Uma mulher chamada Suruba

Pois é. O primeiro capítulo da grande novela das oito Uma mulher chamada Suruba foi escrito por Marconi Leal, o segundo por Ricardo Montero, o terceiro por mim e Serbão acaba de postar o quarto.

Como já estamos negociando com a Globo, anteveja e curta a verdadeira Obra em Progresso. Esqueça a daquele cantor que faz show com o censor Roberto Carlos. Fique na Suruba!

Um fim-de-semana e quatro filmes / Últimos filmes vistos

Uma das melhores idéias que tivemos foi a de nos associarmos ao Guion Cinemas. Pagamos uma anualidade e entramos “de graça” por um ano. Só neste final de semana, eu e minha mulher gastaríamos mais de cem reais em ingressos. Vimos quatro filmes:

A Questão Humana, de Nicolas Klotz: Apesar de escolher pessimamente seus atores, Klotz é bom diretor. Porém, A Questão Humana é um filme já visto e revisto. É mais uma abordagem européia à enorme culpa que aquele continente tem (ou teria) para com os judeus mortos na Segunda Guerra Mundial. Ora, eu tenho 51 anos e não agüento mais ver o mesmo final em off narrando um holocausto real que envergonha a humanidade, mas do qual já enchi o saco, ainda quando penso que o fato de exibir-se como vítima no Ocidente, deixa os judeus mais populares e livres para fazerem o que bem entendem com os palestinos. Não sou anti-semita, mas aposto que conseguiria financiamento fácil se fosse cineasta e quisesse fazer um filme que denunciasse, por exemplo, os nazistas que tornaram-se fazendeiros na Patagônia. Israel não quer deixar de ser vítima de modo algum. O filme até propõe pequenas variações sobre a mesmice, mas é forçado — aquele psicólogo perturbado é de matar — e não convence.

Quando estou amando, de Xavier Giannoli: Show absoluto de Gerard Depardieu no papel de um decadente cantor de bailes. É incrível que ele tenha cantado todas as canções do filme, sempre com excelente desempenho. Que ator! Galanteador, ele conhece uma jovem corretora de imóveis pela qual se apaixona. Com este enredo de comédia romântica americana, Giannoli, Depardieu e a bela Cécile De France, chegam a um resultado mais dramático e realista do que suas congêneres. Vale a pena ver o trabalho inacreditável de Depardieu, inteiramente à vontade como cantor.

Ao Entardecer, de Lajos Koltai: Um super-elenco — Claire Danes, Vanessa Redgrave, Meryl Streep, Glenn Close, Toni Collette, Natasha Richardson… — num filme que me tocou especialmente por minha experiência com minha mãe, vítima de doença semelhante a que sofre a personagem de Vanessa Redgrave, Ann Grant. É um filme antiquado, muito competente e sensível, com ação no presente (enfermidade de Redgrave) e nos anos 50 (em que Redgrave é vivida por uma irrepreensível Claire Danes). Curiosidade: a atriz Mamie Gummer, que faz o papel de Lila nos anos 50, tem Meryl Streep, sua mãe, como Lila no presente. As cenas dos delírios de Ann Grant velha são maravilhosas e absolutamente realistas. Minha mãe também fala em alguns Harris — o grande amor de Ann — e em bailes do passado. Levemente irritante a presença de Toni Collette no elenco, muito parecida de rosto e nas atitudes com Suélen (ou seria Pâmela?).

Quem disse que é fácil?, de Juan Taratuto: Um homem solteiro, certinho e obsessivo aluga imóvel para uma bonita fotógrafa que não faz a mínima idéia nem de quem seria o pai da criança que carrega na barriga. Filme agradável, que traz Carolina Pelleritti, tão bonita que poderia figurar num Porque hoje é sábado. Destaque para o surpreendente realismo das discussões do casal.

Abaixo, a lista dos últimos filmes que vi.

43 - No Such Thing - No Such Thing - 2001 - EUA - Hal Hartley - 5
42 - Quem disse que é fácil? - ¿Quién dice que es fácil? - 2007 - Argentina / Espanha - Juan Taratuto - 3
41 - Ao Entardecer - Evening - 2007 - EUA / Alemanha - Lajos Koltai - 4
40 - Quando estou amando - Quand j`étais chanteur - 2006 - França - Xavier Giannoli - 3
39 - A Questão Humana - La Question Humaine - 2007 - França - Nicolas Klotz - 1
38 - O Balão Vermelho / O Cavalo Branco - Le Balon Rouge / Crin Blanc: Le Cheval Sauvage - 1956 / 1953 - França - Albert Lamorisse - 4
37 - Meu irmão é filho único - Mio fratello è figlio único - 2007 - Itália - Daniele Luchetti - 4
36 - Amar… Não tem preço - Hors de prix - 2008 - França - Pierre Salvadori - 1
35 - Batman - O Cavaleiro das Trevas - The Dark Knight - 2008 - EUA - Christopher Nolan - 2
34 - Do Outro Lado - Auf der anderen Seite - 2006 - Alemanha / Turquia - Faith Akin - 4
33 - Antes que o diabo saiba que você está morto - Before the devil knows you´re dead - 2007 - EUA - Sydney Lumet - 4
32 - O Banheiro do Papa - El Baño del Papa - 2007 - Uruguai / Brasil / França - Enrique Fernández e César Charlone - 4
31 - O Labirinto do Fauno - El Laberinto del Fauno - 2006 - Espanha / EUA / México - Guillermo del Toro - 3
30 - Jornada da Alma - Prendimi L`Anima - 2003 - França / Itália - Roberto Faenza - 4
29 - Bella - Bella - 2006 - México / EUA - Alejandro Gomez Monteverde - 3
28 - Control - Control - 2007 - Inglaterra - Anton Corbijn - 4
27 - Longe dela - Away from her - 2006 - Canadá - Sarah Polley - 3
26 - A Outra - The Other Boleyn Girl - 2008 - Grã-Bretanha - Justin Chadwick - 2
25 - Sex and the City - Sex and the City - 2008 - EUA - Michael Patrick King - 3
24 - Bloom - Bloom - 2003 - Irlanda - Sean Walsh - 3
23 - Confiança - Trust - 1990 - EUA / Inglaterra - Hal Hartley - 4
22 - A Vida é um Milagre - Zivot je cudo - 2004 - Bósnia / França - Emir Kusturica - 5

Significado aproximado das notas:

5 - Não deixe de ver
4 - Muito bom
3 - Vale a tentativa
2 - Medí­ocre
1 - Uma bomba
0 - Além de bomba, mal intencionado.

Porque hoje é sábado, Jean Seberg

O blog anda demonstrando alguma predileção pelas mulheres de vida trágica.

Americana nascida em 1938, Jean Seberg radicou-se definitivamente na França aos 19 anos.

Sua imagem foi imortalizada em Acossado (originalmente À Bout de Souffle ou Breathless nos EUA) de 1959.

Jean-Luc Godard (diretor) e François Truffaut (co-roteirista) talvez jamais tenham imaginado um physique du rôle tão perfeito para o filme.

Patricia, a americana vendedora de jornais que caminha pelos Champs-Elysées, sendo cortejada …

… pelo ladrão de carros Michael Poiccaard (Jean-Paul Belmondo), é uma imagem que significa cinema.

Porém a hiper-sensível Jean Seberg, logo após um filme de razoável sucesso, Bom Dia, Tristeza, …

… passou a colecionar fracassos e a enfileirar crises de depressão. Fez mais de 20 filmes, …

… porém seu final trágico anunciou-se pela morte de uma filha aos dois dias de vida e por seus livros, …

… um sobre esquizofrenia, chamado Blue Jean, e outro que ensinava a como cometer suicídio: …

How to Escape Oneself (Como Escapar de Si Mesmo), o que ela acabou efetivamente conseguindo.

Belíssima atriz que não obteve a enorme repercussão artística de Jeanne Moreau, …

… nem a física de Brigitte Bardot, é hoje bastante cultuada e comparada pelos americanos a …

… Scarlett Johansson, inclusive na predileção que esta demonstra pela Europa.

Foi casada e feliz por algum tempo com o escritor Romain Gary — do qual li um livro que achei bastante chato…

Com o fracasso deste casamento, entrou em sua maior crise depressiva. Depois de uma tentativa no metrô de Paris, …

… Jean Seberg foi encontrada morta em seu carro, devido a uma superdose de barbitúricos.

Jean Seberg foi a estrela de um filme que revolucionou a maneira de fazer cinema. Talvez por desconhecer a gramática cinematográfica, …

… Godard desobedeceu as regras vigentes a ponto de Belmondo virar-se para a câmera e dizer diretamente para o espectador, em francês: …

… “Vá se Foder”. Deve ter sido isso o que Jean quis dizer a todos nós ao matar-se em 1979, aos 40 anos.

Sarah Palin, vice de John McCain pelo Partido Republicano

Não é uma montagem, OK? Encontrei no Sergio Leo. E ele buscou aqui.

A governadora do Alaska gosta de caçar tudo o que se mexe, é a favor da abstinência sexual, contra a educação sexual e tem uma filha de 17 anos grávida. Uma flor de pessoa.

O Dia do Clássico Desconhecido

Uma vez, o Alex Castro publicou um post assim:

Todo leitor que se preza tem o seu clássico desconhecido, aquele livro ou autor que ele adora, que ele considera um clássico da humanidade mas que, infelizmente, raios!, o resto da humanidade solenemente ignora.

Que tal então criarmos o Dia do Clássico Desconhecido?

Comecem a pensar.

Não, não pensei muito. Hoje, ao chegar em casa, peguei a escada e procurei, a partir da letra A, os livros de que gosto muito e sobre os quais o mundo silencia. Encontrei muitos e o pedido do Alex por um livro receberá como resposta uma lista. A “santa” tarefa de resgate de minhas obras-primas pessoais não tomou-me muito tempo e é uma lista arbitrária que só vai de A a M, pois me apavorei com o número de livros sobre a mesa quando retirei da estante as folhas de papel A4 que formam a 19ª obra. Os de M a Z virão depois, sei lá quando, talvez em 17 de outubro de 2006. Meu critério é o descritério. Por exemplo, deixei de fora Hamsun, por considerá-lo “famoso demais” e incluí George Eliot. Vá entender. Alguns dos insuficientes textos explicativos que acompanham cada obra foram retirados de orelhas dos livros; outros, de obras sobre literatura; porém a maioria saiu perigosamente de minha cabeça.

1. O Homem Amoroso, de Luiz Antonio Assis Brasil. Mercado Aberto, 1986, 118 p.: O elegante Assis Brasil, ex-violoncelista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sai do sério ao compor de forma irônica e naturalista esta novela que descreve as vivências de um músico erudito gaúcho, durante o “milagre brasileiro” dos anos 70 e seu neo-ufanismo. Para encontrar, só em sebos.

2. Extinção, de Thomas Bernhard. Companhia das Letras, 2000, 476 p.: Bernhard talvez venha a tornar-se inevitavelmente um clássico, se já não o é. É um enorme romancista e dramaturgo austríaco que costuma despejar seu ódio contra a pequena burguesia e os intelectuais de seu país. Destaco a notável descrição de sua família, realizada em duzentas paginas, enquando o narrador observa uma (apenas uma) foto que retrata, se não me engano, apenas duas ou três pessoas. Livro novo, fácil de achar.

3. Noturno do Chile, de Roberto Bolaño. Companhia das Letras, 2004, 118 p.: O narrador, testemunha do tempo que precede o assalto ao poder pelo general Pinochet e seus sequazes, repassa a sua vida num monólogo febril, reconstruindo dois momentos especiais da vida chilena - antes e depois do golpe. Este narrador, Lacroix, é um religioso ainda aferrado aos dogmas da Igreja, que não dispensa a sua batina surrada, usando-a como se fosse uma bandeira. Fácil de achar, assim como Os Detetives Selvagens.

4. Opiniones de un Payaso, de Heinrich Böll. Barral Editores, 1974, 244 p.: Hans Scheiner é um palhaço de circo que perde todos os seus bens durante o pós-guerra. Trata-se de um ateu muito propenso à melancolia e à monogamia. Mas seus problemas não terminam aí: sua mulher Maria o abandona por outro homem, um católico, com o qual se identifica. Por trás desta catástrofe emocional e material, pode-se ver um homem íntegro, que suporta sua queda com sarcasmo.Um grande livro. À venda na Internet por 16 Euros.

5. Fique Quieta, Por Favor, de Raymond Carver. Rocco, 1988, 240 p.: Grande contista americano homenageado por Robert Altman em Short Cuts . Este livro, assim como a coletânea Short Cuts, também da Rocco, é mais uma prova da boa influência de Tchékhov sobre a literatura atual. Vá ao sebo.

6. A História Maravilhosa de Peter Schlemihl, de Adelbert von Chamisso. Estação Liberdade, 1989, 111 p.: A história curiosíssima do homem que se vê marginalizado e perseguido após vender sua sombra ao Diabo. Até hoje a obra sofre todo o tipo de interpretações, mas o próprio autor nega a alegoria e critica aqueles que preocupam-se em saber o que significa a sombra. Este genial livrinho foi há pouco reeditado.

7. Uma Vida em Segredo, de Autran Dourado. Difel, 1977, 181 p.: Acanhada e deixando-se sempre levar pelas circunstâncias, a prima Biela é boazinha e vive conscientemente uma vida de renúncias. A comparação entre a prima Biela e a Felicité de Un Coeur Simple de Flaubert não obscurece a força da linguagem barroca do Autran Dourado em plena forma de 1964. Milhares de reedições.

8. Middlemarch, de George Eliot. Record, 1998, 877 p.: Desde Shakespeare e Jane Austen, ninguém criara personagens tão inesquecivelmente vivos. É o romance da vida frustrada de Dorothea, que casa-se com o pseudo-intelectual Causabon por um ideal de cultura e tenta desfazer seu casamento e refazer sua vida. O romance é um espetacular panorama das atividades e da moral de uma pequena cidade inglesa de 1830. Canta a tua aldeia e serás universal… George Eliot é o pseudônimo masculino de Mary Ann Evans. Só encontrável em sebos, parece-me.

9. Contos Completos, de Sergio Faraco. L&PM, 1995, 304 p.: Faraco é, disparado, o melhor contista vivo brasileiro e isto não é pouco. O livro foi reeditado no ano passado. Trata-se de um artesão tão econômico quanto rigoroso com as palavras. Sua capacidade de apresentar personagens com um grau de densidade psicológica inversamente proporcional à secura do ambiente, assim como sua maestria na invenção de enredos o tornam obrigatório. Recém relançado.

10. A Flor, a Carne, os Figos, de Heloísa Pedroso de Moraes Feltes, Educs, 1999, 91 p.: Um pequeno grande livro. São muitas pequenas histórias sobre mulheres no formato baudelairiano dos Pequenos Poemas em Prosa. Um biscoito fino e raro, pois duvido que alguém o encontre facilmente. Não leiam o prólogo do livro, onde alguém enxota os leitores ao falar em “retenção e protensão do conjunto de instantes” e em “essencializar” a palavra. Credo!

11. A Mulher do Tenente Francês, de John Fowles. Civilização Brasileira, 1971, 484 p.: Um romance espetacularmente moderno, sofisticado e bem escrito. Trata-se de uma história vitoriana contada e dissecada por um autor que está cem anos a frente dos fatos. O livro, além de narrar com muita emoção experiências humanas, é absolutamente vanguardista, chegando a propor três finais diferentes. O roteiro de sua versão para o cinema foi assinado pelo recente Nobel Harold Pinter. Vá ao sebo.

12. Homo Faber, de Max Frisch. Guanabara, 1986, 271 p.: A história do engenheiro Faber serve para discutir problemas de identidade e da resistência do indivíduo contra a sociedade industrializada. Quando lembro de um livro bom, este me vem imediatamente à cabeça. É uma farsa trágica que foi também levada para o cinema por Volker Schlöndorff. Sebo.

13. Poesia Erótica e Satírica, de Bernardo Guimarães. Imago, 1992, 198 p.: Pura diversão. São poemas escritos sob uma surpreendente perspectiva crítico-humorística-escatológica. Tudo isto em meio aos indianismos e subjetividades lacrimejantes do romantismo brasileiro. Sebo.

14. O Anão, de Pär Lagerkvist. Civilização Brasileira, 1970, 150 p.: O amoralismo político e o poder fascinam este anão de sessenta e seis centímetros que abomina as belezas da vida e odeia os homens, a paz e a concórdia. É uma poderosa alegoria escrito pelo Nobel de 1951, que descrevia-se como um crente sem fé ou um ateu imbuído de religião. Novamente, só em sebos.

15. Lady Macbeth de Mtsensk, de Nicolai Leskov. Bruguera, 1984, 158 p.: O imenso sucesso da ópera de Shostakovitch, baseada nesta novela de 1865, obscureceu o tremendo narrador que foi Leskov. A história, como o nome shakespereano indica, é um sem fim de assassinatos, mas vale cada segundo gasto. Fácil de comprar na Internet.

16. O Marcador de Página, de Sigismund Krzyzanowski. Ed. 34, 1997, 157 p.: Delicioso livro deste soviético de origem polonesa. Além do nome impenetrável, o autor não tem biografia muito conhecida. Suas histórias amalucadas e poéticas parecem livres-associações de um escritor caçando seus temas. Grande livro ainda encontrável por aí.

17. Brincando nos Campos do Senhor, de Peter Mathiessen. Companhia das Letras, 1991, 346 p.: Dois ingênuos missionários protestantes vão à Amazônia com a finalidade de converter os índios: um é fundamentalista, o outro tem dúvidas quanto a salvação os indígenas. Uma narrativa extremamente violenta sobre questões éticas e metafísicas. Esqueça o péssimo filme. Fora de catálogo.

18. La Balada del Café Triste, de Carson McCullers. Seix Barral, 1984, 140 p.: Um pequena novela da hoje esquecida McCullers. Um livro belo, estranho e desolador sobre pessoas que não conseguem relacionar-se. O tema principal do livro, o amor de Miss Amelia pelo primo Lymon é das coisas mais patéticas já li. Pode ser encontrado em qualquer língua, até em português lusitano. Penso que nunca foi publicado no Brasil.

19. As Confissões de Lúcio, de Fernando Monteiro. Editora Francis, 2006, 213 p.: Segundo volume sobre o escritor brasileiro Lúcio Graumann que, em 2001, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, mas morreu antes de conheer a Academia Sueca. O romance de Fernando Monteiro é uma análise da “obra” e da vida do escritor morto, tendo como pano de fundo a bisonha vida cultural brasileira.

Putas Assassinas, de Roberto Bolaño

Putas Assassinas é uma coletânea de contos publicada em 2001. É obra menor do grande Roberto Bolaño. Achei os contos muito desiguais. Uns são dignos de antologia, outros nem tanto. O Olho Silva, Últimos entardeceres na terra, Dias de 1978, Vagabundo na França e na Bélgica, Prefiguração de Lalo Cura, O retorno, Buba e talvez Dentista são excelentes. Já o restante… São cinco contos meio sem graça e oito bons. Bem, mas então o saldo não é mau! É que como os bons estão localizados no início, a impressão final é de insatisfação.

O melhor conto do livro é o de abertura: O Olho Silva. Li-o em voz alta para minha mulher e filho e a impressão causada foi devastadora. O conto que dá título ao livro é bastante ruim; Dias de 1978 é inesquecível e possui em seu cerne uma arrepiante e inusitada descrição do filme Andrei Rublev, de Andrei Tarkóvski (o nome do filme nunca é dito pelo personagem que o descreve); Últimos entardeceres na terra é fortemente autobiográfico, assim como Vagabundo na França e na Bélgica. Buba é futebolístico e ótimo.

Acho que vale a pena ler se você já tiver lido o merecidamente cultuado Os detetives selvagens e a impecável novela Noturno do Chile.

A Mudança, o Novo, o Nada e a ideologia

Prezado eleitor.

Talvez seja ocioso informar que você não deve perder tempo com a propaganda eleitoral. Como a maior parte dos candidatos não é prefeito nem vereador, eles defendem desesperadamente a Mudança. A Mudança é uma entidade pra lá de rarefeita ou, por outro modo, é uma palavra-mala, pois cabe tudo nela.

Lewis Carroll criou a palavra-valise que consiste em fazer uma terceira palavra aglutinando duas, com o significado de ambas. Exemplos: aborrescente = aborrecimento + adolescente; portunhol = português + espanhol; etc. Pois Milton Ribeiro acaba de criar a palavra-mala. Como sou muito mais limitado que Carroll, explico que minha criação é grosseira: trata-se simplesmente de uma palavra que aceita qualquer significado ou, melhor dizendo, aceita o significado que o ouvinte ou expectador deseja ouvir. É rarefeita em significado e pesada pelas atribuições que recebe.

Então, todos os candidatos ao cargo de prefeito de Porto Alegre querem a Mudança e o atual prefeito quer a reeleição “para continuar Mudando” (tal expressão faz parte de sua propaganda). Pelo visto, nosso prefeito prefere ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião que não representa o Novo, a segunda palavra mais utilizada.

Em nossa propaganda eleitoral, o Novo é substantivo. Eu sou o Novo, Fulano representa o Novo. Nenhum deles têm história ou dará continuidade a algo que esteja “em processo”, outra expressão da moda. Se Isaac Newton fosse candidato a algum cargo, jamais poderia dizer sua frase mais famosa: “If I have seen further it is by standing on the shoulders of Giants” (Se eu vi mais longe, foi por estar em pé sobre ombros de gigantes). Imaginem! Se a cultura é de descarte e de terra arrasada, concluo que não temos história, nem gigantes onde subir e não sabemos como estes candidatos chegaram aqui. Todos consideram que o velho não serve ou, ao menos, que pouco dele merece ser continuado. Apenas o atual prefeito — a citada metamorfose ambulante — fala em preservar o que está bom e somente o que está bom; enquanto os outros propugnam a destruição total.

Obviamente, a terceira palavra é Nada. Todos os políticos que foram eleitos até 2008 fizeram “Nada”. Este é um erro absoluto, pois acho que os políticos brasileiros fazem de tudo e até demais. Fazem tanto que alguns não têm tempo de nos explicar como compram suas casas. São ativos que é uma loucura.

Neste discurso, não cabe a ideologia. Todos têm idéias novas. Mas todos vão aos mesmos jornais, todos dão a mesma série de entrevistas, todos exibem-se em programas semelhantes e todos fazem vênia à Mudança e ao Novo. O Nada é aquilo que os distingue, além da falta de ideologia. A candidata Maria do Rosário (PT) deverá receber meu voto para prefeita de Porto Alegre, mas não deixo de ser muito crítico em relação a ela. Escolho-a por descarte. Após as pesquisas indicarem sua queda para a terceira posição, ela teve uma visão que faria a alegria de Isaac Newton: está na hora de mostrar que nossa candidatura é de esquerda. Eu caí na risada quando li. Não sei se foi um raciocínio difícil para ela, nem se seus publicitários permitirão que ela diga que tem ideologia, mas saúdo a BRILHANTE CONCLUSÃO a que chegou!

Ele deve ter visto que fora ultrapassada pela candidata que realmente representa o Novo: Manuela D`Ávila (PC do B). Ora, Manu tem 27 anos, é bonita e mais nova do que a quarentona Maria. É tão jovem que mal articula idéias. Como Freud é meu conhecido e faz parte da história, creio que todos que fazem a apologia do Novo, fazem propaganda subliminar da mocinha de um partido que, curiosamente, possui apenas história e tem por trás um outro maior — o do ex-governador Antônio Britto (PPS), um dos políticos com mais histórias neste estado. Manu está sobre os ombros de gigantes, mas não deve olhar muito para baixo, pois poderia assustar-se e cair.

É notável que Maria do Rosário esteja num partido que recentemente mandou na prefeitura por 16 anos e cujo bom trabalho foi apenas piorado pela metamorfose ambulante. É incrível que ela também invista na palavra Novo, desconsiderando que poderia subir nos ombros de uma seqüência de realizações que, se não representam gigantes, são maiores do que o discurso vazio e igual que utiliza hoje.

Talvez suas intenções de alterar o discurso não cheguem a lugar nenhum. Talvez os publicitários que regem a campanha lhe digam que a palavra ideologia irá chegar ao eleitor como Bobagem. Não me surpreenderia. Se já sinto incomparável solidão em algumas áreas culturais, minha cidade seria apenas um ponto a mais a ser contabilizado para a Vulgaridade Triunfante. Não seria a maior das perdas.

Para terminar este texto confuso, digo que não estou me queixando. Sempre fui pouco atuante politicamente e nunca estive preocupadíssimo com uma eleição. Meu espírito é de estranheza ao contexto. Constato que não tenho desejo autêntico sequer de me informar. Esta eleição não parece dirigir-se a mim, não é minha e não parece dizer respeito a minha pessoa, nem a minha cidade. Os marqueteiros não me dizem nada. Isso mesmo: a eleição é um problema de marketing; a escolha assemelha-se a comprar Coca ou Pepsi-cola, Renault ou Ford, Dell ou HP.

José Saramago ao final de Ensaio sobre a Cegueira

Sonho eroticômico

Marquei um blind date na Internet e estava chegando ao local combinado. Tal encontro seria ao meio-dia no Clube Jangadeiros de Porto Alegre. Quem conhece, sabe que este clube náutico fica numa ilha onde se chega de carro, pois há uma pequena ponte que faz a ligação. Temendo ser recebido por alguém que fosse uma mistura de Aracy de Almeida com Carlos Menem, atravessei a ponte a pé. Meu trabalho seria o de encontrar um EcoSport vermelho e bater em seu vidro, atrás do qual deveria estar minha surpresa. Vi o carro, fiz o combinado e saiu de lá uma morena baixinha que poderia figurar na capa da Playboy. Caminhamos juntos e, sei lá por quê, entramos em assuntos filosóficos — tais como nossa posição e papel no mundo –, sisudos e assexuados, enquanto observava obliquamente algumas interessantes protuberâncias. Depois de almoçarmos, ela me convidou para passear pelo Guaíba de barco. Ela tinha o seu atracado no clube. Fomos, eu e minha pin-up erudita. Pensava difusamente em algo de ordem sexual, mas estava mais atento a nossa conversa, que agora analisava a troca de focos narrativos nos romances de Paul Auster. Ela me levou a um local afastado, muito parecido com a paisagem que se vê nas praias adjacentes à Angra dos Reis, apesar de estarmos navegando no Guaíba. Então ouvi sua voz dizer que ficaríamos ali por um tempo, que a paisagem era belíssima e que eu tinha passado no teste. Como? Passaste no teste, meu amigo; agora vais mudar de fase. Dito isto, ela enganchou uma âncora preta e dourada com o dedo mínimo e, num gesto incrivelmente feminino e sem nunca deixar de me encarar, largou-a na água. (Os problemas técnicos associados ao peso tamanho da âncora não foram considerados.) Completou a obra dizendo: estás em minhas mãos; a partir de agora, és minha cobaia. Maravilhoso. Descemos para o quartinho de baixo (o nome técnico daquilo eu não sei). A cama era muito pequena - imagino que tinha 1m50 de comprimento por 50 cm de largura - e a operacionalização do ato era complicada. Depois de prolongados beijos e desnudamentos em pé, decidimos deitar silenciosa e apaixonadamente. A muito custo, consegui encaixar a cabeça e o tronco da pequena e desejada desconhecida no exíguo espaço e ergui-lhe as pernas, enquanto ficava com as minhas fora da cama. Então, finalmente, consegui a penetração. Aí, bem neste ponto, acordei.

Tentei desesperadamente voltar ao sonho, mas o despertador do celular tocou. Apelei para a opção “Soneca” (quem deu este nome imbecil àquilo?), mas, 10 segundos depois, a Claudia me beijou e perguntou se eu aceitava um croissant e um copo de leite.

Porque hoje é sábado, Maria Grazia Cucinotta

Eu gosto tanto de seios que tenho certeza que os de minha mãe vertiam Baileys.

Só pode, né? Tudo bem, eu olho o rosto primeiro.

Mas a segunda examinada é no porte, no formato, na beleza da maravilhosa glândula…

… que nos mantêm quando pequenos e fazem a alegria de nossas mãos e corações adultos.

Como se não bastasse, é um órgão que possui vida própria.

Experimente chegar bem perto da aréola a que você tem acesso e diga baixinho, sussurrante, …

… de forma que seu hálito se choque contra o maravilhoso objetivo: “Luz alta!”.

E ele obedecerá. Ficará primeiro enrugado e depois se tornará um botão, iluminando o recinto.

Tudo isso poderá ocorrer sem autorização da dona, talvez irritada, pois algumas não conseguem …

… sentir-se sexy através do humor, apenas através de atenção séria e concentrada.

Maria Grazia Cuccinotta é uma italianuda da Sicília, portadora de belas glândulas mamárias.

A mim não interessa se são siliconadas. Há belos seios de quaisquer tamanhos e consistências.

Saúdo-os a todos, sem o menor preconceito. Há as belas maçãs aerodinâmicas de Carol Castro …

… — música de câmara repelida pela Igreja Católica, que parece preferir a pedofilia — …

… e aquelas que impressionam pela generosidade sinfônica de mil trombones.

Cucinotta! Todos os carteiros e poetas de Messina te anunciam e desejam.

Nós também.

O Gre-Nal mais legal de todos os tempos

Olha, o jogo foi uma porcaria. Mas a briga… Deixa eu contar para vocês. Era a manhã do dia 20 de abril de 1969. Eu tinha 11 anos e aquele já seria meu quarto jogo no Beira-rio, pois tinha visto Inter 2 x 1 Benfica (inauguração do estádio em 6 de abril), Brasil 2 x 1 Peru (inauguração dos refletores em 7 de abril) e Inter 4 x 0 Peñarol, todos jogos do Festival de Inauguração do novo estádio. É importante é começar dizendo que AQUELE ERA OUTRO MUNDO.

Imaginem o seguinte. Sempre que Grêmio ou Inter construíam um estádio, a glória acompanhava o crescimento do patrimônio. Não sei o motivo, mas o time de maior estádio vencia mais. O Grêmio era grande nos anos 20 com a Baixada. A partir dos anos 30, com a construção dos Eucaliptos, formamos o Rolo Compressor que quase fez o Grêmio — sim, vá estudar! — fechar. Então veio o Olímpico em 1954 e, poucos anos depois, o Grêmio passou a ganhar tudo. Em 1969, amargávamos o seguinte retrospecto: dos últimos 13 Campeonatos Gaúchos, eles tinham ganhado 12.

Ou seja, havia a certeza de que o estádio era um fator fundamental. Hoje sabemos que a mística do estádio voltaria a funcionar a pleno naquele 1969 e nos anos 70. Estão atentos? Então: todo o esforço do Grêmio era para que o Inter não conseguisse o crescimento aguardado e nós tínhamos certeza que, com o Beira-rio, já éramos os melhores. Para piorar, o Inter, em 1954, fora inaugurar o Olímpico. E como inaugurou! Fizemos 6 x 2 e meu pai contava e recontava um dos gols que Larry marcara em tabela com Bodinho, dando gargalhadas. Porém, para piorar ainda mais, o goleiro que levara os seis gols em 1954 era o técnico do Grêmio em 1969, Sérgio Moacir Torres Nunes, aquele mesmo que quisera retirar seu time de campo a fim de evitar um fiasco na inauguração de 1954. Não deu certo. Sentiram as possibilidades de violência? Pois é. Mas há mais: o futebol naquela época era infinitamente mais violento do que o atual. Ah, duvidam? Então vejam, por exemplo, a carnificina que foi aquele Grêmio x Peñarol que tornou o tricolor campeão da Libertadores pela primeira vez. E já eram os anos 80. E era tudo normal. O cara era quase assassinado, o juiz marcava a falta e o jogo seguia.

Pois então fomos para o estádio. Dia chuvoso, horrível, estádio hiperlotado como não se faz mais. A torcida do Grêmio ocupava metade da geral e da arquibancada. É claro que não lembro de nada que não seja a briga. Tinha 11 anos. Aquilo foi demais! O jogo foi truncado e cheio de faltas; só sei que Hélio Pires — um rápido ponta-direita e centroavante que o Grêmio buscara no Novo Hamburgo –, já tinha sido expulso. Menos um para a briga final.

Então, aos 37 do segundo tempo, a bola foi mansamente em direção a Alberto, grande goleiro do Grêmio. Espinosa – ele mesmo – foi à trote proteger seu goleiro e Urruzmendi, um uruguaio ruim pra burro, correu em direção a Alberto como se fosse tirar-lhe a bola sabe-se lá como, talvez atentando contra a vida do calmo arqueiro, pois ela estava em suas mãos. Espinosa, que na época usava cabelos muito compridos e um bigode que envergonharia Olívio Dutra, fez a proteção. Foi bem na minha frente. Dizer que Urruzmendi atropelou Espinosa é uma redução. Se minha memória funciona um pouquinho, o uruguaio não apenas não travou a corrida como estranhamente ergueu os dois cotovelos, atingindo a cabeça de Espinosa por trás. O ex-técnico da Portuguesa decolou, mas só por uns 4 metros, muito menos do que a Maurren Maggi é capaz sem auxílio de nenhum homem. Claro, eu achei bacana. Afinal, os gremistas estavam lá ou para perder ou para apanhar, e já que não perdiam… Era o espírito da época! A reação veio por Tupãzinho, um excelente atacante comprado ao Palmeiras. Ele conjeturou se aquilo não ultrapassava o aceitável e por fim concluiu que Urruzmendi já vivera o suficiente.

Bom, o que veio a seguir, hahahahahahaha, só por fotos e por um antológico filminho de 8 segundos. Foi a mais bela batalha campal que vi. Acho que as guerras no passado deviam ser daquele jeito. Talvez algumas guerras napoleônicas tenham terminado no corpo a corpo, quando não havia mais pólvora. Lindo aquilo. Eu pulava de alegria. Todos pulavam de alegria. Estávamos no Coliseu. Olha, o juiz expulsou TODOS os jogadores, exceto Dorinho (Inter) e Alberto (Grêmio). No dia seguinte, torcedores de ambos os times chamavam os dois de bichas. Tinha que brigar, pô!

As fotos são sublimes, vejam abaixo:


Candidamente — notem o sorriso –, Sadi observa seu pé procurar a cabeça (ou o pescoço) de Alcindo no chão.


Gainete sentado com Alcindo no colo. Parece que o Bugre está tomando uns tapinhas na bunda. Baixaria.


Dorinho não foi expulso, mas o que faz no meio da confusão, com a camisa dez colorada? Foge? Não me parece.


Flagrante do tranqüilo Alberto aconselhando a Urruzmendi e Alcindo: “Muita calma nessa hora”… Vejam o detalhe da mão do goleiro, pedindo: “Parem, meninos”.


Um raro filminho. Espetacular voadora de Gainete. Uma coisa é dar a voadora, outra é planejar onde cair…

A refrega ocorreu aos 37 do segundo tempo e, serenados os ânimos (hahahahaha), o Inter queria seguir jogando. Até hoje, fico pensando se o plano colorado era fazer um enfrentamento individual entre Dorinho e Alberto…

No dia seguinte, TODOS os gremistas diziam que seus pupilos tinham batido a valer nos colorados e TODOS nós dizíamos o mesmo em sentido contrário. Céus, que idiotice! Passamos anos falando e discutindo e brigando sobre aquele jogo.

Ficha técnica da arruaça:

Internacional 0 x 0 Grêmio
Data: 20/04/1969
Local: Estádio Beira-Rio
Arbitragem: Orion Satter de Mello
Internacional: Carlos Gainete Filho; Laurício, Pontes (este era Bibiano, irmão da célebre dupla de zaga João e Daison Pontes, representantes máximos da ultra-violência no interior gaúcho), Valmir Louruz e Sadi Schwerdt; Tovar e Dorinho; Valdomiro Vaz Franco, Bráulio, Sérgio e Gilson Porto (Urruzmendi).

Grêmio: Alberto; Valdir Espinosa, Ari Ercílio, Áureo e Everaldo Marques da Silva; Jadir e Sérgio Lopes (Cléo); Hélio Pires, João Severiano, Alcindo Marta de Freitas e Volmir (Tupãzinho).

Observações finais:

1) Saldo: nenhum morto, mas penso que Sadi Schwerdt guarda seqüelas até hoje.
2) Em negrito estão as figuras mais famosas das tropas.

P.S.- Que pecado, o Tite DEVIA ter participado disso, né? Só para apanhar.

El común olvido, de Sylvia Molloy

Vou começar pelo final: este livro, indicado a mim por Idelber Avelar, é uma obra-prima e está pedindo desesperadamente um tradutor como Eduardo Brandão ou como minha amiga Simone Vey.

É comum nos grandes romances a dificuldade para se dizer qual é exatamente seu tema. Por exemplo, Os Irmãos Karamázovi é um romance policial - um whodunit que pergunta “Quem matou o velho Fiódor?” – mas também é um livro filosófico – “A Parábola do Grande Inquisidor” -, religioso, um estudo de costumes e é tudo isso e mais, pois os grandes romances são representações tão perfeitas de suas situações que tornam-se símbolos que diferem de leitor para leitor, o qual passa a vê-lo a partir da perspectiva que lhe dá sua experiência e cognição. El común olvido é um romance moderníssimo. Não nos apresenta um labirinto de alegorias e metáforas de difícil interpretação, porém, sendo tão bom, verossímil e de penetração psicológica tão intensa, torna-se inevitavelmente símbolo.

El común olvido é narrado na primeira pessoa por Daniel e inicia-se com sua chegada ao Aeroporto de Ezeiza com as cinzas de sua mãe. Ele tinha emigrado para os Estados Unidos ainda criança, logo após a separação dos pais, acompanhado da mãe. Poucas vezes retornara à Argentina e o pai já morrera há anos. Lentamente, Daniel fala de si, de sua profissão de tradutor, da tese que escreve, mas o foco vai pouco a pouco apontando para o mundo externo. Podemos pensar que teremos um “Em busca da mãe perdida”, mas na verdade o que teremos será uma arrebatadora demonstração dos enganos de nossa memória, levada com virtuosismo pela autora. John Fowles escreveu que douramos ou pioramos nosso passado e o colocamos em nossa estande de forma a apresentá-lo quando solicitado. Daniel também tem sua brochura colocada na estante, só que esta vai sendo corroída, distorcida, alterada e até tornada a antítese do que era, quando comparada com o que passa a saber. Talvez como símbolo desta destruição, Daniel perde as cinzas de sua mãe antes de jogá-las no rio da Prata.

Naquele momento da leitura, cheguei a pensar que o livro teria alguma trama policial com este MacGuffin no centro, mas a perda das cinzas maternas apenas aumenta a angústia – verdadeiro fio condutor da história – de Daniel, que segue completando as lacunas de um cenário que não mais existe e que não é nem um pouco parecido com sua brochura. Aparecem novos fragmentos, novas relações, novos personagens, novos e tão surpreendentes fatos que Daniel acaba por ver sua antiga identidade esvaindo-se. Sylvia Molloy trabalha tão bem a perda da identidade que tive a impressão de sentir fisicamente o vazio inteiramente sem lastro onde Daniel estava entrando. Cada item que é acrescentado ou retificado em sua memória, cada acontecimento, — a sexualidade da mãe, o acidente de carro, as brigas com o pai, a apresentação de Charlotte, o afastamento de Simón — torna impossível o retorno a sua vida anterior. As lacunas –- as que foram preenchidas, pois sabemos que há muitas mais — são preenchidas pela autora com a mesma lentidão e tranqüilidade com que Kafka comprazia-se (ou parecia comprazer-se) de nos mostrar coisas que nos pareciam verdadeiros horrores, não por si, mas pelo deslocamento a que sua aceitação nos obrigava. É importante dizer que Molloy tem de Kafka apenas a característica de ser imperturbável, pois seu humor e elegantes anedotas são tipicamente platinas.

Como escreveu Alejandra Josiowicz, o tempo e as eventualidades parecem rir-se da intenção ratificadora de Daniel. O contexto humano conspira contra a ordem que ele pretende impor à história, formando um quadro paranóico, do qual talvez seja melhor fugir. Ou nunca abandonar.

Leitura e tradução obrigatórias. E, notem, o livro é de 2002.

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