O estado de espÃrito do dono do blog
Claro, este blog é a mistura de tudo o que passa por minha cabeça e de algumas coisas que ela recebe, mas quando passo por um perÃodo tenso a tendência é a de ele se torne mais e mais confessional. Só que desta vez a coisa tem doÃdo um pouco mais e até deitar pensar os problemas no blog tem sido mais complicado que consolador. Estou com lógicos e péssimos pressentimentos sobre o futuro de minha mãe. Doente há muito tempo e cada vez mais vivendo em seu mundo, piorou muito nos últimos dias, mesmo tendo saÃdo da UTI para uma zona chamada “Intermediária”.
Tenho a impressão de não estar nem irritado, nem deprimido, nem tenso, mas isto é falso, pois sei que poderia explodir à menor contrariedade. Fico meio abobalhado, olhando sem interesse as milhares de fotos que tenho no micro. Não há surpresa na situação; afinal, era o esperado para quem tem uma doença prima-irmã do Alzheimer (*), só que a constatação de que as doenças degenerativas são exatamente aquilo que as pessoas mais realistas me descreveram e que chegam a pontos solidamente injustos e desnecessários… Olha, é foda. Para que tanto sofrimento? Porém, ao passar por esta foto aqui…
… é impossÃvel não rir e desviar o pensamento, desejando saber o que Sean Connery diria dela hoje. Amanhã, mais hospital. Dr. Cláudio Costa ligou amiga e gentilmente de Belo Horizonte e eu lhe disse com a maior calma do mundo que, se realmente tivermos que somar à inconsciência da doença outras impossibilidades, melhor seria a eutanásia. Dia cansativo. Agradeço a meu psiquiatra preferido por ter me ligado. Foi um bom momento que só vi repetido agora, ao chegar em casa.
(*) Algum tipo de demência resultante de uma queda ocorrida há quase dois anos. Não há sentido em fazer uma biópsia a fim de descobrir o nome correto da doença, pois o pequeno leque de possibilidades que não mudaria o tratamento.

junho 17th, 2008 às 21:06
Milton,
Imagino como este momento deve estar sendo confuso.
Conte sempre com a torcida dos amigos.
Se não dá pra dar um abraço, fica um comentário sincero de quem, numa hora como essa não sabe exatamente o que dizer…
junho 17th, 2008 às 23:55
Milton, querido, obrigada por este post. Estou envolvida em situações difÃceis por aqui mas o pensamento e o peito se divide entre tantos afetos e tu és um deles. Queria muito saber como estás, mesmo sabendo que “bem” é impossÃvel nessas circunstâncias. Mas adoro ver que não perdes o bom humor! é assim que se faz! Muda de assunto à vontade, que também faz bem, mas continua mandando notÃcias, prá nós, por favor. A barra vai ser pesada, já é né? mas estamos aqui prá compartilhar textos, risos e pesos.
Em julho devo ir novamente a Porto Alegre, e aÃ, meu querido, pretendo vê-los de novo!
E nosso filhotinho como vai? Juno? Esqueci o nome?
beijo, Flávia
junho 18th, 2008 às 2:49
Milton:
Antes de morrer e antes de ficar demente de vez, minha mãe assinou seus desejos re. sua morte. Não queria ficar encostada em uma cama quatro anos, dando despesa. Era o que dizia e foi o que foi feito. Veio tão de repente, depois de umao onda de calor aqui. Já fazia tempo que era uma casca de si mesma.
Ela morreu dia 28/04. Fui operada da hidrocefalia mas não está dando certo. Esto perdendo de novo meu equilÃbrio fÃsico.
Só recentemente, talvez há uma semana, dei-me ao luxo de chorar pela minha mãe. Ela era danada mas era o meu norte.
– Aprenda a fechar o verbo fechar. É fecha a porta.
O fim é a única inexorabilidade da vida;; o “”have to”. O resto a gente não tem que nada. E encerro por aqui porque já estou de chororó.
junho 18th, 2008 às 11:18
Milton, meu pai sempre diz uma coisa que me conforta um pouquinho, só um pouquinho. Ele diz que é assim que tem que ser, essa é a ordem natural das coisas e é assim que a gente consegue sofrer um pouco menos. É dureza, mas conte com os amigos prá enfrentar estes momentos de não saber o que dizer e tudo que dizem prá gente não ajudar muito mesmo.
junho 18th, 2008 às 12:22
Sei como é. Dói, é verdade. Mas resistir e lutar fazem parte de nossa essência de vida. Força, mais uma vez, meu caro. Um abraço. Tudo de bom. Na medida do possÃvel. Ou do impossÃvel. Outro abraço.
junho 18th, 2008 às 13:08
Posso entender o q está passando
e lembre-se “aquilo que não mata fortalece”.
Sua mãe tem o destino dela é vc tem q respeitar isso
Força !Conte com sua amiga virtual
Um abraço forte
junho 18th, 2008 às 14:15
Nesse estado de coisas, assitir a Agente 86 pode ajudar um pouquinho mesmo. Mas espero sinceramente que você não precise passar por momentos como esse para desenterrar pérolas hilárias como essa foto re-dÃ-cula. Peço licença para inserir sua mãe (e, por tabela, você) nas minhas orações.
junho 18th, 2008 às 14:24
Alguém já dizia que, diante da morte, só mesmo o silêncio. Afinal, como falar do indizÃvel, da “coisa”, do Real que recusa qualquer fórmula simbolizadora? Mas somos humanos e, graças à linguagem, podemos fazer poemas, construir mausoléus ou catar conchinhas na areia. Não importa, cada um acha seu ‘jeito’ e la nave va… Talvez o chiste seja a melhor solução, esta que você encontrou. Já citei, alhures, um texto do velho Sigmund, onde relata o caso de um condenado à morte que, diante do guarda que lhe abre as portas da cela para levá-lo ao cadafalso, diz: -É, parece que não terei um dos melhores dias, hoje.
Um dia, cedo ou tarde, teremos de inventar uma piada. Por ora, vivamos.
junho 18th, 2008 às 14:44
Nossa, não há palavras que possam minimizar a dor dos últimos dias, ne? E para não me prolongar nisso aqui, só posso desejar muita força a vc!!! De todo o coração!!!
Que Deus lhe abençoe!!!
Grande beijo
junho 18th, 2008 às 15:52
Milton, o filme “Zardoz” é fraquinho; porém, a sequência final, sob um tema de Beethoven, marcou durante muito tempo o meu imaginário.
O incrÃvel é que tem tudo haver com o “tema” deste post: a passagem vida-morte-vida-morte…
Talvez, Milton, o teu inconsciente tenha escolhido a foto.
junho 18th, 2008 às 16:42
Aiaiai, Milton, o que podes ter no teu inconsciente para escolher essa foto! Nem revela, por favor! que medo!
Quem sabe dr. cláudio ajuda nisso? KKKKKKK
Olha tentei postar lá no outro comentário a informaçnao sobre meu anfitrião no sábado. Estranho, não deu! É o César Valente, conhece?
http://deolhonacapital.blogspot.com/
bj, f
(Ah, vou falar: eu queria que tu postasse uma foto do cachorrinho! Inventa uma justificativa inteligente, irônica ou qualquer coisa enobrecedora, desembregadora e posta, vai?)
junho 18th, 2008 às 17:54
É estranho como a internet nos faz aproximar das pessoas, mesmo sem as conhecer pessoalmente ou mais profundamente.
Sou só mais um leitor, só mais um visitante.
Mas, sinto-me numa vontade imensa de dizer:
Milton, força sempre!
junho 18th, 2008 às 19:27
Milton, meu caro, convivendo recentemente em situação semelhante (doença degenerativa da mãe da minha companheira), percebi como é difÃcil tentar dizer alguma coisa que seja diferente, que some na direção do necessário conforto, mas também descobri que a presença é o apoio fundamental. Sei que isto não é diferente com ninguém, não seria com você. Assim, considere sempre a minha presença em pensamento a lhe transmitir energias, as mais positivas. Há que se enfrentar tudo com a possÃvel compreensão. Forte abraço.
junho 18th, 2008 às 20:53
Flávia, não é a foto em si, mas o filme! Como sabemos: o Milton é um devorador de filmes. E a sequência final é sobre a morte ( sob uma marcha fúnebre de Beethoven).
Este foi o conteúdo do meu comentário.
Um beijo , Flávia.
junho 18th, 2008 às 21:42
” Mas somos humanos e, graças à linguagem, podemos fazer poemas, construir mausoléus ou catar conchinhas na areia.”
Cláudio, isso é duma verdade….!!!!!
Tina, se o sr Milton permitir, no próximo sábado , vou dedicar um poema pra você…
Um amado abraço, Tina!
junho 18th, 2008 às 21:48
Não mereço, Ramiro Conceição. Sinto-me coberta de lisonjas. Mas não mereço.
junho 18th, 2008 às 22:07
Tina, fazer Poesia é uma maneira de rezar… ao Desconhecido!
junho 19th, 2008 às 0:40
Abraço, camarada.
E paz.
junho 19th, 2008 às 11:07
Não pude deixar de lembrar de ti quando li isso hoje em ZH.
“Yeda faz discurso forte e defende reajuste do próprio salário
Na posse da diretoria da Famurs, governadora falou sobre a crise no governo”
Acho que deve desanimar mais teu estado de espÃrito ou te provocar algumas risadas, risadas febris, nervosas, aborrecidas, mas risadas.
T§
junho 19th, 2008 às 15:51
Eu entendi muito bem, Ramiro! Estava só implicando com o Milton!
Vc sabe com quem está falando?
Meu nome é implicância! (pagação no pé, para os Ãntimos)
Sabe o que que é? ele tem poucos problemas. Eu também! Então preciso encher um pouco o saco, prá movimentar um pouco as coisas, sabe?
bj, Flávia
junho 19th, 2008 às 15:54
Flávia, sua chata, gosto muito de ti.
junho 19th, 2008 às 15:55
Ramiro, essa tua resposta para a tina me lembrou um poema que evoca um momento muito doloroso da minha vida, um plantão com os olhos colados numa janela de UTI. (Licença, meu branco?)
Se querer abusar e já abusando do meu branco:
Dor
Quando ele se machucou
Meu mundo se partiu:
a vida paralisada,
suspensa no medo e na dor
Me vi afogada em pranto agudo, lancinante
Mais que o conhecido demônio a enterrar
agulhas de aço em meu crânio doÃdo,
era um mastro gigantesco
transpassando o meu peito
(e como é difÃcil andar com um mastro preso ao peito)
E eu que não sei rezar
me vi rezando poesia
por que o que adoro que ti
lastima-me e consola-me
é a vida
junho 19th, 2008 às 15:59
bem, tinha uns itálicos demarcando as citações a dois poemas do Bandeira. sumiram aqui. feita a referência explicitamente agora.
E vc Milton, não vai me chamar de Irene?
bj, tua preta
junho 19th, 2008 às 17:12
pronto! não basta meus 3 filhos a me chamar de chata!
Milton: te amo! ( segura essa agora com a Cláudia! – Te vira!)
junho 20th, 2008 às 1:30
Milton
nos encontramos poucas vezes, mas sei que compartilhamos alguns amigos e a paixão pelo Inter. Lendo seu texto, percebi que também compartilhamos essa situação triste. Meu pai sofre de doença de Parkinson desde que o conheço. Agora, na fase final, está no hospital há meses, sem volta. Não há palavras que descrevam esse abismo. Só o que faço, todos os dias, é tentar lembrar o conselho do velho Blau: Alma forte, coração sereno.
junho 20th, 2008 às 11:18
Milton, mudando do saco prá mala, eu gostei desse filme (Zardoz). Tinha bastante mulher pelada (ou será que era só minha imaginação ?), o que numa época pré-internet e pré-playboy era uma dádiva.
junho 20th, 2008 às 13:11
Olá ! Sinto pela mãe querida.
Mas é isso mesmo que sentimos. O assoalho está cedendo. Perdemos o nosso ponto de referência.
Mãe-UTI não combinam. Fiquei com minha mãe na UTI, durante 52 dias, com uma doença imunodepressora desconhecida (não era AIDS). Medicações francesas, todo o professorado do HCFMUSP, desde o Drs. Marcos Boulos, Sergio Cimerman, Vicente Amato, etc. Um sofrimento imenso para as suas filhas. Mamãe não sofreu. Pedimos para sedá-la. Morreu em coma induzido. Ficamos nós.
junho 20th, 2008 às 21:08
Ô Milton
Esse é mesmo o carrossel de emoções, e como tal, sem lógica, sem a proteção de qualquer racionalização, é só literalmente dor e sofrimento, como a gente dizia. E eu nem me lembrava mais do tempo em que por qualquer coisa vinha com essa expressão.
Acho que é também um sinal de que a gente mudou de ligar numa fila que nem vÃamos, mas que estava aà - quando a gente passa prá linha de frente e vira quem mata no peito e tem que cuidar. Das pessoas que nos cuidavam, dos outros, das contas, dos pepinos, da saúde, dos filhos, do futuro, tanta coisa… Uma perda pequena e progressiva de alguém que já não está mas ainda é - isso não tem palavras para descrever ou para aliviar ou qualquer outra coisa. Um beijo prá ti e pra Iracema, ou como dizia minha vó e sua turma, a única frase que encaixa é: ‘ Eta mundo velho sem porteira…!” Bia
junho 24th, 2008 às 23:34
Ainda tenho pai e mãe vivos e isso me deixa muito feliz. Nunca irei me esquecer das palavras da mãe, quando meu avô morreu (minha avó faleceu primeiro): “sou uma órfã agora…”
A dor maior, penso eu, não vem da impotência frente a um estado de saúde que não tem volta na velhice, mas à perda da referência. É a origem que vai embora e a natureza a nos mostrar que seremos a próxima geração a morrer.
Talvez filhos que vivam longe dos pais por mais tempo saibam lidar melhor com a saudade, não sei.
Te deixo um abraço e a minha solidariedade em tempos tão nervosos.
junho 25th, 2008 às 11:26
Milton, à s vezes não adianta ficar esperando o pior cenário possÃvel. Talvez a decadência seja menos desastrosa que o previsto, e a morte, mais serena. E falo por experiência própria, a gente acaba se adaptando à s mais impensáveis situações. O importante é estar ao lado dela, dar carinho, e deixá-la o mais confortável possÃvel, dentro das circunstâncias.
bjs