempo e, ainda no túnel, lembrei do que tinha dito o pediatra do Enzo.

– Esse guri é muito grande, vai ter 1,90m, no mínimo!

Eu achei que ele estava brincando, mas agora me dava conta que o guri era enorme mesmo e eu um tampinha. Senti meu estômago contrair-se ao pensar que ele poderia não ser meu filho e em Lidiane, aquela vaca que dava mais que xuxu na cerca. Estava na cara o que o pediatra estava me dizendo. E ele tinha cabelos lisos, escorridos, como ninguém na minha família e nem Lidiane tem… E agora sou um traíra. Mas que merda de vida, meu Deus.

Na primeira bola que recebi no segundo tempo, veio um volante por trás e bateu com seu peito em minhas costas com tanta força que voei longe. Fiquei puto com aquilo. Na jogada seguinte, dei-lhe uma tesoura com a finalidade de tirá-lo de campo. Ele reagiu:

– Quer me quebrar o joelho, seu filha-da-puta?
– Filha da puta é a tua mãe, desgraçado. Vai tomar no olho do teu cu, seu bosta. Vou te quebra, porra!

O juiz interpôs-se e me deu o cartão amarelo, apesar de que eu não parava de gritar, ofendendo as mães do pessoal do Ipiranga. Estava transtornado. Então, resolvi jogar. Só que estava tão puto que fazia as coisas piores ainda. Marcão me olhava e sorria, como se eu fosse um ator prestes a receber um Oscar. Mais para o fim do jogo, dei-lhe um cotovelaço, mas errei. Marcão passou a mão na minha cabeça e me disse com carinho:

- Te conforma com a segundona, nanico.

E riu. Eu mandei ele se foder. No final da partida, fiz um lançamento para nosso centroavante, que tomou uma falta na boca da área. Ele pegou a bola e me entregou.

- É a bola do jogo. Faz o gol, baixinho.

Eu nem via nada direito. Procurei o Marcão na barreira e ele sorria abertamente para mim. Sim, ele sabia da Lidiane, do pagamento, de tudo. Sabia, enfim, que eu era um merda. Coloquei a bola no local indicado pelo árbitro e tomei distância, determinado a mandar tudo à puta que os pariu. Só que minha cabeça era aquele tumulto — pensei no Enzo ouvindo o jogo, na minha mãe, no cara me entregando a grana, no professor me suplicando para jogar melhor e em toda aquela massa que estava fazendo barulho desde a manhã. Decidi bater pelo lado da barreira, rente à cabeça do último homem, forte, para fora. Corri para a bola e chutei. O estádio explodiu em comemoração. Eu saí correndo como um louco em direção à arquibancada, pois, enfim, era o herói do dia.

Depois do jogo e de ter erguido a taça, toda a cidade parecia estar dentro de nosso vestiário, todos queriam me tocar, falar comigo, me abraçar. Eu sorria, mas tinha certeza de que, assim que ficasse sozinho, levaria um tiro ou uma facada. Tinha que dar um jeito de chegar até meu carro para fugir da cidade. Dei entrevistas para as rádios locais e para o pessoal de Erechim, estes com cara de luto. Eu sabia que seria morto depois daquilo; afinal, enganara os caras, roubando vinte pilas deles. Eu não tinha culpa se a barreira pulara. No último segundo, decidi chutar forte e rasteiro, para que a bola batesse nela, só que a barreira pulou e a bola passou por baixo daqueles deficientes mentais do Ipiranga. Entrou no canto desprotegido pelo goleiro, que nada pôde fazer.

– Muita frieza e precisão na cobrança de falta, Marquinhos!

– Marquinhos, você não fez tão boa partida quanto as anteriores, mas craque é craque e você decidiu o jogo com categoria.

– Marquinhos, você sentiu que a barreira pularia?

– Marquinhos, a sofrida cidade de Bagé, que há anos convive com a estiagem e com o racionamento de água, tem em ti um grande herói. Parabéns!

– Capitão Marquinhos, por favor, erga a taça novamente para a grande torcida do Guarani, essa massa que delira com a ascensão à Primeira Divisão de nosso estado!

E eu pensando em minha morte.

Depois da festa no estádio, houve um churrasco com cerveja pago pelos diretores do clube. Cheguei meio bêbado a meu Chevette Junior acompanhado de dois colegas. Entramos, deixei-os em casa e fui para a estrada. Amanhecia quando cheguei em São Gabriel. Recebi o abraço da mãe, que chorava dizendo

– se teu pai estivesse vivo, ficaria tão orgulhoso de ti…

E lágrimas. Eu não agüentava mais. Era um carrossel de emoções.

– Mãe, eu vou viajar. Sair de férias. Vou para Floripa com o Enzo.

Depois de fazer as malas dele, dei um jeito de ir para o Uruguai. Passei de novo por Bagé, mas não pararia ali nem que me cobrissem de ouro. Me senti melhor quando atravessei a fronteira em Aceguá. Na noite do mesmo dia, deixei o carro num estacionamento em Colônia e atravessei o Rio da Prata de buquebus. Chegando à Buenos Aires, fomos para a rodoviária. Enzo parecia estar gostando de viajar comigo. Estava tranqüilo. Olhei os destinos dos ônibus e escolhi uma cidade que não conhecia: Ushuaia. Viajamos a noite inteira, eu e Enzo. Estávamos felizes. Eu e meu filho, ele com seu pai. Perto do meio-dia, estava ficando cada vez mais frio e nada de chegarmos à Ushuaia. Pedi para trocar de lugar com Enzo, fui sentar-me na janela. Não entendia muito bem onde estava, mas a vegetação era desconhecida e esfriava demais. Paramos e comprei um livrinho para turistas, Conozca la Argentina. Procurei por Ushuaia e a primeira propaganda que vi da cidade foi: visite el Museo del Fin del Mundo. Meu Deus. Depois havia outras que falavam em Patagônia, extremo sul e fotos de pingüins. Estaria indo para o Pólo Sul? Será que veria ursos brancos por lá? Num cantinho informavam a distância de Buenos Aires: 3260 Km. Comprei casacos e blusões. Mais dois dias e chegamos. Era lindo, mas fiquei estarrecido quando entramos na cidade pela avenida Heróes de Malvinas. Estaria perto das Ilhas? Olhei no mapa. Putz, estávamos bem ao lado.

Claro, gastei todo o dinheiro do pessoal de Erechim em hotéis e em contatos com meu empresário. Contei-lhe o acontecido e ouvi sua resposta:

– Eu tenho direito a 20% de tudo o que tu recebe, lembra?

Enzo adorou aquela Floripa quase vazia. Enturmou-se com outros meninos e eu os observava brincar. Quis saber as idades de cada um deles e concluí que meu filho seria muito alto, mas muito alto mesmo. Meu empresário conseguiu um outro empresário a nível internacional e, depois de congelar por cinco semanas, me conseguiram um clube, mas me morderam em 75% do valor da negociação. O novo empresário me acompanhou até o novo clube. De novo, lá era frio, mas também era bonito. Antes de me despedir dele, pedi-lhe que falasse com o médico do clube e, no dia seguinte, eu e Enzo fomos a uma clínica para o exame de sangue. Lembrei de Inácio. Saudades dele, aquela mandinga deu certo. E como!

Hoje, recebi no clube um envelope com o resultado, só que não entendo nada de norueguês. Saí do treino e busquei Enzo para um cinema. Nunca tinha entrado num cinema tão pequeno. Era um filme espanhol meio infantil, El Laberinto del Fauno, e achei que, como em nossa temporada entre os pingüins falávamos a língua, entenderíamos tudo. Tomei um susto quando vi que estava dublado naquela língua deles… Rimos muito e eu ia narrando em seu ouvido o que os personagens diziam. Tudo inventado, claro. Voltamos para a casa a pé. Ele pediu para jantar o que mais gosta de comer: ovos mexidos e purê de batata. Entrei num supermercado para comprar. Ali, era fácil. Bastava pegar o que quisesse e, mesmo na hora de pagar, eu não precisava falar nada: era só olhar a soma na máquina e entregar o dinheiro. As mulheres daqui são bonitas. Digo pra vocês, ainda vou comer uma dessas loironas. Vou casar, até.

Quando estávamos chegando em casa, lembrei do envelope. Joguei num lixo da rua. Se crescer muito é porque cuidei bem dele, porra.

Porque hoje é sábado, Julie Christie

Minha filha suplicou-me para fazer um Pq Hj é Sáb. OK. Ela escolheu as fotos daquela bela ruiva sardenta, só que não me mandou…


Então, aproveito trazer novamente uma de minhas grandes paixões de adolescente.


Ela, uma britânica nascida em 1941 na Índia, foi uma das musas da geração anterior à minha, mas, por alguma razão, retroagi e passei aqueles anos vendo e revendo seus filmes:…


… o extraordinário Darling, de John Schlesinger (no Brasil Darling, a que amou demais…), o curioso Petulia, de Richard Lester (no Brasil, Petulia, um Demônio de Mulher…),…


… o xaroposo Doutor Jivago, de um irreconhecível David Lean, o perfeito O Mensageiro, de Joseph Losey, o grande western McCabe and Mrs. Miller, de Robert Altman (no Brasil Onde os Homens são Homens…), …


… mais Nashville (Altman), Shampoo (Ashby), Don´t look now (Roeg, no Brasil Um Inverno de Sangue em Veneza) foram engolidos por alguém que via algo mais do que uma bela mulher em Julie Christie.


Ícone da Swinging London dos anos 60, Julie foi uma espécie irrepetível de anti-estrela.


Imagine uma excepcional atriz jovem, bonita e ganhadora do Oscar aos 24 anos, tomando sol num parque de Londres nos dias de hoje!


Além do mais, ela dava entrevistas muito inteligentes, detestava posar para fotos, não fazia comerciais…


… era declaradamente atéia, fazia questão de escolher seus projetos e, quando era criticada por errar, dizia: …


…”Minha carreira que se dane”.





Certamente, era pelo somatório de beleza, pela poesia de suas atuações e pela postura independente que a admirava tanto.


Aliás, até hoje, bem passada dos 60 anos, ainda acho esta imensa atriz bem bonitinha…

Mônica Leal, a amiga de Yeda Crusius

Mônica Leal foi colocada como Secretária de Cultura do Rio Grande do Sul por ser amiga de Yeda Crusius. Yeda afirmou que Mônica era alguém de sua confiança, uma amiga com quem tomava chá e chimarrão, enquanto Mônica replicava que estava encantada com o convite, apesar de não saber nada sobre política cultural, cultura, artistas, leis de incentivo, etc., mas que aprenderia, pois tinha boa vontade. Antes deste convite, Mônica Leal dizia “carregar a bandeira da Segurança Pública e a herança política de seu pai”. Nada mais próximo à cultura.

Em suas primeiras entrevistas, notei que Mônica tinha problemas maiores. Como dizê-los? Bem, parecia que a luz da inteligência não havia brilhado muito para ela, seus discursos eram vazios e, pior, sem o palavreado político habitual; ou seja, eram tolos. Uma vez, na abertura de um concerto da OSPA, o maestro Isaac Karabtchevsky, vendo que ela se perdia de forma constrangedora na frente de uma platéia que começava a rir, saiu em sua ajuda, aplicando os termos corretos: concerto, solistas, maestro, sinfonia, etc. A boa vontade de aprender cultura da secretária não estava à altura daqueles termos.

Mônica Leal é filha de um dos políticos mais truculentos e involuntariamente cômicos de nosso estado. Seu pai, Pedro Américo Leal, foi certamente o coronel mais entusiasmado com a ditadura militar. Era ele quem costumava ir aos jornais e TVs para, sempre aos gritos, afirmar que não havia tortura, que a ditadura realizava milagres em todos os campos e conclamava os comunistas a saírem de sob seus colchões. Ouvi-o muitíssimas vezes. Ele não aceitava apartes, era uma patrola.

Com a finalidade de defender a memória de papai, Mônica Leal já tentou retirar do Memorial do Rio Grande do Sul o Acervo da Luta Contra a Ditadura, desmembrando-o entre outras instituições. Ora, esta documentação — que ao que eu saiba nem está catalogada –, deve conter o nome de Pedro Américo Leal por todo lado.

E agora, mesmo numa secretaria pobre, começam a aparecer denúncias contra Mônica Leal. Algumas liberações de verbas sem autorização do Conselho Estadual de Cultura foram respondidas pela filha de Pedro Américo Leal com denúncias à presidente do Conselho, Mariângela Grando, a qual promete reduzir Mônica a cinzas, mais ou menos como seu pai fazia ou desejava fazer com aqueles comunas — quase todos nós, que desaprovávamos a Ditadura e seus métodos. Enfim… Não… Há mais! Agora, Yeda e a amiga de mateado homologaram o cineasta (?) Henrique de Freitas Lima como jurado do concurso de curtas promovido pela secretaria. Este Henrique produziu 3 curtas de Mariângela Grando, mas hoje acusa a ex-parceira (que é, adivinhem, sua ex-esposa!) de ter colocado despesas pessoais — como multas de trânsito — na prestação de contas de seu filme: o rigorosamente péssimo “Concerto Campestre”… Etc. Acho que esse Henrique deveria ser preso pelo filme que fez, isso sim. Que coisinha ruim!

Bom, chega. Antes de voltar à programação normal do blog, quero dizer o seguinte: espero que toda essa lama não respingue na Feira do Livro que vai de 31 de outubro até 16 de novembro em Porto Alegre. E, tá, chega de baixaria.

Abaixo, a secretária da Cultura Mônica Leal em evento recente.

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