Rascunho de meu pai
Ele não pertencia ao Departamento de Preocupações e freqüentemente licenciava-se do de Sustento. Em nossa casa e em todos os lugares onde ia, suas funções estavam mais ligadas ao Ministério do Lazer, Jogos e Cultura, sem esquecer as Relações Públicas. Não posso imaginar coisa melhor para uma criança do que um pai sempre presente, brincalhão e meio irresponsável. Desde muito pequeno tive contato com os dois lados do Dr. Milton Cardoso Ribeiro - o pai adorável e o apostador do turfe. Meu pai e minha mãe eram dentistas em uma época em que os bons profissionais desta área faturavam o que todos nós deverÃamos faturar sempre. Só que meu pai direcionava grande parte de seus ganhos para o Jockey Club. Minha mãe ficava maluca com isto, mas para mim, que não conhecia outra famÃlia, era algo tão normal que suas reclamações eram como a música incidental sob a qual vivÃamos tranqüilamente. E esta trilha não poderia ser mesmo muito tonitruante, pois meu pai era alguém tão doce que era difÃcil brigar com ele.
Nasceu em 17 de fevereiro de 1927 e morreu em 11 de dezembro de 1993. Sinto enormemente sua falta. Ele certamente ficaria encantado com esta novidade tecnológica em que você me lê e que o faria saber de tudo rapidamente. Sua Internet eram os muitos jornais dos quais não se separava e o chatÃssimo rádio de pilha que usava sempre para ouvir notÃcias e a metereologia. Algumas vezes suas manias tornavam-se incontroláveis, como naquele caso ocorrido em pleno casamento de minha irmã: durante a festa, organizada num dos hotéis mais chiques de Porto Alegre, um amigo da Iracema chegou-se para dizer-lhe que um convidado — certamente desinteressado na festa — estava escondido no recinto da privada, ouvindo os páreos num radinho de pilha. Minha irmã voltou-se rindo para o amigo e disse-lhe: “Deve ser meu pai!”.
Não lembro de grandes brigas ou discussões com ele. Lembro é das disputas. Seu perfil de apostador adequava-se perfeitamente a elas. Eu e ele tÃnhamos um jogo que durou de minha adolescência até sua morte. Toda a vez que ligavávamos na Rádio da Universidade — especializada em música erudita –, tratávamos de identificar o mais rapidamente possÃvel qual era a música que estava sendo executada. Isto podia acontecer várias vezes ao dia. Com isto, sou, até hoje, supertreinado em descobrir tudo o que de clássico toca no rádio. Hoje mesmo liguei o rádio e disse rapidamente, para mim mesmo: “Sarabanda da Suite Nº 2 da Música Aquática de Handel”. Acertei.
Quando eu tinha menos de 13 anos, nos dedicávamos - sempre antes de dormir - à atividade de imaginar histórias para a música que estivéssemos ouvindo. Lembro dos numerosos tuaregues que acompanhavam o Bolero de Ravel… dos prelúdios lÃquidos e cheios de peixes de Chopin… dos concertos atléticos de Bach… das incrÃveis histórias de terror que acompanhavam o Concerto Nº1 para piano e orquestra de Brahms… É desnecessário dizer que meu pai amava a música. Qualquer música. Colocava Mozart e Noel no mesmo patamar e misturava na mesma noite eruditos e populares. Como pianista amador, chegou a compor e a dedicar a valsa “Férias de Julho” para mim e minha irmã.
Acho que meus pais se amavam. Lembro de gestos de carinho num e noutro sentido. Minha mãe refere-se a ele como um homem que só tinha um só defeito (o já citado) e, quando ele morreu, disse-me que estava arrependida por ter recebido muito mais amor do que dera.

Meu filho Bernardo, eu e meu pai em 1993.
E… Imagina se eu não boto uma foto de minha filha Bárbara aqui. Ela me mata. Como não conheceu seu avô, pois nasceu em 1994, aqui vai uma comigo mesmo.

agosto 10th, 2008 às 0:35
“Lembro dos numerosos tuaregues que acompanhavam o Bolero de Ravel… dos prelúdios lÃquidos e cheios de peixes de Chopin… dos concertos atléticos de Bach… das incrÃveis histórias de terror que acompanhavam o Concerto Nº1 para piano e orquestra de Brahms… É desnecessário dizer que meu pai amava a música. Qualquer música.”
O que dizer mais?
agosto 10th, 2008 às 0:50
Milton, serei novamente “papai” entre Janeiro e Fevereiro de 2009! Minha mulher nunca esteve tão linda! Nunca nos amamos tanto!
Eu não sou digno desta dádiva da VIDA!
PS- você sabe que eu te amo meu AMIGO,não sabe?
agosto 10th, 2008 às 11:55
Bonita Homenagem Milton !
Feliz dia dos pais !
Abraços
agosto 10th, 2008 às 20:56
Que beleza Milton, quisera eu poder deixar uma marca como a tua no meu filho …
agosto 10th, 2008 às 21:20
Milton Ribeiro, você precisa deixar dessa mania de escrever textos bonitos que levam a gente às lágrimas, rapaz. Domingo à noite é lá hora de se emocionar?
agosto 10th, 2008 às 23:18
Pô, Ramiro, parabéns. Esta é uma das alegrias que gostaria de repetir, ao natural ou em adoção.
Obrigado, Crotti.
Dario, deixarás. Acho até que já ele já está marcado.
Marconi, muito obrigado. Ah, sobre o post anterior, providenciarei uma correção de rumos no próximo… Depois, volto à vaca fria.
agosto 11th, 2008 às 0:01
Milton, que lindo post! Que olhar generoso o teu para ele, provavelmente o mesmo dele para ti. Muito lindo isso tudo.
Mas linda mesmo é a bárbara, hein? Certa ela na exigência!
bj, Flávia
agosto 11th, 2008 às 11:26
Pensei no meu Pai tb, inevitável. Lembrei que após a sua morte eu sou o Pai da vez.
Nunca nos falamos muito, mas tÃnhamos algumas conexões, como o futebol. Talvez essa fosse nossa maior “desculpa” para conversar um com o outro.
Enfim, foi uma bela homenagem. Abs!
T§