Sonho com Abóboras
Obs.: Meu pai faleceu em 11 de dezembro de 1993.
Fui ao cemitério visitar o túmulo do meu pai, desconfiava de que ele tivesse sido enterrado vivo. Com aquela facilidade só encontrada nos sonhos, tirei o mármore, puxei o caixão e levei-o até o carro. Pus o caixão no porta-malas e fui embora - afinal de contas, queria olhar o conteúdo sozinho e com toda a calma.
Saí de Porto Alegre e fui até Guaíba, entrei na estrada para Pantano Grande e desci um barranco. Ali, escondido na beira da estrada, abri o caixão. Estava tudo direitinho. Meu pai estava ali, conservado, frio e… morto, tal como o vi pela última vez. Quando estava fechando o caixão, usando a lanterna, vi milhares de abóboras de todas as cores e formatos pelo chão. Aquilo era lindo e eu decidi levar algumas, digamos, centenas.
Comecei a encher os vãos do caixão com abóboras. Passei tanto tempo enchendo o caixão, que amanheceu. Tomado de susto e, com a lógica própria dos sonhos, resolvi livrar-me de tudo, pois não haveria como recolocar o caixão no lugar à luz do dia. Voltei a pôr o caixão no porta-malas e fui adiante. Dobrei à direita em Pantano e fui até Rio Pardo. Em Rio Pardo tem um riozinho, bem bonitinho até (talvez seja o Jacuí!) que serve aos habitantes da cidade para várias coisas. Fui até o rio, estacionei embaixo de uma ponte e tchum com o caixão. Ele ficou boiando, coisa inaceitável. Entrei no rio e voltei a abrir o caixão. Joguei água dentro dele a fim de que afundasse. Deu certo.
Quando fui embora havia centenas de abóboras flutuantes descendo o rio. Era bonito de ver.
Acordei com absoluta certeza de que meu pai não estava mais no cemitério e de que tinha perdido centenas de lindas abóboras.
fevereiro 12th, 2008 às 14:49
Os sonhos costumam ser mágicos. Embora a atmosfera seja outra e outro seja o cenário, lembrei-me de Bergman. E o seu texto se fez e se faz real. Magicamente. Um abraço.
fevereiro 13th, 2008 às 6:33
Sonho sonhado ou não, o que importa é o sonho narrado. Narrar é sua arte, dentre outras, Milton. O espetáculo das abóboras deve ter sido lindo, sejam elas morangas, d’água ou abobrinhas italianas. Eram alaranjadas? Assim as vi, ao fantasiar seu sonho. Daí, já são dois ou três os sonhadores: o que deveras sonhou, o que o descreve e quem o lê (escuta). Se assim é, multiplicam-se as abóboras e, a horas dessas, provavelmente o rio Jacuí se encontra coalhado de caixões, defuntos e lembranças. Para isso - e mais - servem os rios: carregam e lavam. Mas, principalmente, expõem um amanhecer de abóboras.
fevereiro 13th, 2008 às 7:10
Dr. Claudio Costa. Devia ser proibido o comentário ser melhor que o post!
:¬)))
Obrigado.
fevereiro 13th, 2008 às 10:23
Alguns comentários valem um post!!
fevereiro 13th, 2008 às 13:41
realmente é de aboborar.